AMBIENTE ACREANO: ARBORIZAÇÃO DA VIA CHICO MENDES: ALTO CUSTO, EQUÍVOCOS E SUGESTÕES PARA A SUA RECUPERAÇÃO
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terça-feira, março 06, 2012

ARBORIZAÇÃO DA VIA CHICO MENDES: ALTO CUSTO, EQUÍVOCOS E SUGESTÕES PARA A SUA RECUPERAÇÃO

Evandro Ferreira* & Ednéia Araújo dos Santos**

A Via Chico Mendes, inaugurada em dezembro de 2003 durante a administração do governador Jorge Viana, está localizada no segundo distrito de Rio Branco e se constitui no principal acesso às rodovias AC-40, BR-317 e BR-364 que ligam, respectivamente, a capital do Acre à região de fronteira com a Bolívia e o Peru, e os vizinhos Estados de Rondônia e Amazonas.

Embora se estenda desde as proximidades da Ponte “Coronel Sebastião Dantas” até o Parque Chico Mendes, na Vila Acre, a parte efetivamente urbanizada da Via Chico Mendes possui uma extensão de apenas 4,3 km que termina na rotatória que dá acesso à BR-364. A implantação desse último trecho favoreceu a integração entre os dois distritos de Rio Branco, consolidou e permitiu a expansão do setor comercial ao longo da extensão da nova via e, com suas belas palmeiras imperiais, tornou-se não apenas mais um cartão postal para nossa cidade, mas também um lugar que nos lembra da importância de estarmos conectados à natureza.

Historicamente, a prática da arborização de áreas urbanas se desenvolveu com o crescimento das cidades e a necessidade de se criar ambientes urbanos nos quais a população pudesse desfrutar dos benefícios proporcionados pelo contato com a natureza: ar mais puro, sombreamento, temperaturas agradáveis nas ruas, praças e parques públicos, e interação com a fauna, especialmente pássaros e pequenos roedores. Todos são fatores que direta ou indiretamente proporcionam uma sensação de melhoria do estado físico e mental nos habitantes das zonas urbanas. E não poderia ser diferente em nossa cidade, que é cercada pela esplendorosa floresta amazônica.

Apesar disso, a espécie escolhida como elemento principal da arborização da Via Chico Mendes foi a palmeira imperial, cientificamente conhecida como Roystonea oleracea e originária do Caribe e do norte da América do Sul (Venezuela e Colômbia). Ela foi introduzida no Brasil por D. João VI no início do século XIX, no Real Horto, que posteriormente deu origem ao atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Dai ter sido batizada pela população de palmeira imperial. Sua disseminação pelo país foi favorecida pelo fato de a mesma apresentar um porte majestoso e altaneiro, com arquitetura colunar que favorece o seu plantio em parques, praças e canteiros centrais de vias urbanas.

Originalmente foram plantadas no canteiro central da Via Chico Mendes 250 mudas de palmeira imperial com porte adulto ou quase adulto, com troncos marrons medindo entre 2-3 metros de comprimento. Elas foram plantadas em fileiras intercaladas com jardineiras nas margens do canteiro, que abriga em sua parte central, e por toda a sua extensão, uma ciclovia com pavimentação asfáltica de aproximadamente 2 m de largura.

As mudas plantadas foram adquiridas em viveiros localizados fora do Acre. Considerando o tamanho das mesmas por ocasião do plantio, estima-se, de forma conservadora, que o custo de cada uma, incluindo o frete até Rio Branco, foi de pelo menos R$ 4 mil. Assim, o gasto estimado para o plantio das mudas de palmeiras imperiais na Via Chico Mendes foi de pelo menos R$ 1 milhão.

Passados oito anos da sua inauguração, os usuários da Via Chico Mendes devem ter observado que a quantidade de palmeiras imperiais diminui sensivelmente. Observaram também que a maioria delas não cresceu como esperado. Aos mais atentos, seguramente surgiu a questão:

- O que aconteceu ou está acontecendo com a arborização da Via Chico Mendes?

Para tentar responder a essa pergunta, em meados de 2011 realizamos um estudo para determinar a situação da arborização daquela Via. Foram abordados aspectos relacionados com a mortalidade, porte atual e estado fitossanitário das plantas, área disponível na base dos troncos, ocorrência de vandalismo, efeito deletério das plantas na rua/calçada e replantios realizados.

Os resultados foram os seguintes. Das 250 mudas originalmente plantadas, apenas 128 (51,2%) encontravam-se vivas. Esta alta taxa de mortalidade pode ser atribuída, em grande parte, à insuficiência de área livre de pavimentação no colo das plantas, fator que restringe de forma severa a penetração de água no solo e causa o fenecimento das palmeiras em razão das dificuldades que elas têm de absorver água e nutrientes do solo. A avaliação mostrou ainda que das plantas sobreviventes, 83,5% não possuíam área livre suficiente na base dos troncos, sugerindo que a tendência de mortalidade se manterá elevada nos próximos anos. Esta também pode ter sido a causa de aproximadamente 40% das plantas vivas não terem se desenvolvido de forma satisfatória, permanecendo com o porte aproximado ao que exibiam quando foram plantadas.

A condição fitossanitária das plantas vivas indica que 72,6% delas apresentam condição boa ou regular. Entretanto, 40,6% delas apresentavam sintomas de ataques por broca (Rhynchophorus palmarum) e/ou fungos (Phytophthora palmivora, Rhizoctonia solani e Pythyum sp.) nos troncos, que poderão ser severamente danificados, ficando sujeitos ao tombamento pela ação do vento e comprometendo a capacidade de transporte de água e nutrientes do solo para a parte aérea das plantas, aumentando ainda mais a mortalidade entre as plantas remanescentes. Um fator que provavelmente favoreceu o ataque de brocas e fungos foi o vandalismo no tronco das palmeiras, observado em 67,9% das plantas sobreviventes.

Como esperado, a maioria das palmeiras vivas (78,9%) não apresentava sistema radicular afetando de forma severa o pavimento adjacente da ciclovia ou da rua. Isso ocorre porque as raízes das palmeiras são fasciculadas e não pivotantes.

Para compensar a diminuição no número de palmeiras imperiais, foram feitos replantios com 28 indivíduos adultos da palmeira macaúba (Acrocomia aculeata), uma espécie espinhosa nativa do cerrado que recentemente foi usada em grande número na arborização da Avenida Amadeo Barbosa. Outros 11 indivíduos da palmeira guariroba (Syagrus oleracea), também nativa do cerrado, foram plantados. Permanecem vazios 83 locais, que aguardam o replantio com palmeiras imperiais ou outra espécie.

A principal conclusão do estudo foi de que a alta taxa de mortalidade das palmeiras imperiais introduzidas na Via Chico Mendes decorre da insuficiência de espaço livre na base de seus troncos, seguido da ocorrência de brocas e doenças em decorrência do vandalismo nos troncos. A solução para esses problemas é ampliar a área livre de pavimentação na base das plantas e realizar campanhas de conscientização junto aos usuários da Via para evitar a ação dos vândalos.

A substituição da palmeira imperial pela palmeira macaúba não parece ser adequada por razões paisagísticas e pela presença de espinhos, apêndices inadequados em plantas cultivadas em lugares com grande circulação de pessoas, como é o caso da Via Chico Mendes. O uso de espécies de palmeiras do gênero Syagrus parece ser uma boa solução. Entretanto, no lugar de importar mudas de espécies exóticas, seria recomendável que os responsáveis pela arborização da Via Chico Mendes priorizassem o uso de espécies nativas como a jaciarana (Syagrus sancona), uma palmeira de porte mediano e rara beleza que tem sido cultivada com sucesso no Campus da UFAC e na área do Parque Zoobotânico há mais de 25 anos. Sementes e tecnologia para o cultivo da mesma existem e podem ser repassadas para viveiros locais de produção de mudas.

A solução para o problema da onerosa arborização da Via Chico Mendes existe e não demanda grandes investimentos, mas é importante que os responsáveis pela mesma tomem uma atitude imediata para corrigir os erros cometidos no passado. De outra forma, a maioria das majestosas (e caríssimas) palmeiras imperiais da Via Chico Mendes irá desaparecer.

* Evandro Ferreira é Engenheiro Agrônomo e pesquisador do INPA/Parque Zoobotânico da UFAC.

** Ednéia Araújo dos Santos é Engenheira Florestal e Bolsista do Parque Zoobotânico/Embrapa-Cenargen.
Publicado por Evandro Ferreira 1 comentários Digg! Link Permanente Envie este artigo para um amigo

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Uma sugestão seria a de usar o açaí de terra firme (solteiro) e não o de touceira usado na Rocha Viana, a qual merece um estudo à parte.

08:53  

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