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segunda-feira, maio 13, 2013

TEMOS QUE SER INTRANSIGENTES CONTRA A CORRUPÇÃO

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Na última sexta-feira, quando ficou clara a extensão do estrago político e administrativo causado pela realização da Operação G-7 da Polícia Federal, o Governador Sebastião Viana emitiu nota deixando claro seu ‘direito de aguardar os devidos e plenos esclarecimentos dos fatos para adotar as medidas em defesa da ética e da função pública’. A nota se encerra afirmando que ‘enquanto não houver um juízo condenatório é justo fazer a defesa à integridade moral de secretários e técnicos de governo supostamente envolvidos em fatos tornados públicos’. A razão dessa posição do Governador se baseia no princípio de que não se deve condenar e punir antecipadamente acusados de malfeitos criminais, pois a presunção de inocência é um direito constitucional garantido a todos.

Essa reação era esperada, pois é praxe invocar tais princípios para evitar injustiças. Entretanto, ela passa para a opinião pública a impressão de que, excluídos os princípios citados acima, o Governador está querendo deixar clara sua lealdade aos seus auxiliares diretamente implicados no caso, e aos empresários que sempre apoiaram suas causas políticas. Isso foi reforçado com a decisão de não afastar temporariamente do cargo os ocupantes de funções públicas arrolados no imbróglio.

A partir desta segunda-feira, quando a confusão e o torpor causado nas hostes governamentais pela Operação G-7 já tiver passado, o Governador deverá tomar atitudes que demonstrem de forma inequívoca a sua defesa intransigente de valores e condutas morais corretas dos ocupantes de funções públicas na sua administração. A mais importante delas é afastar de imediato os ocupantes de cargos públicos arrolados nas investigações. Embora afastamento não seja sinônimo de demissão, a condenação moral dos envolvidos pela sociedade é inevitável. Mantê-los nos cargos não é uma alternativa viável, pois é inadmissível ter como colaboradores diretos servidores que foram ou estão presos por suspeita de terem cometido atos de corrupção.

Não ter afastado temporariamente de suas funções na sexta-feira passada os servidores arrolados no processo desencadeado pela Operação G-7 foi um erro cometido pelo Governador. A imagem de sua administração junto à opinião pública ficará mais comprometida nesta semana quando detalhes das interceptações telefônicas forem revelados. Esse é um fato de extrema relevância para as aspirações políticas do Governador e a prisão, especialmente dos ocupantes de cargos públicos, causa embaraço para os seus apoiadores e virou motivo de chacota para os seus inimigos políticos.

Se continuar a se entrincheirar em posição claramente defensiva, qualquer atitude relativa à investigação ora em curso a ser tomada pelo executivo estadual soará mais como obrigação resultante dos possíveis desdobramentos do processo judicial do que vontade de agir sem qualquer tutela para garantir que a investigação e o processo alcancem seus objetivos de condenar os malversadores de recursos públicos.

E o primeiro exemplo disso será a resolução da prisão preventiva dos servidores investigados. Não afastá-los em nome do princípio da presunção de inocência, como deixou claro o Governador em sua nota de esclarecimento, fará com que fiquem presos por alguns meses em razão da lerdeza dos procedimentos burocráticos policiais e judiciários. Por outro lado, nos próximos dias, quando as demandas de liberação judicial dos presos forem negadas de forma sistemática pela justiça, é possível que os advogados dos encarcerados façam um lobby junto ao Governador para que mude de idéia e os afastem de imediato para garantir a sua liberação.

Os advogados tentarão de todas as formas o relaxamento da prisão preventiva de seus clientes com as alegações de praxe: os acusados são primários, tem endereço fixo, ocupação trabalhista, etc. Entretanto, tudo será em vão se os mesmos, na condição de presos, continuarem a ocupar os cargos públicos que supostamente usaram para cometer os atos ilícitos. Na jurisprudência a condição essencial para o alívio da prisão preventiva é o afastamento dos servidores. A prisão preventiva dos acusados foi tomada pela Desembargadora do caso para evitar que eles atrapalhem o andamento do processo, ameaçando testemunhas ou destruindo provas, além de impossibilitar sua fuga. Mantidos nas suas funções, é improvável ocorrer o relaxamento da prisão preventiva.

Diante dessas opções não resta alternativa ao chefe do executivo que não o afastamento temporário dos servidores. É uma pena que quando isso for feito, a impressão que ficará para a opinião pública não será a de um ato moralizante, mas de favorecimento. É bom o Governador repensar sua assessoria política e jurídica que o deixou cair nessa armadilha.

Foto: Altino Machado

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segunda-feira, maio 06, 2013

EXPERIÊNCIA NA AMAZÔNIA VIRA MODELO MUNDIAL PARA PESQUISAS

Revista Nature destaca o projeto concebido por Thomas Lovejoy, cooperação entre INPA e Smithsonian, que estuda as influências sobre a fauna e a flora da floresta amazônica (PDBFF)

Por Frances Jones

Agência FAPESP – Um projeto científico iniciadPDBFF), resultado de uma cooperação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do Smithsonian Institution, dos Estados Unidos.
o há 35 anos em plena Floresta Amazônica gera frutos ao redor do planeta. Um experimento milionário desenvolvido por uma equipe internacional na ilha de Bornéu, na Ásia, é a mais recente pesquisa que replica e expande o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (
A história do experimento na Amazônia concebido pelo ecólogo americano Thomas Lovejoy e dos projetos “herdeiros” está detalhada em uma reportagem de quatro páginas na edição de 18 de abril da revista Nature, assinada pelo jornalista Jeff Tollefson.
“Trata-se de um panorama admirável do trabalho com os fragmentos florestais e de seus vários benefícios, como por exemplo o treinamento de estudantes de pós-graduação e a inspiração para outros projetos de pesquisa sobre fragmentação”, disse Lovejoy à Agência FAPESP.
Professor da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, Lovejoy recebeu em 2012 o Blue Planet Prize de 2012, considerado o “Nobel do Meio Ambiente”. Ele foi o responsável pela introdução do termo “diversidade biológica” na comunidade científica.
De acordo com o Inpa, o PDBFF, que continua em andamento, tem uma dupla missão: “determinar as consequências ecológicas do desmatamento e da fragmentação de florestas sobre a fauna e a flora na Amazônia e transferir a informação gerada a diferentes setores da sociedade para favorecer a conservação e o uso racional dos recursos florestais”.
A reportagem na Nature detalha como Lovejoy montou o experimento em uma área de aproximadamente mil quilômetros quadrados ao norte de Manaus, com a colaboração de pecuaristas da região. Dentro desse perímetro, ele e sua equipe e um grupo de pesquisadores brasileiros delimitaram 11 trechos de floresta de 1, 10 e 100 hectares. O WWF também apoiou a pesquisa, que hoje recebe verba da National Science Foundation, dos Estados Unidos.
Após a análise da fauna e da flora dos locais demarcados, entraram em cena as serras elétricas e o fogo. Tudo o que estava de fora dos quadrados foi abaixo. Dentro deles, a floresta permaneceu intacta. Com isso, os cientistas puderam estudar no curto e no longo prazo o que acontece com os animais e as plantas quando as florestas são isoladas.
“Os efeitos se espalharam como um câncer para dentro da área não cortada”, lê-se no artigo. “Grandes árvores morreram. Os macacos-aranha foram embora, assim como as colônias de formigas-de-correição e muitos dos pássaros que delas dependem.”
“Ao documentar mudanças generalizadas nos fragmentos de floresta, Lovejoy e seus colegas forneceram os primeiros dados brutos que os conservacionistas precisavam para promover a preservação de áreas extensas de floresta intacta”, continua a reportagem. Na década de 1970, os ecologistas debatiam se era melhor proteger grandes áreas contínuas ou hotspots de biodiversidade menores.
Em 1996, o pesquisador americano Bill Laurance, então cientista no Smithsonian, foi convocado por Lovejoy para trabalhar com os dados produzidos pelo experimento. No ano seguinte, Laurence e sua equipe relataram perda de até 36% da biomassa nos primeiros 100 metros dos fragmentos de floresta intacta em um período de isolamento de 10 a 17 anos. Os cálculos sugeriam que a perda de biomassa ao redor dos limites das florestas decorrente da fragmentação poderia produzir até 150 milhões de toneladas de emissões de carbono anualmente.
A experiência, segundo a revista, também apontou para uma possível solução: a criação de corredores selvagens a partir florestas secundárias, crescidas nas regiões em que os pastos foram abandonados, permitindo a circulação dos animais.
As pesquisas não pararam e continuam até hoje. Quantas espécies nas ilhas de floresta intacta estão fadadas à extinção? As variações rápidas nas populações de insetos e outros animais provocam mudanças no longo prazo na dispersão de sementes e na diversidade da fauna? Qual papel o aquecimento global terá? – são algumas perguntas que, segundo a reportagem, permanecem sem resposta.
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domingo, março 17, 2013

LIVRO SAGRADO DOS KAXINAWÁS ACREANOS E A BIOPIRATARIA

Na Amazônia, uma disputa entre cônsul e Ibama pelo livro sagrado


ROBERTO MALTCHIK/O GLOBO RIO - A ação de uma ONG baiana, presidida pelo cônsul honorário da Holanda em Salvador, numa terra indígena no Acre, quase na fronteira com o Peru, pôs o Ibama em alerta e se transformou em mais um rumoroso episódio de suspeita de acesso ilegal ao patrimônio genético da biodiversidade brasileira. Em jogo, o conteúdo de um livro da etnia Kaxinawá, com a linguagem e as receitas xamânicas relacionadas a 516 ervas medicinais, que teriam o poder de curar 386 tipos de doenças tropicais, especialmente provocadas pelo contato entre o homem e outros animais.

O caso remonta ao ano de 2010, quando o etnomusicólogo brasileiro Ricardo Pamfilio de Souza, financiado pela ONG Arte, Meio Ambiente, Educação e Idosos (Amei), entrou em contato com o pajé Augustinho, da Terra Indígena Kaxinawá do Baixo Rio Jordão (AC), uma das onze áreas oficialmente povoadas pela etnia em solo brasileiro. O Brasil tem cerca de 6 mil índios Kaxinawá. Outros 4 mil vivem no Peru.

Da conversa entre o visitante e o pajé, surgiu o projeto para publicar um livro, em língua nativa, cujo objetivo seria preservar a cultura e o Hãtxa Ruin — a língua dos Kaxinawá. Ocorre que, para “preservar a linguagem escrita”, Panfílio diz que o pajé Augustinho escolheu justamente o conteúdo secular das receitas xamânicas, o “Livro Vivo dos Kaxinawá”, um tesouro da biodiversidade amazônica que, inclusive, já foi alvo de estudos e publicações de botânicos brasileiros, mas com anuência do Conselho de Gestão do Acesso ao Patrimônio Genético (Cgen), presidido pelo Ministério do Meio Ambiente.

A Funai informa que não mediou o acordo entre a Amei e os Kaxinawá e que a comunidade não se beneficiou da ação. Para o Ibama, o livro “pode conter um conjunto de ‘senhas’ para usos de plantas medicinais brasileiras, potencialmente úteis à saúde humana e cobiçadas pela indústria farmacêutica mundial”.

Após mais de um ano de investigação, Pamfílio e Hans Joseph Leusen, empresário de 73 anos, cônsul honorário da Holanda em Salvador e presidente da Amei, foram multados, no ano passado, em R$ 100 mil, sob a acusação de usar o conhecimento tradicional para prospectar, ilegalmente, plantas com potencial uso comercial. Ambos tiveram acesso ao conteúdo do “Livro Vivo”, sendo que os originais continuam na aldeia.

Em 2011, durante operação do Ibama no Baixo Rio Jordão, o pajé Augustinho afirmou, de acordo com relatório da investigação ao qual o GLOBO obteve acesso, que Pamfílio teria armazenado informações em seu notebook com a intenção de produzir dois livros, um de ensino vegetal e outro, o “Livro Vivo”, que seria composto por relatos feitos na floresta pelo próprio pajé, apresentando as plantas e seus respectivos usos. Em meados de 2012, com fortes dores abdominais, o pajé Augustinho caminhou para floresta em um ritual de morte. Hoje, a publicação está embargada.

“Leusen e Panfílio desenvolveram ardiloso mecanismo para obterem dados do conhecimento tradicional associado do povo Kaxinawá, mediante sutil aliciamento de seu pajé, com vistas a terem posse de informações peculiares sobre como e para quais finalidades devem ser utilizadas espécies da flora brasileira, em evidente bioprospecção”, pontua trecho do relatório de investigação.

Mas o Ibama não conseguiu provar se houve transferência do conhecimento absorvido pela Amei para agentes de dentro ou de fora do Brasil. Pamfilio e Leusen recorreram das autuações, e o processo administrativo no Ibama será julgado nos próximos dias. O cônsul holandês demonstra revolta com a ação do Ibama, que classifica como equivocada.

— Esse processo já me custou uma fortuna de advogados por uma coisa que nós não fizemos. Nós não fizemos nada de errado e estamos sendo multados. Esse livro é feito pelos índios, e nós iríamos ajudá-los. É completamente diferente (do que o Ibama afirma). Dentro do processo não há prova! Eu sou o cônsul da Holanda, eu plantei 140 mil árvores na Mata Atlântica, eu ajudo idosos na rua e o Ibama vem destruir o meu nome! — protesta Leusen, que admite que a negociação ocorreu sem autorização da Funai: — Vamos ser honestos: quando você pede alguma coisa para a Funai, você não recebe resposta. Nós fomos lá e fomos convidados pelos índios.

A sustentação é corroborada por Pamfílio, ao ressaltar que a Constituição assegura a qualquer pessoa livre acesso à terra indígena, desde que haja convite formalizado pela comunidade.

— Eu comuniquei à Funai o convite dos índios. Não é uma investigação científica de bioprospecção. É um trabalho educacional indígena, cuja língua nativa está se perdendo. Não é acesso aos conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético. Nem eu nem o Hans conhecemos laboratórios ou conversamos com laboratórios. Eu só quero concluir o meu trabalho — afirma Pamfílio.

Questionado, o Ibama sustentou a versão do relatório: “temos uma reunião de provas obtidas ao longo de meses de investigação que fornecem a materialidade necessária aos processos instaurados de penalização”. O resultado da apuração foi encaminhado ao Ministério Público Federal, mas, como é uma infração administrativa, processo no MPF foi arquivado.
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terça-feira, fevereiro 19, 2013

A ORIGEM DA PUPUNHA DOMESTICADA

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Dentre as mais de 550 espécies de palmeiras nativas das Américas do Sul, Central e do Norte, apenas a pupunha (Bactris gasipaes) é considerada como espécie completamente domesticada. O açaí-de-touceira, atualmente amplamente cultivado na Amazônia, ainda está em estágio inicial de domesticação.

Conceitualmente, a domesticação de uma planta consiste em um longo processo de seleção conduzido pelo homem com o objetivo de adaptar a planta para suprir suas necessidades de alimentos, materiais de construção, medicamentos e outros produtos. Por essa razão, geralmente as plantas domesticadas são geneticamente distintas de seus progenitores selvagens e, na maioria das vezes, totalmente dependentes do homem para sua sobrevivência, não conseguindo se reproduzir na natureza sem a intervenção humana. Isso explica o fato de roçados cultivados com culturas perenes, como café, abacate e mamão, geralmente não prosperarem quando deixados sem os cuidados básicos de podas e limpezas do terreno onde são cultivados.

O processo de domesticação e disseminação do cultivo da pupunha foi realizado por indígenas sul-americanos muito antes da chegada dos primeiros europeus. Quando isto aconteceu, a espécie já se encontrava distribuída por toda a Amazônia, norte da América do Sul e parte da América Central. Os frutos, que podem ser usados na alimentação humana e de animais domésticos, foram a principal razão para a domesticação da espécie. Somente nos últimos 30 anos é que seu cultivo foi expandido para a costa atlântica brasileira, especialmente para a produção de palmito, que rivaliza em qualidade com o palmito extraído de algumas espécies de açaí na Amazônia e da palmeira Jussara, na Mata Atlântica. Esse interesse comercial fez com que a espécie tenha atingido um status de cultivo industrial.

Apesar da sua importância econômica, até recentemente existiam discordâncias quanto à classificação botânica da pupunha. Ocorre que muitas plantas cultivadas de pupunha, com variações no tamanho e na cor dos frutos, foram descritas como espécies ou variedades distintas. Da mesma forma, algumas plantas morfologicamente similares à pupunha cultivada, mas que cresciam espontaneamente na floresta também foram descritas como espécies distintas. Até o famoso botânico alemão Martius contribui para a confusão ao criar o gênero Guilielma para batizar plantas de pupunha cultivada que ele havia encontrado no Maranhão nos idos de 1824.

A confusão quanto ao correto nome científico da pupunha foi resolvida em duas etapas. A primeira, em 1991, quando o pesquisador americano Roger Sanders fez um estudo filogenético e comprovou que o gênero Guilielma proposto por Martius não diferia do gênero Bactris, que havia sido proposto em 1777. Posteriormente, em 2000, o pesquisador inglês Andrew Henderson fez uma revisão taxonômica do gênero Bactris e propôs que o nome científico mais apropriado para as plantas cultivadas de pupunha seria Bactris gasipaes variedade gasipaes. O nome das plantas selvagens morfologicamente similares às cultivadas passou a ser Bactris gasipaes variedade chichagui.

Entretanto, ainda pairam algumas dúvidas sobre  como ocorreu a domesticação da pupunha e algumas perguntas ainda não estão completamente respondidas. Qual ou quais os ancestrais selvagens foram usados pelos indígenas para desenvolver a pupunha domesticada? Isso foi feito de forma isolada em uma única região ou ocorreu de forma simultânea em diferentes localidades na América do Sul e Central?   

Para alguns pesquisadores, a domesticação ocorreu uma única vez em algum lugar do sudoeste da Amazônia, em uma região que compreende parte do Acre, e regiões adjacentes da Amazônia boliviana e peruana. Para outros esse evento único ocorreu no noroeste da Amazônia colombiana. Finalmente, uma hipótese completamente diferente advoga que a domesticação ocorreu mais ou menos simultaneamente em diversas localidades na América do Sul e na América Central.

Estudos filogenéticos que realizamos em meados da década de 90 indicam que sob o ponto de vista anatômico e morfológico pelo menos uma espécie de pupunha selvagem, Bactris dahlgreniana, amplamente distribuída no sudoeste da Amazônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará, é estreitamente relacionada com as plantas cultivadas, sugerindo que estas últimas podem ter sido selecionadas a partir da primeira.

Dados históricos apóiam o sudoeste da Amazônia como o centro de domesticação da pupunha. O botânico suíço Jacques Huber, então funcionário do Museu Goeldi e amplo conhecedor da Amazônia, já havia encontrado a pupunha cultivada e seus parentes selvagens quando visitou o alto rio Solimões, no Brasil e regiões adjacentes no Peru. Quando, por volta de 1904, ele encontrou as mesmas plantas ao longo do rio Purus, se convenceu de que a pupunha selvagem, que ele batizou de Guilielma microcarpa, conhecida pelos nativos como ‘pupunha brava’, era a mais provável ancestral da pupunha cultivada.

O botânico brasileiro Barbosa Rodrigues, ao visitar a região da Chapada dos Guimarães por volta de 1900, encontrou uma espécie de pupunha selvagem em matas de galeria locais, mas não observou a pupunha cultivada, que conhecia de sua viagem ao Pará, realizada por volta de 1870. Como não havia observado pupunha selvagem no Pará, ele propôs que os indígenas que habitavam as cabeceiras dos rios Xingu e Tapajós provavelmente domesticaram a pupunha e levaram sementes da mesma para o baixo Amazonas. Análises genéticas realizadas nos últimos anos apóiam a hipótese de dois eventos de domesticação ocorridos no sudoeste da Amazônia, coincidindo com as proposições de Jacques Huber e Barbosa Rodrigues.

Por hora, existe quase um consenso no meio acadêmico de que a pupunha brava, cujo nome científico mudou de Guilielma microcarpa para Bactris dahlgreniana, é a espécie com maiores chances de ter dado origem à pupunha cultivada. Inclusive seu nome popular deriva do fato da mesma ser em quase tudo idêntica à pupunha cultivada, com exceção dos frutos, que são muito menores e não tem valor comercial. Se a pupunha brava for, no futuro, confirmada como a ancestral da pupunha cultivada, os indígenas responsáveis por esse processo merecem nossa admiração. Afinal, eles partiram de uma espécie cujos frutos mediam menos de 2 cm de diâmetro e desenvolveram variedades cultivadas com frutos medindo até 8 cm de diâmetro. Uma façanha e tanto considerando que o processo foi feito de forma intuitiva.
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terça-feira, janeiro 15, 2013

ESTUDO REVELA ALTA PREVALÊNCIA DE ANEMIA EM CRIANÇAS DE RIO BRANCO

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

A anemia é um problema de saúde pública de alcance global que atinge, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 293 milhões de crianças menores de 5 anos em todo o mundo e sua prevalência mundial é estimada em 47,4%. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, realizada pelo Ministério da Saúde em 2006, revelou prevalência em 20,9% das crianças brasileiras. Para a região Norte, este relatório indicou apenas 10,4% de crianças anêmicas.

Entretanto, pesquisas científicas mais recentes realizadas em várias regiões do país revelaram prevalências maiores de anemia infantil. No Acre, um estudo revelou uma alarmante prevalência de 57,3% no município de Jordão. Outro estudo realizado em Acrelândia e Assis Brasil revelou prevalências de anemia de 24,5% e 36,3%, respectivamente. Os números de Assis Brasil são 50% superiores à média nacional. É importante ressaltar que prevalências de anemia acima de 40% indicam, segundo a OMS, um problema grave em saúde pública.

Em razão da importância da anemia em contexto mundial e nacional e da carência de informações relacionadas ao problema na capital acreana, um grupo de pesquisadores do Centro de Ciências da Saúde e Desporto da Universidade Federal do Acre (UFAC), liderados pelo professor Orivaldo Florêncio de Souza, investigou a prevalência e os fatores associados à anemia em crianças menores de 5 anos residentes em Rio Branco.

Para o estudo foram avaliadas 610 crianças e o diagnóstico de anemia foi positivo quando os participantes do estudo apresentavam teor inferior a 110 g/l de hemoglobina no sangue. Para determinar os principais fatores associados com a prevalência de anemia foram coletadas informações sobre as crianças, práticas alimentares adotadas por suas famílias e informações sobre a condição sócio-econômica das mães.

O resultado da pesquisa indicou que a prevalência de anemia foi de 51,8%. Na faixa etária dos 6 aos 11 meses, a prevalência foi ainda mais elevada, sendo de 65,7% e 87,8% para os sexos masculino e feminino, respectivamente. Dentre os fatores associados à anemia, os mais significativos foram idade das crianças inferior a 2 anos, mães com escolaridade inferior a 8 anos, histórico de anemia entre as mães, e frequência de consumo de carnes e frutas inferior a uma vez por semana.

A pesquisa revelou ainda a pouca efetividade e baixa cobertura (49,6%) do Programa Nacional de Suplementação de Ferro (PNSF) em Rio Branco. O PNFS é um programa criado pelo Ministério da Saúde em 2005 que consiste na suplementação profilática com xarope de sulfato ferroso para crianças entre 6 e 18 meses de idade.

A conclusão do estudo é de que a prevalência de anemia em crianças de Rio Branco é um problema grave de saúde pública. As crianças cujas mães tinham baixa escolaridade e estavam acometidas por anemia mostraram-se mais suscetíveis à mesma. Práticas alimentares inadequadas com frequência de consumo de carnes e frutas inferior a uma vez na semana favorecem significativamente a ocorrência de anemia nas crianças avaliadas.
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O artigo “Anemia em crianças de Rio Branco, AC: prevalência e fatores associados” de autoria de Orivaldo Florencio de Souza, Lucas Felipe de Macedo, Cristieli Sérgio de Menezes Oliveira, Thiago Santos de Araújo, e Pascoal Torres Muniz foi publicado na revista científica Journal of Human Growth and Development volume 22, número 3, páginas 307 a 313.
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sábado, janeiro 12, 2013

PAGAMENTO POR SERVIÇOS AMBIENTAIS*

"...Considere, como exemplo, uma área de mil hectares da Amazônia que é desmatada para a implantação de projetos de pecuária extensiva. As contas nacionais irão registrar a produção anual ou trimestral de grãos e de carnes durante o período da operação dos projetos. Mas nada dirão sobre o valor econômico do capital natural destruído: a madeira de lei, a biodiversidade, a bioenergia, o banco genético, etc." 

Paulo R. Haddad**

No ano 1600 a.C., o imperador chinês Yu dizia que, para proteger as nossas águas, era preciso proteger as nossas montanhas. A afirmativa estabelecia com clareza a diferença entre o que é uma variável estoque e o que é uma variável fluxo, assim como as interdependências entre elas. A variável estoque é estimada num dado momento do tempo e expressa o valor da riqueza ou do patrimônio acumulados até então. A variável fluxo é estimada ao longo de um período de tempo e expressa o valor da renda, da demanda e dos serviços nesse período.

No Brasil, o sistema de contas nacionais está estruturado para medir os fluxos de produção, de consumo, de investimentos, etc., que ocorrem ao longo do ano e do trimestre. Não se referem ao capital nacional, seja ele o capital físico (infraestrutura, máquinas e equipamentos, etc.) ou o capital natural (florestas, bacias hidrográficas, biodiversidade, etc.) acumulado ou depreciado até determinado ponto no tempo.

Essa lacuna no sistema leva a imprecisões e equívocos muito significativos sobre o que está ocorrendo com a realidade econômica do País e de suas regiões. Considere, como exemplo, uma área de mil hectares da Amazônia que é desmatada para a implantação de projetos de pecuária extensiva. As contas nacionais irão registrar a produção anual ou trimestral de grãos e de carnes durante o período da operação dos projetos. Mas nada dirão sobre o valor econômico do capital natural destruído: a madeira de lei, a biodiversidade, a bioenergia, o banco genético, etc.

Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sobre situações como essa, considerando desmatamentos feitos por queimadas, mostram que o valor econômico do que se produz, em regime de produtividade declinante dos recursos naturais, é bem inferior ao valor do que se destrói. Ademais, a história da colonização de nossas fronteiras agrícolas mostra que esse processo de destruição de valor econômico ocorreu por meio de intensos incentivos fiscais e financeiros oficiais.

Na busca de mecanismos de mercado que possam criar estímulos para equacionar essas questões do ponto de vista da sociedade, complementares aos mecanismos de comando e controle, o governo federal pretende instituir no País um sistema de pagamentos por serviços ambientais, por meio de um Projeto de Lei encaminhado ao Congresso Nacional em 2009. Os serviços ambientais são benefícios derivados da natureza que podem ser diretos (alimentos, por exemplo) ou indiretos (filtragem das águas) e tangíveis (matérias-primas) ou intangíveis (prazer estético). Podem ser providos localmente (turismo) ou em escala global (sequestro de carbono). Podem ser dispersos (serviços medicinais da floresta tropical) ou importantes para as futuras gerações (manutenção da biodiversidade).

A elaboração e a implementação de sistemas de pagamentos por serviços ambientais passam por diferentes fases ou etapas e há muitas lições a serem aprendidas a partir de um número crescente e diversificado de experiências internacionais. Sem dúvida, um dos desafios mais complexos é a avaliação econômica dos serviços ambientais, uma vez que ainda não há luzes que possam vir do sistema de contas nacionais do País. Documentos do Ministério do Meio Ambiente mostram que muitos valores dos serviços ambientais, especialmente os relacionados com os benefícios locais, são específicos de cada contexto ecossistêmico, refletindo a inquestionável diversidade do ambiente natural e que os valores econômicos não são uma propriedade implícita dos ecossistemas, mas são integralmente vinculados ao número de beneficiários e ao contexto socioeconômico.

De qualquer forma, é preciso intensificar a mobilização política para a criação de um sistema de pagamentos por serviços ambientais no Brasil a fim de melhor preservar, conservar e restaurar os nossos ativos ambientais. Basta lembrar que os ciclos dos recursos naturais e os ciclos de nossa vida constituem o mesmo conjunto para os viventes e para os que vão nascer.

*Artigo publicado no diário ‘O Estado de S. Paulo’ em 02 de janeiro de 2013


**Paulo R. Haddad, professor do IBMEC/MG, foi ministro do planejamento, da fazenda no governo Itamar Franco.

Ilustração: CI Florestas
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quinta-feira, janeiro 10, 2013

MÉTODOS DE AMADURECIMENTO ARTIFICAL DE BURITI

Sâmara Regina Santana Albuquerque (1), Janice Ferreira do Nascimento (2), Elessandro Santiago Oliveira (1), Anelise Maria Regiane (3), e Evandro J. L. Ferreira (5).

Introdução

O buriti (Mauritia flexuosa) é uma palmeira de grande porte que costuma formar grandes populações oligárquicas em regiões alagadas e de solo ácido. Possui distribuição ampla, tendo sido registrada a sua ocorrência na Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Trinidad, Venezuela e Brasil (Acre, Amazonas, Rondônia, Mato Grosso, Goiás, Pará, Minas Gerais, São Paulo, Piauí e Maranhão). No Acre é encontrado na maioria dos Municípios, mas as maiores populações ocorrem nas cercanias da cidade de Cruzeiro do Sul e ao longo de rios e outros cursos de água da bacia do rio Juruá [1]. 3.7-5.3cm de comprimento e 3-5.2cm de diâmetro

Os frutos do buriti apresentam aspecto escamoso, formato oblongo e coloração vermelho-escuro, quando maduros. Possuem comprimento médio de 3.7-5.3cm e diâmetro de 3-5.2cm. Pesam em média 32,6g, sendo constituídos de 50% de polpa, 45,2% de semente e 7,8% de casca [2]. A polpa, que possui entre 3 e 30 vezes mais Unidades Internacionais-I.U. de provitamina A do que a “cenoura” (Daucus carota), é de cor laranjada quando madura [3].

As folhas podem ser usadas para cobertura de habitações rústicas e as fibras da epiderme servem para a confecção de tecidos, cordas, redes, chapéus e bolsas. Além disso, os frutos têm grande utilização na culinária regional, no preparo de doces e geléias e na extração do óleo [4].

O óleo extraído da polpa, além de possuir características físico-químicas adequadas para uso em cosméticos, também tem potencial para ser usado na produção de Biodiesel. Entretanto, seu melhor aproveitamento qualitativo e quantitativo requer que os frutos usados apresentem maturação homogênea, garantindo alto rendimento na operação de despolpamento dos mesmos.

Material e métodos 

Foram colhidos 10 cachos com frutos não amadurecidos de uma população natural da espécie localizada no km 7 da BR 317, no município de Senador Guiomard, Acre. Os cachos foram transportados para a Unidade de Tecnologia de Alimentos (UTAL) da Universidade Federal do Acre, onde foram selecionados os frutos e estabelecidos os experimentos de maturação artificial. Teve-se o cuidado de usar apenas frutos intactos para evitar contaminação por microorganismos.


Os tratamentos usados foram os seguintes:

a) Método do carbureto: sete lotes de 100 frutos foram pesados e distribuídos em cestos plásticos previamente numerados. Os lotes foram colocados em uma câmara rudimentar feita com lona de polietileno e expostos ao gás acetileno, obtido através da reação de 350g de carbureto e 2 litros de água mantidos em recipiente de alumínio. Diariamente foi feita a reposição da água e do carbureto, retirados e pesados 100 frutos. Destes, 10 eram separados para detalhada análise visual. Os demais eram processados em despolpadeira elétrica para analisar o grau de maturação do mesocarpo.

b) Maturação em água: 500 frutos foram pesados e submergidos em uma caixa d’água fechada exposta ao sol. A água foi trocada diariamente para evitar a fermentação precoce dos frutos e a cada 24 horas foram retirados e pesados 100 frutos, dos quais dez eram separados para detalhada análise visual. Os demais eram processados em despolpadeira elétrica para analisar o grau de maturação do mesocarpo.

c) Método do sol: cinco lotes de 100 frutos foram pesados e distribuídos em bandejas de aço inoxidável (previamente enumeradas), cobertas com lona de polietileno e expostas ao sol. A cada 24 horas uma bandeja foi retirada e seus frutos pesados. Em seguida 10 frutos eram separados para detalhada análise visual e os demais eram processados em despolpadeira elétrica para analisar o grau de maturação do mesocarpo.

Para todos os tratamentos, a análise visual detalhada consistiu na avaliação dos seguintes critérios: cor da casca, desprendimento da casca, cor da polpa, consistência da polpa e aderência do pedúnculo. Depois disso os frutos maduros foram descascados e despolpados manualmente com facas e colheres de aço inoxidável. Os frutos verdes ou de vez foram colocados em béquer com água aquecida (80°C) a fim de facilitar o despolpamento manual. Para verificar a eficiência dos diferentes métodos de amadurecimento, foi realizada a análise centesimal da polpa de cada uma das amostras obtidas de cada dia e método. A quantificação dos teores de umidade foi feita em estufa a 90°C, até peso constante. O Lipídio foi obtido por extração com éter de petróleo em extrator de Soxhlet. O índice de acidez do óleo foi determinado por titulação com solução 0,1N de hidróxido de Sódio (NaOH) utilizando o óleo extraído decorrente da análise de lipídios. Os procedimentos realizados estão de acordo com as normas do Instituto Adolfo Lutz [5].

Resultados e Discussões 

A reposta dos frutos aos três métodos de maturação artificial são observados nas tabelas 1, 2 e 3. A análise visual permite concluir que conforme ocorre a maturação a casca do fruto torna-se cor de vinho e fica mais desprendida da polpa. Esta, por sua vez, torna-se mais tenra e escura, alcançando cor laranja, tem a umidade diminuída e o teor de lipídios aumentado. O fruto maduro desprende-se facilmente do pedúnculo. O método de exposição ao sol (método tradicional de maturação) não mostrou-se eficiente pois não houve maturação e sim desidratação dos frutos. O método de imersão em água leva à maturação não-uniforme dos frutos. Ou seja, os frutos podem ou não estar maduros no tempo proposto para este fim (até 5 dias). O método do carbureto mostrou-se mais indicado, uma vez que os frutos mostraram estágio de maturação uniforme. Na utilização do carbureto são necessários 5 dias para maturação completa.

Agradecimentos 

Ao CNPq, Unidade de Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal do Acre e Fazenda Nichteroy. Referências

[1] FERREIRA, E. J. L. F. Manual das palmeiras do Acre, Brasil. Disponível em: www.nybg.org/bsci/acre/www1/manual_palmeiras.html. Acesso em: 10 Agosto 2005.

[2] ALBUQUERQUE, S. R. S., REGIANE, A. M., Estudo do fruto do buriti (Mauritia flexuosa) para obtenção de óleo e síntese de biodiesel. 29a Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química, Águas de Lindóia, São Paulo.

[3] ALTAMAN, R.R.A., CORDEIRO, M. M. C, A industrialização do fruto do buriti( mauritia Vnifera ou Mauritia flexuosa). 5 ed. Manaus: Sergio Cardoso & CIA. LTDA. 1964.

[4] ALMEIDA, S. P. de.; SILVA, J. A. da. Piqui e buriti: importância alimentar para a população dos cerrados. Planaltina: Embrapa-CPAC, 1994. 38 p.


[5] INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Normas Analíticas do Instituto Adolfo Lutz: Métodos físicos e químicos para análise de alimentos. 3. ed. São Paulo: Instituto Adolfo. 1985.

Tabela 1. Avaliação das características visuais do fruto de buriti (Mauritia flexuosa) maturados pelo método do carbureto. N. d. – não determinado











Tabela 2. Avaliação das características visuais do fruto de buriti (Mauritia flexuosa) maturados pelo método de imersão em água.










Tabela 3. Avaliação das características visuais do fruto de buriti (Mauritia flexuosa) maturados pelo método de exposição ao sol. N. d. – não determinado

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terça-feira, dezembro 11, 2012

FLORESTAS CADUCIFÓLIAS E A OCORRÊNCIA DE BAMBU NO ACRE

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

De acordo com o Zoneamento Ecológico e Econômico do Acre (ZEE), predominam no estado duas grandes regiões fitoecológicas: a ‘Floresta Ombrófila Densa’, mais comum no vale do Juruá, e a ‘Floresta Ombrófila Aberta’, dominante nas regiões central e leste. É importante ressaltar que as florestas abertas geralmente ocorrem em zonas de transição entre a Floresta Amazônica e as áreas extra-amazônicas. A terceira região fitoecológica encontrada no Acre, as ‘Campinaranas’, ocorre em uma pequena área no extremo oeste do estado. São formações vegetais que ocorrem sempre associadas a solos de areia branca em locais extremamente úmidos.

O termo ‘floresta ombrófila’ refere-se às formações florestais nas quais predominam plantas cuja folhagem da copa é renovada de forma gradual ao longo do ano, conferindo um aspecto sempre verde ou perenifólio para a floresta. Estas florestas também caracterizam-se por apresentar um estrato superior – dossel – de grande porte composto por árvores emergentes que alcançam até 50 metros.

Nas regiões de florestas ombrófilas densas e abertas acreanas o ZEE definiu 17 classes de vegetação distintas, a maioria delas combinações de florestas com bambu e/ou palmeiras dominando o sub-bosque. As florestas com bambu dominante, as mais abrangentes, predominam em toda a região central e grande parte do leste do estado.  

Entre 2005 e 2008, durante a realização de estudos florísticos na Estação Ecológica Rio Acre, no alto Acre, e no Parque Estadual Chandless, no médio Purus, foi observada a ocorrência de extensas áreas de florestas nativas onde mais de 50% das árvores emergentes do dossel apresentavam-se sem folhas no auge da estação seca – entre julho e setembro. O comportamento caducifólio do componente dominante dessas florestas ocorre em razão do período seco nas referidas regiões ser intenso e prolongado, estendendo-se entre meados de abril e meados de setembro.

Estas condições – mais de 50% de árvores caducifólias no estrato dominante, duas estações climáticas (chuva e seca) bem demarcadas e período seco superior a quatro meses – mostraram que a classificação dessas extensas áreas florestais como florestas ombrófilas, como proposto no ZEE, não é adequada. Se forem levadas em consideração as definições contidas no Manual Técnico da Vegetação Brasileira do IBGE, a referência obrigatória para a classificação de vegetação no país, o mais apropriado seria classificar estas florestas ombrófilas como ‘Floresta Tropical Caducifólia’ sensu lato. Infelizmente uma classificação no sentido estrito das recomendações do referido Manual é inviável porque a combinação das características apresentadas pelas florestas acreanas não se encaixa em nenhuma das proposições atualmente existentes.

As florestas caducifólias acreanas podem ser observadas mais facilmente em sobrevôos durante o período mais seco do ano, especialmente entre julho e setembro. Na figura acima é possível ver claramente que a maioria das árvores emergentes do dossel da floresta encontra-se sem folhas ou com folhas novas, indicando que passaram por processo recente de perda foliar. No entorno de Rio Branco é possível observar esse fenômeno não apenas nos remanescentes de florestas primárias, mas também em florestas secundárias (capoeiras). E quem adentra a floresta no auge do período seco observa que a camada de folhas secas sobre o solo é bem espessa e encontra-se bem preservada em razão da falta de umidade, fato que impede os microrganismos de realizar o seu trabalho de decomposição da matéria orgânica.

O comportamento caducifólio das árvores emergentes nas florestas do leste e centro do Acre é uma resposta à falta de água no solo decorrente do longo período seco que causa um estresse hídrico nas mesmas. A queda das folhas protege as plantas contra a perda de água pela transpiração que ocorre na superfície das folhas. Se as plantas mantivessem suas folhas no período seco elas iriam perder água até entrar em colapso.

A queda das folhas das árvores emergentes nas florestas caducifólias acreanas resulta em um curto repouso fisiológico das mesmas, equivalente ao período de estresse fisiológico causado pela falta de água, ocasião em que o seu crescimento diminui ou para por completo. Em árvores de grande porte e troncos de grande diâmetro, ocorre uma paralisação do crescimento radial (engrossamento do tronco) e sua retomada algum tempo depois resulta na formação de um anel de crescimento. Esses anéis são claramente visíveis na fotografia de um corte transversal do tronco de uma copaibeira (Copaifera sp.) (ao lado). Esta foto, de autoria do pesquisador Evandro Orfanó Figueiredo (Embrapa-Acre), é resultado de uma pesquisa inédita e pioneira na Amazônia conduzida pelo referido pesquisador que pretende desenvolver modelos matemáticos para estimar o crescimento de espécies madeireiras tropicais com base em anéis de crescimento.

Na referida foto é possível contar pelo menos 48 anéis de crescimento, indicando que ao longo de sua vida esta planta sofreu, repetidamente, estresses fisiológicos que causaram a interrupção do crescimento radial de seu tronco. É possível observar também que a distância entre os anéis é variável, indicando que ao longo do tempo o estresse causado pela falta de água foi mais ou menos severo. Exatamente como acontece com o nosso clima, onde temos anos mais ou menos secos. 

A confirmação da existência de florestas caducifólias no centro e leste do Acre também contribui para um melhor entendimento sobre a ocorrência de cerca de 180 mil km² de florestas com o sub-bosque dominado por bambu no Acre e regiões adjacentes do Amazonas, Peru e Bolívia.

Estudos científicos já mostraram que a expansão do bambu na floresta é favorecida pela abertura de clareiras que disponibilizam luz e espaço físico para o seu estabelecimento. Outro fator, os incêndios florestais, além de fornecer espaço e luz, elimina outras espécies concorrentes do bambu. Estudos também comprovaram que o bambu tem um ciclo de vida de cerca de 30 anos, findo o qual ocorre a floração e morte simultânea de todas as plantas de uma mesma população – que chega a ocupar dezenas de hectares.

Para manter a dominância no sub-bosque das florestas onde crescem, é indispensável que as plântulas de bambu germinadas após a mortalidade das plantas adultas disponham de espaço físico e, principalmente, luz abundante para crescer e se estabelecer rapidamente. Entretanto, se considerarmos que a abertura de clareiras nas florestas é um evento episódico e espacialmente não relacionado à presença de bambu, pode-se concluir que esse mecanismo natural não explica a persistência e o avanço na dominância do bambu em grande parte das florestas acreanas. Assim, a ocorrência de extensas áreas de florestas caducifólias no centro e leste do Acre talvez seja a principal razão para a dominância do bambu nestas regiões.

A queda anual das folhas das árvores emergentes nessas florestas, um evento recorrente e de amplo alcance por toda a região, permite que a luz do sol atinja de forma regular e prolongada o sub-bosque, fornecendo luz em abundância para que o bambu se estabeleça e mantenha a sua dominância nessas florestas. Sem isso, e dependendo apenas da abertura eventual de pequenas clareiras na floresta, a mortalidade simultânea de extensas populações de bambu faria com que a sua dominância fosse afetada negativamente, diminuindo com o passar dos anos.

Por essa razão, não é demais afirmar que a grande ocorrência de bambu em áreas florestais no extremo sul-ocidental da Amazônia está diretamente ligada à existência de florestas caducifólias. É possível também afirmar que o domínio dessas florestas, e do bambu que as habita, é limitado não por razões ligadas ao tipo de solo onde crescem, mas ao clima a que estão sujeitas.

Se não fosse assim, e considerando a agressividade natural e o sucesso do bambu em colonizar novas áreas sob condições adequadas de luz e espaço físico, a ocupação das florestas do sul da Amazônia pelo bambu seria muito mais significativa do que é na atualidade.

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sábado, novembro 17, 2012

CIENTISTAS DESCOBREM POR QUE TOMATES VISTOSOS NÃO SÃO SABOROSOS



Agência FAPESP – Um grupo de pesquisadores nos Estados Unidos identificou as alterações moleculares responsáveis pelo "amadurecimento uniforme" característico da maioria dos tomates à venda em supermercados e feiras.

Essas alterações fazem com que os tomates amadureçam no tempo certo para os vendedores, ganhando em aparência e aumentando as vendas. Mas o "amadurecimento uniforme" também implica em redução no sabor do fruto, que acaba com “gosto de papelão”, segundo a revista científica Science, que acaba de publicar os resultados do novo estudo.

A mutação não afeta propriamente o processo de amadurecimento, mas o padrão de pigmentação do fruto durante seu desenvolvimento. Os pigmentos em questão são as clorofilas e carotenos presentes em cloroplastos, sendo que a mutação do “amadurecimento uniforme” afeta negativamente a formação dessas organelas. Como os cloroplastos são responsáveis pela fotossíntese (a qual irá gerar açúcar) e são reservatórios de carotenos, frutos que não possuem a citada mutação tendem a ter um pouco mais de açúcar e licopeno (caroteno).

Contudo, a diferença é pequena, além desses compostos não serem os principais determinantes do sabor dos frutos, mas sim de sua qualidade, conforme explicpu Lázaro Peres, professor no Departamento de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo, em comentário para a Agência FAPESP sobre o estudo feito nos Estados Unidos.  

Há mais de meio século os produtores têm desenvolvido e selecionado variedades de tomate com coloração verde clara e uniforme antes do amadurecimento.

Na nova pesquisa, Ann Powell, da Universidade da Califórnia em Davis, e colegas dos Estados Unidos, Espanha e Argentina identificaram que o gene responsável pelo amadurecimento do tomate codifica um fator de transcrição denominado GLK2.

Esse fator, uma proteína que regula outros genes, aumenta a capacidade de o fruto fazer fotossíntese, ajudando na produção de açúcares e de licopeno, substância carotenoide que produz a cor avermelhada.

O problema é que a mutação responsável pelo amadurecimento uniforme desativa o gene GLK2. O resultado é que a produção com base no amadurecimento uniforme tem o efeito indesejado de promover o desenvolvimento inferior dos cloroplastos, que contêm a clorofila responsável por transformar energia solar em açúcar. Ou seja, com a perda nos cloroplastos, cai também a produção de ingredientes fundamentais para o sabor do fruto.

“A informação a respeito do gene responsável pelo amadurecimento em variedades selvagens e tradicionais fornece uma estratégia para tentar recapturar as características de qualidade que acabaram excluídas involuntariamente dos modernos tomates cultivados”, disse Powell.

Os autores do estudo sugerem que a manipulação dos níveis de GLK os de seus padrões de expressão podem eventualmente ajudar na produção de tomates e de outros produtos agrícolas com melhor qualidade.

O artigo Uniform ripening Encodes a Golden 2-like Transcription Factor Regulating Tomato Fruit Chloroplast Development, de Ann Powell e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org/content/336/6089/1711.
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sexta-feira, novembro 16, 2012

NÍVEL SOCIOECONÔMICO INFLUENCIA NOTA DE ESCOLA NO ENEM



Por Valéria Dias
Agência USP de Notícias

A renda familiar, a escolaridade dos pais e outros fatores socioeconômicos explicam 80% da média das escolas com mais de 10 alunos prestando o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Os outros 20% podem ser creditados ao mérito da própria escola. Esses resultados foram obtidos pelo pesquisador Rodrigo Travitzki ao analisar dados do Enem dos anos 2009 e 2010 para sua pesquisa de doutorado. O objetivo do estudo era saber até que ponto o ranking de escolas do Enem tem validade como indicador de qualidade escolar.

“O ranking atual serve mais para as elites do que para o governo e a sociedade, pois as escolas melhor colocadas são aquelas cujos alunos tiveram as melhores notas. Mas se a escola recebe no ensino médio um aluno bom cuja nota da prova também foi boa, significa que ela manteve a qualidade do aluno ao longo do período. Entretanto, quando a escola recebe um aluno péssimo, mas que na prova do Enem consegue um resultado mediano, significa que ela conseguiu melhorar o aluno ao longo dos anos, fato que atualmente não é considerado no ranking”, diz o pesquisador, que leciona Biologia para o ensino médio.

A pesquisa está sendo realizada para o doutorado-sanduíche de Travitzki pela Faculdade de Educação (FE) da USP, sob a orientação da professora Carlota Boto, e pela Universidade de Barcelona, na Espanha, sob a orientação do professor Jorge Calero. A escolha por este centro de ensino espanhol ocorreu pois lá se concentram vários especialistas na técnica de análise estatística de dados educacionais. O estágio no exterior teve o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Travitzki analisou especificamente o questionário que os alunos respondem com informações sobre a situação sociocultural e econômica da família, como renda familiar e escolaridade dos pais, e que permite identificar o perfil dos participantes. Com base nesta análise, Travitzki está propondo um outro ranking de escolas para o Enem. “A ideia é ranquear as escolas com base na nota do ENEM de formas mais justas, equitativas, e informativas. O que eu proponho é um modo novo de olhar para o ranking”, destaca o professor. A divulgação do novo ranking deverá ocorrer em março de 2013, quando está prevista a defesa da tese. Antes disso, também está prevista a publicação de artigo científico sobre o tema.

Dentro da ótica do novo ranking, uma escola de periferia, que ocupa um lugar desfavorável no ranqueamento atual, pode ser muito melhor conceituada na análise realizada por Travitzki caso tenha alunos com uma boa pontuação no Enem.

De abril a agosto de 2012, o pesquisador esteve na universidade espanhola onde trabalhou com os microdados do Enem coletados por meio do site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Os dados obtidos após o processo de filtragem são de cerca de 1 milhão de alunos para cada ano. Travitzki escreveu um programa de computador baseado em software livre, sendo que a análise foi realizada sob o ponto de vista da economia voltada para a educação. “Posteriormente pretendo disponibilizar esses códigos”, informa o doutorando.

Enem

O Exame Nacional do Ensino Médio foi criado em 1998, durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com o objetivo de fornecer uma avaliação do ensino médio brasileiro. Na gestão do ex-presidente Lula (e que se estende aos dias atuais, na gestão da presidenta Dilma Rousseff), a nota do Enem passou a ser utilizada para a conquista de vagas em universidades privadas – via Programa Universidade para Todos (Prouni) por meio da concessão de bolsas de estudo em cursos de graduação -, e também na conquista de vagas em universidades federais brasileiras.

O ranking das escolas é divulgado desde 2006 e é baseado nas notas dos alunos. A prova é composta por 45 questões de 4 áreas do conhecimento, totalizando 180 questões. O Enem 2012 ocorre nos dias 3 e 4 de novembro. “O exame é o segundo maior do mundo, avaliando cerca de 6 milhões de alunos ao ano, perdendo apenas para o chinês, que avalia, anualmente, 10 milhões de alunos”, informa o pesquisador.

Prejuízos à educação

Para Travitzki, o ranking de escolas atual fornecido pelo Enem pode empobrecer a educação brasileira por dois motivos. “As escolas começam a se preocupar mais com os bons resultados em testes e podem começar a esquecer de outros elementos importantes para o aprendizado, como a inteligência emocional e a capacidade de trabalhar em grupo, por exemplo. O segundo ponto é que o ranking tende a aumentar as desigualdades, pois favorece as escolas que tiveram as melhores notas e prejudica as que tiveram notas ruins.”

Imagem: Marcos Santos / USP Imagens

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