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segunda-feira, outubro 27, 2014

UMA VITÓRIA DA DEMOCRACIA, UM VOTO CONTRA OS GOLPISTAS

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Na eleição de domingo votei em Dilma Roussef, mas até sábado a noite estava certo que votaria em Aécio Neves. O que me fez mudar? Não compactuo com manipulações e tentativas escancaradas de ganhar eleição no grito. Explico: nessa eleição a sociedade brasileira quase foi vítima da manipulação orquestrada pelo ‘partido da imprensa golpista’ (PIG), termo criado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim para designar o conjunto de grandes empresas de comunicação que monopolizam há décadas a ‘forma e o conteúdo’ das informações que chegam à população brasileira. 

Refiro-me ao episódio protagonizado pela revista ‘Veja’, amplamente difundido pelos integrantes do PIG, que afirma em sua última edição que o doleiro Alberto Youssef denunciou a autoridades policiais e judiciárias a participação da Presidente Dilma e do ex-presidente Lula nos desvios financeiros ocorridos na Petrobrás. O depoimento do doleiro foi acompanhado por seu advogado, que ao ser questionado negou ter ouvido tal afirmação.

Para caracterizar o interesse eleitoreiro, a revista antecipou de sábado para quinta-feira a publicação de sua capa e de parte do texto da reportagem. Além disso, não é preciso lembrar que o interesse em ‘vazar’ partes do processo – que supostamente deveria correr em segredo de justiça – não é canônico, especialmente porque aconteceu na véspera da eleição.

A orquestração patrocinada pelo PIG esta semana não tem nada a ver com a liberdade que a verdadeira imprensa – conservadora ou progressista – tanto reclama. Liberdade de informar tem que vir atrelada com a responsabilidade de apurar e a oportunidade do contraditório para os acusados. O que o Jornal Nacional protagonizou no sábado (25/10) é um exemplo didático do ‘jornalismo de esgoto’. Não deu a Lula espaço para se defender. Não repercutiu a denúncia na sexta, mesmo com tempo de sobra para elaborar sobre o tema. Preferiu ‘fazer a festa’ no sábado, véspera da eleição, quando tentativas de esclarecimentos não iriam ter efeito algum no pleito ocorrido no domingo.

Como bem afirmou o colunista Ricardo Melo no jornal Folha de S. Paulo “A triste realidade: bandoleiros de gravata, travestidos de "bem informados", tentam dar credibilidade a histórias oriundas de porões. A forma e o conteúdo, mais uma vez, andaram de mãos dadas”.

E para os leitores mais jovens, que não conhecem ou se interessam em buscar outros fatos protagonizados pelos integrantes do PIG, fazemos questão de relembrar os episódios que resultaram na eleição de Fernando Collor em 1989.

Não consigo esquecer a manipulação que a Globo fez do debate Collor x Lula no Jornal Nacional exibido na véspera daquela eleição, quando, como agora, não era mais possível reparar a verdade dos fatos. No debate Collor x Lula houve um claro equilíbrio, mas na matéria exibida pelo Jornal Nacional, Collor deu ‘um banho’ em Lula.

E o episódio do sequestro, por terroristas chilenos, do empresário Abílio Diniz? Diniz foi ‘libertado’ no sábado, véspera do embate final Collor x Lula. Os integrantes do PIG não perderam a oportunidade de fazer a ligação do PT com os sequestradores: a polícia – atendendo interesses não esclarecidos até hoje – plantou material de propaganda do PT no cativeiro e, depois de torturar os sequestradores – que apareceram sujos, maltrapilhos, com olhos inchados e lábios partidos –, os fez posar com camisetas brancas, limpas e imaculadas, com propaganda do PT. As fotos foram amplamente divulgadas e um diário de Rio Branco deu como manchete na manhã da eleição ‘PT sequestra Abílio Diniz’. Como Lula poderia ganhar aquela eleição?

Se me arrependo de ter votado em Dilma? O tempo, o senhor da razão, dirá. Hoje tenho minha consciência tranquila, mas se minha escolha se mostrar equivocada poderei me corrigir na próxima eleição, daqui a quatro anos. Essa é a vantagem da democracia e não podemos negar, eleitores de Aécio inclusos, que a vitória de Dilma é uma vitória de nossa democracia. 

Quanto aos que tentaram manipular o resultado dessa eleição, a vitória de Dilma representa um duro golpe em suas pretensões. Resta saber se Aécio fez parte da trama tendo em vista a exploração que fez de forma tão didática, quase orquestrada com o PIG, das denúncias de Veja em seu programa eleitoral, no debate da Globo e em declarações para a imprensa geral.


Eu terei paciência de aguardar os desdobramentos do inquérito policial e do processo judicial. Se houver culpados tenho certeza que pagarão pelos delitos cometidos. José Genoino, José Dirceu, Delúbio Soares, Roberto Jefferson e tantos outros cardeais do PT e de partidos aliados estão ai para provar que nossa justiça tarda, mas não falha.
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sábado, setembro 20, 2014

O BAMBU É UM DESAFIO PARA A CONSERVAÇÃO E O MANEJO DE FLORESTAS NO SUDOESTE DA AMAZÔNIA

Final

Evandro José Linhares Ferreira*
Blog Ambiente Acreano


A ocorrência de florestas com comportamento caducifólio no sudoeste da Amazônia não está citada na literatura. Entretanto, as características dessas florestas se enquadram na definição de floresta tropical caducifólia (22; 47): formações ocorrentes em regiões onde a estação chuvosa é seguida por um longo período seco e com o estrato superior (dossel) formado de macro e mesofanerófítos predominantemente caducifólios, com mais de 50% dos indivíduos despidos de folhagem no período desfavorável. É interessante notar, no entanto, que o estrato inferior das florestas com comportamento caducifólio no sudoeste da Amazônia - dominado por bambu e/ou palmeiras - são perenifólios.


As florestas com comportamento caducifólio do sudoeste da Amazônia estão no limite sul do domínio da floresta ombrófila aberta da Amazônia e devem representar uma transição para outras formações pré-andinas e de regiões mais secas como o cerrado. Entretanto, se elas forem apenas enclaves não é incomum a ocorrência de florestas estacionais em meio a formações de florestas ombrófilas na Amazônia (48). Um indicador que reforça o caráter estacional das florestas com bambu no Acre é a ocorrência anormalmente elevada da palmeira Syagrus sancona e a quase ausência da palmeira açaí (Euterpe precatoria) (49). Syagrus é um gênero mais diversificado e abundante em regiões de cerrado ou em florestas de transição entre a Amazônia e o cerrado, e raro em florestas primárias da Amazônia (50).

Estacionalidade da floresta favorece o bambu

A admissão da ocorrência de florestas estacionais no sudoeste da Amazônia implica na reclassificação de parte considerável das florestas acreanas, consideradas em sua quase totalidade como dos tipos "ombrófila densa" e "ombrófila aberta" (3; 51), e suscita uma importante questão fitoecológica relacionada com a dominância do bambu na região: será que existe um favorecimento climático para o estabelecimento e a manutenção das extensas áreas de florestas com bambu na região? Nenhuma das hipóteses até aqui levantadas para explicar a presença do bambu na região considerou a sazonalidade climática e sua influência sobre a vegetação local: (i) ações antropogênicas (52), (ii) eventos naturais catastróficos como incêndios florestais massivos ocorridos no passado (53), (iii) oportunismo da espécie na colonização de clareiras e supressão da regeneração de outras espécies (7; 8), (iv) danos cíclicos-permententes no dossel da floresta (7) e (v) ocorrência associada a tipos específicos de solo (1).

Um fator que limita a aceitação da primeira hipótese é o fato dos registros históricos indicarem que a presença de assentamentos indígenas pré-colombianos na Amazônia está mais concentrada nas áreas de várzeas e florestas adjacentes do que nas florestas de terra firme dos interflúvios, onde as florestas com bambu do sudoeste da Amazônia são mais frequentes (7). Uma exceção a isso talvez sejam os povos de terra firme responsáveis pela construção de centenas de geoglifos em áreas de terra firme da Amazônia ocidental (54). As demais hipóteses são válidas, mas individualmente não explicam a resiliência do bambu na região.

Se for considerado que o fator climático desencadeia o comportamento caducifólio das florestas com bambu, condições ideais de luminosidade e espaço físico no dossel da floresta estarão disponíveis em bases anuais para o crescimento do bambu durante o período de estiagem. É importante ressaltar que mesmo com restrição de água no solo na estiagem, os colmos de Guadua weberbaueri são capazes de crescer 1,2 m/mês (2) porque acumulam água em seu interior (7). Dessa forma, independente de ações antropogênicas, eventos naturais catastróficos, oportunismo para ocupar clareiras abertas na floresta pela queda natural de árvores ou por blowdowns (rajadas de ventos muito fortes), e abertura de espaço no dossel da floresta via danos físicos causados na copa de árvores de sustentação, a estacionalidade das florestas do sudoeste da Amazônia funciona em favor da manutenção do bambu como o elemento dominador do subosque das florestas locais. O fator climático também deve ser um dos principais fatores que limitam a expansão do bambu para áreas florestais adjacentes à sua atual zona de ocorrência no sudoeste da Amazônia, pois em todas essas áreas adjacentes se verificam aberturas de milhares de clareiras por razões naturais (queda de árvores e blowdowns) ou decorrentes da ação humana (desmatamento, exploração seletiva de madeira).

Considerações finais

As florestas com bambu no sudoeste da Amazônia são formações que demandam extremo cuidado durante as intervenções para a exploração de seus recursos florestais, especialmente a exploração madeireira, pois o bambu, por sua agressividade e rapidez na colonização de novos espaços no interior da floresta, pode comprometer a regeneração natural de outras espécies e alterar a estrutura e a composição florística.

O fato das florestas com bambu serem do tipo abertas as tornam naturalmente muito mais suscetíveis ao fogo do que outras formações florestais amazônicas, como as florestas densas. Além disso, a mortalidade sincrônica e em massa do bambu, cujas populações podem ocupar extensões superiores a 2.700 km2, aumenta de forma dramática o risco de incêndios florestais na região.

A seca de 2005 favoreceu a ocorrência de numerosos incêndios florestais no sudoeste da Amazônia que alteraram a estrutura e a diversidade das florestas locais. Essas modificações estruturais e florísticas tornaram as florestas impactadas pelos incêndios florestais mais suscetíveis ao fogo e, provavelmente, favoreceram a expansão do bambu para novas áreas.

O longo período de estiagem que ocorre no sudoeste da Amazônia induz a maioria dos indivíduos arbóreos das florestas com bambu a se comportar de forma estacional, perdendo as folhas anualmente. Essa condição, independente de outras estratégias de crescimento e expansão que o bambu possui, é um dos fatores determinantes para a sua perpetuação nas florestas da região.

Nota: Os números entre parênteses referem-se às referência bibliográficas consultadas, disponíveis na íntegra do artigo, publica do na revista Ciência e Cultura, Vol. 66, p. 46-51, jul.-set. de 2014.

*Engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA-AC e do Parque Zoobotânico da UFAC.
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sexta-feira, setembro 19, 2014

O BAMBU É UM DESAFIO PARA A CONSERVAÇÃO E O MANEJO DE FLORESTAS NO SUDOESTE DA AMAZÔNIA

Segunda parte

Evandro José Linhares Ferreira* 
Blog Ambiente Acreano

As florestas com bambu e os riscos de incêndios florestais 

O perigo da invasão do bambu na Amazônia ocidental não decorre apenas da exploração madeireira. Outra ameaça é a ocorrência de fogo de origem natural ou decorrente de atividades humanas.

É possível que as mudanças climáticas em curso tenham contribuído de forma significativa para a seca que afetou severamente o sudoeste da Amazônia em 2005, uma das mais intensas dos últimos 100 anos (19; 20). Este evento pode ter sido um prólogo do que deverá acontecer nas próximas décadas, pois mais de 75% dos modelos climáticos propostos para a região sugerem que, até 2100, parte da extremidade leste e sul da Amazônia atualmente ocupada por florestas se tornará climaticamente imprópria para essas florestas, que serão substituídas por um tipo de vegetação parecido com as savanas (21).

A alta suscetibilidade dessa região às mudanças climáticas revelada pelos modelos climáticos (20) se deve, em parte, ao fato da tipologia florestal predominante ser do tipo "aberta", como são as florestas com bambu. No âmbito do sistema brasileiro de classificação da vegetação, elas são consideradas como "florestas ombrófilas abertas" (22). Elas predominam na parte sul da Amazônia e são consideradas como transição entre a floresta amazônica e áreas extra-amazônicas. Elas se distinguem fisionomicamente das florestas densas por apresentar dossel com árvores mais espaçadas (aberto) e ocorrer em regiões com climas sazonais onde a estação seca varia entre 2 e 4 meses (23).

O dossel mais aberto das florestas do sul da Amazônia favorece a predominância de alguns grupos de plantas no subosque, com destaque para as palmeiras (várias espécies) e o bambu (principalmente G. sarcocarpa e G. weberbaueri), resultando na ocorrência generalizada de florestas com palmeiras e bambu por toda a região.

A exploração madeireira, especialmente das árvores de maior porte, abre clareiras nessas florestas e contribui para ampliar a abertura do dossel florestal (24). Além de contribuir para aumentar a dominância do bambu nos locais em que já está presente e favorecer a sua expansão para áreas onde estava ausente (25; 26), a exploração madeireira também aumenta a suscetibilidade ao fogo (26-28), pois o microclima no interior das florestas abertas é mais seco e a serrapilheira que se acumula sobre o solo não conserva a umidade da mesma forma que nas florestas densas, onde o dossel é mais compacto (29; 30).

Pesquisadores que estudam florestas com bambu na Amazônia e em outras regiões já alertaram que a remoção de árvores madeireiras de grande porte é problemática não apenas porque elas tem naturalmente baixo volume de madeira e área basal, mas também porque isso aumenta os riscos de incêndios florestais (27-28; 31-32), especialmente após a exploração da madeira (16).

A seca de 2005 no sudoeste da Amazônia proporcionou condições para a ocorrência de numerosos incêndios florestais espontâneos (33-35) e contribuiu para tornar as florestas da região ainda mais suscetíveis ao fogo (36-38). As florestas impactadas pelo fogo tiveram sua estrutura alterada, pois o fogo afetou severamente as plantas do subosque, diminuiu a diversidade florística e causou a mortalidade de árvores de grande porte (39-42). Nessas condições, é possível que tenha havido uma expansão do bambu para o interior dessas florestas. A recorrência da ocorrência de incêndios florestais causados pelo homem na região, especialmente os derivados da queima de áreas agrícolas adjacentes às áreas florestais, é outro fator que deve contribuir para a expansão e dominância do bambu no sudoeste da Amazônia (26).

Florestas com bambu são estacionais? 

Entre 2005 e 2008 diversos sobrevoos foram realizados entre as cidades de Rio Branco e Santa Rosa do Purus, no Acre, por ocasião da elaboração do plano de manejo do Parque Estadual (PE) Chandless, que fica localizado no centro da "província" de bambu no sudoeste da Amazônia. Fotografias aéreas da floresta tomadas no auge do período seco (julho-agosto) durante esses sobrevoos revelaram algo intrigante para os pesquisadores: em todas as ocasiões, mais de 50% dos indivíduos arbóreos emergentes ou integrantes do dossel da floresta encontravam-se desprovidos de folhas ou mostravam apenas folhas novas, expondo a maior parte do subosque florestal dominado por bambu e/ou palmeiras abaixo.

Os primeiros indícios do caráter estacional das florestas naquela região remontam ao trabalho de caracterização da vegetação da Estação Ecológica (EERA) Rio Acre, localizada nas cabeceiras do rio Acre, no extremo leste do estado. Durante a estação seca de 2005 observou-se que a maioria dos indivíduos arbóreos nas florestas de encostas e topos de elevações na EERA Rio Acre estava desprovida de folhas (43). Como 2005 foi climaticamente atípico em razão da seca severa que atingiu a Amazônia Ocidental (20), se pensou que o comportamento estacional observado era consequência desse fenômeno. Entretanto, estudo florístico realizado no período chuvoso que se seguiu constatou que 61% dos indivíduos arbóreos encontrados correspondiam a espécies deciduais (44).

A EERA Rio Acre e o PE Chandless estão separados por uma faixa de floresta com cerca de 40 km de largura e por isso compartilham condições climáticas semelhantes, com pluviosidade de 1.900 mm em anos normais, mas que pode cair para menos de 1.500 mm em anos muito secos (45). A sazonalidade da precipitação é bastante pronunciada e o período seco pode se estender por até cinco meses (meados de abril a meados de setembro), mesmo nos anos considerados climaticamente normais (40; 45). Dessa forma, a possível explicação para o comportamento caducifólio das árvores emergentes e integrantes do dossel das florestas com bambu no Acre é climática, pois as plantas, especialmente as de maior porte, perdem as folhas em resposta à falta de água no solo durante a longa estiagem evitando, dessa forma, estresse hídrico e possível colapso.

Sem ter como manter a copa enfolhada, os indivíduos arbóreos, especialmente os emergentes, tendem a entrar em repouso fisiológico por um curto período de tempo e o seu crescimento, especialmente o radial, diminui ou para por completo dependendo da intensidade e da duração da estiagem. A retomada do crescimento após o surgimento de novas folhas resulta na formação de anéis de crescimento, fato observado em algumas espécies nativas do leste do Acre como a copaíba (Copaifera sp.). Esta condição tem levado pesquisadores locais (46) a tentar desenvolver modelos matemáticos para estimar o crescimento de espécies madeireiras locais com base em seus anéis de crescimento. 

[Artigo continua...]

Nota: Os números entre parênteses referem-se às referência bibliográficas consultadas, disponíveis na íntegra do artigo, publicado na revista Ciência e Cultura, Vol. 66, p. 46-51, jul.-set. de 2014. 

*Engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA-AC e do Parque Zoobotânico da UFAC.
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quinta-feira, setembro 18, 2014

O BAMBU É UM DESAFIO PARA A CONSERVAÇÃO E O MANEJO DE FLORESTAS NO SUDOESTE DA AMAZÔNIA

Primeira parte

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

No sudoeste da Amazônia ocorrem extensas áreas de florestas nativas com o subosque (interior da mata) dominado por algumas espécies de bambu do gênero Guadua (Figura 1). Localmente conhecidas como "tabocais" no Brasil e "pacales" no Peru, essas florestas ocupam uma área estimada em 161.500 km2 (1) (Figura 2) no sudoeste da Amazônia brasileira, nos estados do Acre e Amazonas, norte da Amazônia boliviana, no Departamento de Pando, e quase toda a Amazônia central do Peru, nos Departamentos de Madre de Dios e Ucayali. Estima-se que 59% da cobertura vegetal do Acre é composta por florestas primárias nas quais o bambu se apresenta como elemento principal ou secundário do subosque (2; 3).

O gênero Guadua está amplamente distribuído nas Américas e caracteriza-se pelo hábito arborescente, porte mediano a grande, colmos e ramos com espinhos recurvados que auxiliam a sua fixação em outras plantas (4). Assim como outros bambus, Guadua possui florescimento monocárpico, ou seja, cada população individual apresenta um único evento com floração e frutificação maciças e sincrônicas (5; 6) seguidas de mortalidade de toda a população. A longevidade das populações de Guadua no sudoeste da Amazônia é estimada entre 27 e 28 anos (1). A sincronia na floração, frutificação e morte do bambu acontece por que ele é uma planta clonal, suportada por uma extensa teia rizomatosa subterrânea. Estudo recente estimou que o tamanho médio das populações de bambu no sudoeste da Amazônia é de 330 km2, mas em uma delas a extensão ocupada era de 2.750 km2 (1).

As espécies de bambu mais frequentes nos tabocais do sudoeste da Amazônia são Guadua sarcocarpa Londoño & P. M. Peterson e G. weberbaueri Pilg. Ambas são lenhosas de hábito arborescente, sarmentosas e podem atingir até 20 m de altura e 10 cm diâmetro (4). Embora eretos no início de seu crescimento, os colmos adultos dessas espécies se apoiam em outras árvores para atingir o dossel da floresta. Nesse processo as copas das árvores de pequeno e médio porte (DAP > 30 cm) nas quais os colmos se apoiam são danificadas (7). A grande concentração de colmos que se estabelece nas áreas mais propícias para a espécie exerce uma carga de peso excessiva sobre as árvores apoio, que, em algumas situações, terminam por cair. Sem sustentação, os colmos maiores inclinam-se ou quebram-se e caem sobre as plantas menores do subosque florestal abrindo uma clareira e formando uma massa que bloqueia a passagem da luz e suprime fisicamente o recrutamento de outras árvores. As clareiras abertas são rapidamente ocupadas por novos colmos de bambu (8) e esse ciclo quase perpétuo de distúrbios no dossel florestal é uma das estratégias que os bambus do sudoeste da Amazônia usam para manter, de forma perene, a ocupação de extensas áreas florestais na região (7).

De uma maneira geral, florestas dominadas por bambus apresentam-se estruturalmente alteradas, especialmente nos estratos intermediários e no dossel. Possuem menor riqueza florística e densidade de árvores, e a redução da área basal arbórea total varia entre 30 e 50% (8-11). A presença do bambu também reduz entre 29 e 39% a biomassa aérea da floresta (12; 13) e entre 30-50% o potencial de armazenamento de carbono (2). Ele pode afetar ainda o influxo de outras espécies arbóreas, enfraquecer a habilidade competitiva das espécies com baixa capacidade de adaptação quando o ambiente passa a ser dominado pelo bambu, alterar a composição florística, reduzir em quase 40% o número de espécies na amostra de um hectare, e causar uma redução na diversidade a ponto de a mesma ser considerada uma das mais baixas da Amazônia (2; 14).

A exploração madeireira e o risco da invasão do bambu

Mesmo restritas ao sudoeste da Amazônia, as florestas com bambu são relevantes biologicamente em razão de sua ampla ocorrência na referida região. Apesar disso, a insuficiência de estudos científicos para compreender a dinâmica dessas florestas pode comprometer os esforços locais de exploração florestal sustentável. E o caso da exploração madeireira é o mais emblemático porque esta atividade é praticada de forma seletiva e a retirada das árvores deixa como legado imediato centenas de clareiras no dossel da floresta. Essas clareiras, com abundante espaço físico e luminosidade, são extremamente favoráveis ao desenvolvimento do bambu, que tem ampliada as condições para se expandir em áreas onde antes não existia. É preciso, portanto, descobrir as condições que favorecem o aparecimento do bambu, sua velocidade de crescimento e o tempo que leva para dominar uma determinada área florestal. Para o Acre, a resposta a essas questões é muito importante e urgente porque é nas regiões central e leste do estado, onde se concentram as florestas com bambu, que a exploração madeireira é mais intensa.

Estudos recentes mostram que a exploração manejada de madeira em florestas com bambu é mais complexa (15; 16) e limitada pelo fato de elas apresentarem menor área basal e densidade de árvores, resultando quase sempre em um menor volume de madeira explorado. Uma das sugestões para garantir a exploração sustentável nessas florestas envolve a combinação de ciclos curtos de cortes, baixa intensidade de exploração e rotação das espécies a serem exploradas em cada ciclo (17).

Uma avaliação do manejo de madeira em floresta com bambu no leste do Acre demonstrou que o volume de madeira remanescente após a primeira exploração se reduziu em 2/3, indicando que, no longo prazo, o manejo das espécies comerciais fica comprometido pela pouca quantidade de árvores passíveis de exploração futura. Isso levou os autores do estudo a duvidar se a exploração de madeira em florestas com bambu pode ser sustentável, especialmente nos casos que envolvem grupos de pequenos proprietários que realizam a exploração de forma comunitária (15). Para eles, a melhor alternativa de manejo seria restringir a retirada das árvores ao período imediatamente posterior aos eventos de mortalidade natural das populações de bambu, preferencialmente durante a estação seca que se segue a esses eventos (17), quando as plântulas da espécie ainda estão muito vulneráveis e o sistema de rizoma ainda não está completamente desenvolvido (18).

Existe uma incerteza e preocupação sobre o que acontecerá com as florestas do sudoeste da Amazônia após a exploração seletiva de milhares de árvores. Sabe-se que as florestas dominadas por bambu são floristicamente muito heterogêneas (15) e isso torna difícil prever se as áreas exploradas seguirão seu curso natural de regeneração ou se o bambu, com sua agressividade exagerada, e ajuda humana via abertura de clareiras, irá promover mudanças estruturais e biológicas de resultados imprevisíveis. Pode parecer exagerado, mas no contexto atual de desconhecimento científico e da intensa atividade de exploração florestal, existe a possibilidade de grandes extensões florestais da Amazônia sul-ocidental se transformarem em tabocais.

[Artigo continua...]

Nota: Os números entre parênteses referem-se às referência bibliográficas consultadas, disponíveis na íntegra do artigo, publicado na revista Ciência e Cultura, Vol. 66, p. 46-51, jul.-set. de 2014. 

*Engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA-AC e do Parque Zoobotânico da UFAC.
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quarta-feira, junho 18, 2014

REFORMA AGRÁRIA NO ACRE: ASSENTOU, DETONOU?

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Nos últimos anos, a facilidade de acesso a imagens de satélite tem permitido a observação "desde lá de cima" de ilegalidades ambientais cometidos "cá em baixo". Se você leitor tem acesso à internet e usa com frequência o programa Google Earth, uma ‘rápida visita’ à região compreendida pelos municípios de Plácido de Castro e Acrelândia permite ver claramente a situação de ilegalidade existente na maioria dos lotes dos projetos de assentamentos do Incra daquela região quando o assunto se refere ao tamanho mínimo da reserva legal que eles deveriam preservar.

Esta situação é comum na maioria dos projetos de assentamento existentes no Acre. A imagem que ilustra este texto, um recorte de algumas propriedades em um projeto de assentamento do Incra nas cercanias de Brasiléia (os retângulos correspondem aos lotes), permite ver com facilidade que algumas propriedades já alcançaram 80% de desmatamento da floresta, quando a lei exige exatamente o contrário.

Originalmente planejados para receber pequenos agricultores e suas famílias em pequenos lotes de 100 hectares, esse tipo de assentamento agrícola se constitui, na atualidade, em um modelo anacrônico que, indiretamente, promove a destruição paulatina da cobertura florestal para, em seu lugar, serem implantadas pastagens para a criação extensiva de gado. Se alguém fizer uma visita às propriedades ilustradas na figura acima seguramente constatará que não existem mais ‘pequenos agricultores’ assentados no local. E não será surpresa se também verificar que já faz muitos anos que os lotes foram vendidos (‘por debaixo do pano’) para fazendeiros que estão, gradativamente, transformando o projeto de assentamento do Incra em uma grande fazenda.

Essa prática é generalizada por toda a Amazônia. Logo que o Incra emite o título de posse definitiva, muitos assentados vendem os lotes para outras pessoas, quase sempre fazendeiros em busca de terras baratas para expandir suas propriedades. Depois de vender os lotes, os novos ‘sem terra’ vão bater nas portas do Incra exigindo novos lotes. E quando são agraciados com novas áreas de terra, a primeira coisa que eles fazem (isso é inevitável) é desmatar "um pouquinho" da floresta para cultivar milho, arroz, feijão, mandioca e outros produtos alimentares. Muitos até formam umas poucas hectares de pasto para criar uma dúzia de cabeça de gado. Nada que cause grandes estragos. Entretanto, se isso se repete constantemente, o impacto ambiental desta rotina é enorme.

Resumindo o problema: estamos caminhando em círculos. Tanto sob o ponto de vista da reforma agrária quanto de desmatamento. O irônico é que pela lei da reforma agrária, os lotes de projetos de assentamento não podem ser revendidos e, teoricamente, áreas destinadas para pequenos agricultores deveriam permanecer como tal e não transformadas em grandes fazendas de gado. Infelizmente isso tem acontecido o tempo todo e, pelo menos no Acre, todo mundo vê e sabe onde as fazendas de criação de gado estão prosperando nos projetos de assentamento. Se nada for feito, vamos precisar de muitos "Brasis" para atender a demanda de uma reforma agrária feita "as cegas" e sem critérios.

Um exemplo presente do que o futuro nos reserva está acontecendo no Projeto de Assentamento (PA) Carão, localizado a cerca de 50 km da cidade de Rio Branco. Esse assentamento, criado em 1991, possui uma área de pouco mais de 11 mil hectares nas quais estão assentadas cerca de 270 famílias que ocupam lotes com área média de 60 hectares.  Um trabalho publicado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UNB) em 2013 alerta que, mantido o ritmo de desmatamento praticado pelos pequenos proprietários, antes de 2018 toda a vegetação fotossinteticamente ativa do PA Carão terá sido suprimida. Na atualidade a reserva legal, que deveria recobrir 80% da área dos lotes, ocupa apenas 39% da área total do projeto de assentamento.

Uma ameaça que paira sobre os remanescentes florestais do PA Carão é a predominância de florestas abertas com bambu. Como se sabe, a cada 28 anos as populações de bambu morrem naturalmente e se esse evento ocorrer no período mais seco do ano, as florestas locais ficarão extremamente susceptíveis ao fogo. No mesmo estudo, os pesquisadores da UNB constataram que durante a grande seca ocorrida em 2005 pelo menos um terço da área do PA Carão foi afetado por queimadas favorecidas pela estiagem anormal. Assim, além da ameaça direta do homem e do comportamento natural de parte das plantas que forma a vegetação, as florestas sofrem com os eventos climáticos decorrentes da mudança climática em curso.

Em 2006 a engenheira agrônoma da Ufac, Sumaia Vasconcelos, alertava em uma reportagem do site ‘O Eco’ que ‘grande parte dos assentamentos no Acre apresenta menos que 50% da reserva legal e mata ciliar totalmente destruída’. Na época, trabalhando com monitoramento de queimadas no Parque Zoobotânico da UFAC, Suamaia dizia ainda que nos municípios onde os projetos de assentamento estavam localizados o número de focos de calor detectados por satélite era bastante elevado. “No leste do estado, onde aconteceram 40 dos 60 assentamentos no ano passado (referindo-se ao ano de 2005), foram registradas mais de 80% das queimadas do Acre”.

A situação ambiental precária dos assentamentos agrícolas na Amazônia não é novidade. Assim como as velhas desculpas para justificar a sua insustentabilidade: ‘falta de orientação e acesso a técnicas avançadas de cultivo levam os pequenos agricultores a continuar a com a prática de corte e queima’, ‘falta de apoio para o cultivo e de suporte para o escoamento da produção, além da precariedade das estradas estão entre as principais razões para os assentados deixarem suas terras logo depois de serem assentados pelo Incra’.

Na teoria, então, bastaria fazer assentamentos próximos a centros consumidores ávidos para comprar a produção agrícola dos assentados e ter por perto as instituições de apoio técnico, ambiental e financeiro, certo?

Não é o que parece se olharmos a situação do PA Carão, que está localizado a apenas 50 km de Rio Branco, que se constitui não apenas no maior mercado consumidor da produção agrícola acreana, mas também é sede de todos os órgãos e instituições ligadas ao setor agrícola e ambiental do Estado: Seaprof, Secretaria Estadual de Agricultura, Departamento de Florestas (SEDENS), Secretaria Municipal de Agricultura, Secretarias municipal e estadual de Meio Ambiente, Incra, Ibama, Imac, Embrapa, UFAC e instituições de fomento agrícola.

Vejam que com todas estas ‘vantagens competitivas’, as perspectivas ambientais do PA Carão são as piores possíveis e se prevê que antes de 2018 sua área florestal deverá ter sido suprimida.

Quem errou e não procurou corrigir os erros? Quem se acomodou e não foi à luta para mudar a situação? Estas são provavelmente as perguntas óbvias que muitos costumam fazer com o dedo apontado para os possíveis culpados quando a situação é irremediável. Felizmente o desastre ainda não se consumou e ainda dá tempo para unir esforços e evitar que essa ‘mancha’ fique para sempre marcada em todas as pessoas e instituições que tem o dever moral e legal de prevenir eventos como o que se anuncia para o PA Carão.

*Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta em 17/06/2014.
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terça-feira, maio 27, 2014

COMO FOI POSSÍVEL CONSTRUIR GEOGLIFOS NAS FLORESTAS ACREANAS? (II)

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

O argumento de que os indígenas levaram mil anos para resolver o problema das ‘terras fracas’ da Amazônia, ou seja, desenvolver técnicas agrícolas para alimentar grandes contingentes populacionais em áreas de florestas de terra-firme onde foram construídos os geoglifos não se sustenta porque essas técnicas deveriam ter sido herdadas por seus descendentes, contemporâneos dos primeiros exploradores espanhóis e portugueses que adentraram a Amazônia no início do século XVII. Se isso tivesse acontecido, esses povos deveriam ter prosperado e formado assentamentos perenes, mas os primeiros exploradores encontraram apenas pequenos grupamentos nômades sobrevivendo da caça e da pesca, em sua maioria habitando as margens dos grandes rios da região.

Nessa altura os geoglifos já haviam sido ‘engolidos’ pela floresta e sua existência só seria revelada no final do século XX. É como se os povos construtores dessas estruturas magníficas, que dominaram uma ampla região no limite sul-ocidental da Amazônia, tivessem desaparecido de forma rápida em um evento pré-colombiano catastrófico – doença? – sem deixar descendentes que pudessem continuar as suas práticas culturais, construtivas e de manejo da floresta.

A chegada do homem no sul da Amazônia deve ter acontecido por volta de 10 mil anos atrás, no final da última glaciação. Antes da glaciação, a paisagem local era dominada por extensas savanas que abrigavam uma megafauna diversa composta por preguiças e jacarés gigantes, tatus ‘do tamanho de um fusca’, e outros herbívoros igualmente grandiosos. O aquecimento ao final da glaciação permitiu a rápida ocupação de toda a região por florestas tropicais abertas e densas. E foi nesse novo ambiente que há cerca de 2-3 mil anos atrás os geoglifos foram construídos. Portanto, os seus construtores não tiveram outra opção, mas ‘enfrentar’ a floresta para realizar suas obras.

Estudos já demonstraram que o desmatamento de um hectare de floresta usando machados feitos de pedra demandam grande tempo e uma quantidade imensa de mão-de-obra: 1.883 homem/hora. Embora a mobilização de tal contingente não tenha sido de todo impossível no passado, o principal fator limitante para tal empreendimento seria a alimentação desse batalhão de pessoas e respectivas famílias. Como produzir grãos, raízes e proteína animal em quantidade suficiente para alimentar adequadamente a todos?

Vários pesquisadores tem procurado uma explicação lógica para entender como os construtores dos geoglifos tiveram sucesso em sua empreitada trabalhando em um ambiente francamente desfavorável. E uma das que me chamou mais a atenção foi a proposta por pesquisadores da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, publicada em um artigo na edição de abril da revista Journal of Biogeography. Nesse artigo, tendo como base imagens de satélite e uma série de dados ambientais (temperatura, precipitação, características dos solos, elevação, etc) eles modelaram a distribuição presente das florestas com bambu (Guadua spp.) e dos geoglifos no sudoeste da Amazônia e encontraram uma forte associação entre a localização dos geoglifos e florestas dominadas pelo bambu. É importante observar que nesta região as florestas com bambu são muito comuns nas regiões dos interflúvios, popularmente conhecidas como terra-firme ou 'centro', na linguagem dos extrativistas da região.

Sabe-se que as populações de bambu morrem de forma sincrônica porque elas são clonais, ligadas por um complexo e extenso sistema rizomatoso subterrâneo. Assim, quando esse rizoma morre, todos os colmos de bambu ligados a ele morrem juntos. Um estudo recente determinou que a longevidade dos bambuzais no sudoeste da Amazônia varia entre 27 e 28 anos e que o tamanho médio dos mesmos é de 330 km², sendo que o maior deles ocupava uma extensão de 2.750 km². Quando uma dessas populações de bambu morre, uma grande quantidade de massa vegetal inflamável se deposita sobre o solo da floresta. E se esse evento acontece no auge do período seco, a probabilidade de realizar a queimada da floresta é elevada. Dessa forma, conforme sugerido pelos pesquisadores da Universidade de New Hampshire, a eliminação da floresta é imensamente facilitada.

De fato, as florestas com bambu são muito diferentes de outras florestas na região. Elas apresentam-se estruturalmente alteradas, especialmente nos estratos intermediários e no dossel, possuem menor riqueza florística e densidade de árvores, e a redução da área basal arbórea total varia entre 30 e 50%. A presença do bambu reduz em até 39% a biomassa aérea da floresta e entre 30-50% o potencial de armazenamento de carbono. O bambu também pode afetar o influxo de outras espécies arbóreas, enfraquecer a habilidade competitiva das espécies com baixa capacidade de adaptação e reduzir em quase 40% o número de espécies na amostra de um hectare. Inventários realizados em florestas com bambu no Acre revelaram uma densidade mínima de 300 árvores/hectare (diâmetro a altura do peito igual ou superior a 10 cm), enquanto nas florestas sem bambu esse número pode passar de 600/hectare.

Pode-se, portanto, pensar que os construtores dos geoglifos eram povos sistemáticos que monitoravam diversos bambuzais e que tinham ideia aproximada de quando a morte dos mesmos iria acontecer. Com paciência de sobra e um pouco de sorte, a morte de um ou outro bambuzal eventualmente ocorria no período mais seco do ano. Nessa condição, a queimada da floresta era facilitada e a eliminação da maior parte da vegetação era feita pelo fogo, restando aos indígenas apenas a derrubada das árvores de maior porte, que nas florestas com bambu são em número significativamente inferior ao de outros tipos de florestas.

A queimada das florestas nas quais o bambu morria colocava à disposição dos indígenas construtores dos geoglifos dezenas, talvez centenas de hectares de solos favoráveis aos mais diversos cultivos agrícolas visto que a queimada das plantas adiciona uma riqueza temporária ao solo, permitindo o seu uso por 2-3 anos, nos moldes do sistema de derruba e queima praticado pelos pequenos agricultores da atualidade. Nestas mesmas áreas os geoglifos eram construídos.

Dessa forma, é possível pensar que os povos construtores de geoglifos eram itinerantes (nômades) e essa itinerância era guiada pela dinâmica da mortandade das populações de bambu. Da mesma forma é possível supor que a extensão das clareiras abertas por este comportamento oportunístico dos indígenas era sempre suficiente para suportar a população existente no momento.

O que ainda permanece um mistério completo é a razão para a construção de tantos geoglifos. Alguns pesquisadores tem sugerido que eles tinham função de proteção, moradia e mesmo canais de irrigação para a agricultura. Por ora, penso, como uns poucos, que os geoglifos tinham um caráter sagrado. E me arrisco a especular que foram construídos como forma de agradecimento aos deuses pela dádiva que a morte recorrente dos bambuzais na região representava: a continuidade da sobrevivência desses povos. 

Imagem: Geoglifo 'Quinoá', localizado nas proximidades do ponto onde o igarapé Quinoá cruza a rodovia BR-364, sentido Porto Velho, a cerca de 20 km da cidade de Rio Branco (Fonte: Google Earth).
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domingo, maio 25, 2014

COMO FOI POSSÍVEL CONSTRUIR GEOGLIFOS NAS FLORESTAS ACREANAS? (I)

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Uma grande parcela das pessoas que vive no Acre sabe a dificuldade que é praticar agricultura e pecuária nesta parte da Amazônia. O primeiro grande obstáculo é a floresta, que precisa ser retirada tendo em vista que as atividades citadas não podem ser realizadas no ‘meio da mata’.

Desde a chegada dos primeiros colonizadores a Amazônia, no início do século XVII, a forma de preparo das áreas para as atividades agropecuárias na região pouco mudou: primeiro é preciso derrubar a floresta e depois eliminar a matéria vegetal resultante para limpar o terreno. No início eram usadas apenas ferramentas manuais para a derrubada da floresta. Hoje máquinas motorizadas facilitam e aceleram esse trabalho. A massa vegetal resultante da derrubada foi e tem sido eliminada mediante o uso do fogo. Não importam os meios, a retirada da floresta para a realização de atividades agropecuárias na Amazônia não dispensa o uso de mão-de-obra e a aplicação de recursos financeiros para ser realizada de forma adequada.

O cultivo de plantas e a criação de animais, com destaque para o gado, têm sido praticados desde o início da ocupação da Amazônia. Entretanto, a manutenção do terreno livre de plantas invasoras, tanto na atividade agrícola quanto na pecuária, é um dos maiores desafios para a perenidade destas atividades. O abandono de áreas agrícolas ou de pastagens durante um ou dois anos é suficiente para que a floresta comece a se regenerar rapidamente. E se providências não forem tomadas de imediato, em pouco tempo vai ser necessário derrubar e queimar novamente a floresta. É uma luta constante do homem contra a natureza.

Claro que na atualidade existe uma maior facilidade de acesso e menor custo financeiro para a aquisição de ferramentas, máquinas e produtos químicos para conter o retorno da floresta. Mas nem sempre foi assim e, com exceção das áreas de pastagens mantidas sob controle pela ação de pisoteio e pastoreio do gado e pelo uso recorrente de produtos químicos e do fogo, a maioria das áreas usadas para cultivos agrícolas na Amazônia tem sido retomada pela floresta. E os agricultores locais permitiram e permitem que isso ocorra porque os solos da Amazônia são naturalmente pouco férteis. Derrubar e queimar a floresta agrega uma riqueza temporária ao solo que permite o seu cultivo durante alguns anos.

Dito isso, coloco um desafio aos leitores. Como é possível retirar a floresta e manter aberta uma clareira com área de 5 a 10 hectares sem dispor de máquinas (motosserra e tratores) e ferramentas manuais feitas de ferro e aço (serras manuais, machados, terçados, foices e enxadas)? Considerem que a floresta a ser derrubada é formada por árvores de variados tamanhos (castanheira, aroeira) e dureza da madeira (cumaru-ferro, angelim). Considerem ainda que a derrubada e a queimada da área a ser aberta terá que ser, necessariamente, feita em uma única temporada do verão amazônico, ou seja, entre o final das chuvas (abril-maio) e o final do período seco (meados de setembro). Tentem responder também como, depois de aberta a clareira, será possível controlar a regeneração da floresta durante meses, ou talvez anos, sem dispor de máquinas, ferramentas manuais de ferro e aço, de animais de pastoreio e de produtos químicos desenvolvidos especificamente para controlar o crescimento de plantas indesejadas?

Uma coisa é certa, a abertura de uma clareira desse porte sem o uso de ferramentas e máquinas modernas durante uma estação do verão amazônico, ou seja, ao longo de um período de aproximadamente cinco meses, iria requerer um ‘exército’ de dezenas, talvez centenas, de homens fortes e bem nutridos. A manutenção da clareira aberta livre de plantas indesejadas também iria requerer atenção constante de um numeroso grupo de trabalhadores braçais. Agora adicione a este trabalho a abertura, sem uso de ferramentas e máquinas modernas, de trincheiras em formatos geométricos diversificados, algumas em forma de círculos com até 300 m de diâmetro, com vão com de até 10 m e profundidade de até 7 m.

Pois foi esse o trabalho que ‘indígenas primitivos’ que habitavam o leste do Acre há cerca de 2 mil anos atrás realizaram em dezenas de localidades, deixando como legado os geoglifos. As razões para a realização de todo esse trabalho ainda não estão completamente esclarecidas. Algumas publicações científicas sugerem que os geoglifos eram estruturas de defesa para esses grupos indígenas, outras sugerem uma função ritualístico-religiosa. Independente da destinação das estruturas, um debate latente no meio científico é a possível explicação para a forma como esses indígenas ‘domaram’ ou lidaram com a floresta para fazer as suas construções.

Mas antes de entramos nessa discussão, é importante ressaltar um aspecto pouco considerado, mas que foi crucial no processo que resultou na construção dos geoglifos: como os indígenas conseguiram alimentar o exército de homens e suas respectivas famílias (mulheres, crianças e idosos) que participaram da abertura da floresta e da construção dos Geoglifos?

Os registros arqueológicos indicam que a maioria dos assentamentos humanos mais antigos da Amazônia foi instalada em áreas de várzeas ou nas proximidades de grandes rios que cortam a região, onde os solos são mais ricos, a água é abundante, e a pesca e a prática da agricultura são facilitadas. Ocorre que a grande maioria dos geoglifos encontrados no leste do Acre foi construída nas áreas de florestas de terra firme, nos interflúvios dos rios Acre, Iquiri e Abunã. Estas regiões são tradicionalmente ‘ruins de água’ nos períodos mais secos do ano, a obtenção de proteína animal  é mais complexa e demorada (se a caça é feita com arco e flecha), e a floresta no local geralmente tem o maior porte que se possa imaginar. Em conjunto, estes fatores contribuem para limitar a perenidade dos assentamentos humanos à temporada de chuvas e dificultam sobremaneira a abertura das clareiras. Os pequenos agrupamentos de índios isolados que habitam a região das cabeceiras dos rios Purus e Iaco são um bom exemplo disso. Até hoje migram de uma região para outra em função da sazonalidade das chuvas.

Não se sabe como os construtores dos geoglifos resolveram essa questão da alimentação de um grande número de pessoas em um ambiente teoricamente não favorável à produção agrícola primitiva em larga escala. Entretanto, a existência dos geoglifos, o legado de sua presença nas regiões de interflúvios, quebrou um antigo paradigma de que assentamentos humanos primitivos e numerosos não teriam condições de prosperar longe dos grandes rios na Amazônia. Nesse contexto, o pesquisador Alceu Ranzi, de maneira genérica, sugeriu que “os construtores de geoglifos, durante mais de mil anos, resolveram o problema das terras "fracas" e da falta dos grandes rios para navegar e buscar o alimento. Depois de satisfeitas as necessidades básicas de alimentação e segurança da família, restou tempo suficiente para o planejamento e construção destes monumentos de terra”.

[Artigo continua...]

Imagem: Geoglifo 'Quinoá', localizado nas proximidades do ponto onde o igarapé Quinoá cruza a rodovia BR-364 sentido Porto Velho, a cerca de 20 km de Rio Branco (Fonte: Google Earth, 2014).
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domingo, março 23, 2014

A FALTA DE SENSO CRÍTICO SEMPRE CUSTA CARO AOS CONTRIBUINTES

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Leitor, o que você vê na foto tomada na Rua A do bairro Palheiral, em Rio Branco, que ilustra esse texto?

É provável que sua resposta seja: "eu vejo uma grande erosão que praticamente destruiu parte da referida rua!" É uma resposta óbvia, pois é isso que a fotografia mostra.

E se ao ver a foto você ficar apenas impressionado com o poder destrutivo da erosão e, instintivamente, seu subconsciente lhe impulsionar a sugerir que algo deve ser feito - de imediato - para estancar a situação, então vejo que temos um problema, um grave problema de senso crítico que é extremamente danoso aos interesses da nossa coletividade. É essa falta de senso crítico que faz com que situações como a retratada na foto acima chegarem a um ponto em que, na maioria dos casos, os prejuízos econômicos para a sociedade se tornam inevitáveis.

Infelizmente essa reação apática, desinteressada e claramente remediadora parece ser um padrão de comportamento que permeia a maioria dos integrantes da nossa sociedade. O ideal seria que o observador da foto visse, além do óbvio problema causado pela erosão, a falta de prevenção, corrupção, incompetência, desleixo, pouco caso com a coisa pública, inatividade dos representantes políticos e, aparentemente, falta de efetividade na atuação do Ministério Público.

Tudo indica que essa falta de senso crítico e de cobrança a quem deve prestar contas de sua atuação quando recursos públicos são envolvidos tende a piorar no futuro, pois a nossa sociedade, como existe e funciona na atualidade, conspira para isso. Com numerosas famílias socioeconomicamente desestruturadas e um sistema educacional cambaleante e dominado por interesses quase sempre corporativos - de professores e funcionários que só se manifestam para reclamar aumento de salário - de nada adianta termos em nosso meio social um número maior de pessoas educadas se a maioria delas é, parafraseando uma afirmação relacionada com a alfabetização, 'educada funcional'. Ou seja, sabe ler, escrever, tem acesso aos mais variados meios de comunicação e tem consciência do que está acontecendo ao seu redor, mas é incapaz de avaliar, entender e formar senso crítico sobre temas cruciais para o efetivo avanço da sociedade brasileira.

Seguramente fotos como as que ilustram esse texto poderiam ser tomadas em dezenas de outros canteiros de obras públicas instaladas na cidade de Rio Branco e pelo país afora. Algumas, talvez, revelando problemas bem mais graves. Infelizmente, a maioria dos problemas que essas fotografias poderiam revelar não ganhará a publicidade necessária para que uma solução preventiva ou remediadora possa ser dada aos mesmos.

Isso acontece porque de um lado temos uma parcela considerável dos contribuintes, os que efetivamente tiram do bolso os recursos financeiros que pagam pela realização das obras, que pouco se incomoda com o que vê e sabe estar errado. De outro, alguns administradores públicos atuando claramente em conluio com os empreiteiros responsáveis pelas obras para tirar se apropriar dos recursos públicos em detrimento da coletividade. Temos ainda, muitas vezes, a inatividade dos nossos representantes políticos que agem por interesses que mantém com os administradores ou empreiteiros.

No caso específico do problema retratado na foto que ilustra este artigo, cabe um comentário sobre a atuação do Ministério Público: agiu de forma proativa para prevenir o dano que se concretizou na forma de destruição de uma rua em um bairro importante da nossa cidade? Em situações como essas, acreditamos que é preciso, sob todas as condições, tentar agir preventivamente para evitar os problemas, pois no Brasil a recuperação financeira de recursos públicos mal empregados ou desviados é quase sempre um caso a perder de vista, que as gerações futuras provavelmente testemunharão. Alguém lembra quantos anos se passaram para que Paulo Maluf devolvesse parte dos recursos públicos que desviou enquanto foi prefeito da cidade de São Paulo? Aqui no Acre já vi na imprensa representante do Ministério Público externando preocupação com a qualidade da alimentação servida por um restaurante localizado nas proximidades de uma grande universidade particular de nossa cidade. Não questiono que isso seja uma atribuição do MP, mas diante da nossa realidade, acreditamos que é preciso priorizar a atuação em problemas potencialmente mais graves.

Tenho certeza que muitos leitores já estão cansados de ver eventos como esse acontecido no bairro Palheiral resultarem em prejuízos para a coletividade. E tudo indica que ele vai mesmo ser apenas mais um dentre tantos, pois duvido que a empresa responsável pela obra vá recuperar de forma rápida e eficiente a rua que indiretamente ajudou a destruiu. E para juntar insulto à revolta, sabemos que para se livrar dessa obrigação ela irá apelar para a nossa ‘justiça’ que talvez daqui a alguns anos resolva a lide de forma favorável aos contribuintes.

O certo é que a população não poderá esperar tantos anos para ver a sua rua recuperada e à administração pública não restará alternativa, mas a realização de obras para recuperar o patrimônio público danificado. São prejuízos coletivos como esses que, mesmo de pequena monta, drenam recursos e contribuem para a crônica deficiência e baixa qualidade dos serviços públicos oferecidos à população.

Se os contribuintes se conscientizassem que protestos em hospitais e postos de saúde, bloqueios em vias públicas e outras ações similares não resolvem os problemas, mas apenas dão publicidade aos mesmos, situação absurda como o da erosão que destruiu a rua não aconteceria. Afinal erosão é um processo lento e seguramente houve tempo para pressionar os responsáveis para agir de forma que o problema não se consumasse.

Alguém já argumentou, mas não queremos acreditar, que prevenir problemas desse tipo não interessa a alguns setores administradores porque não traz a mesma visibilidade que se tem quando máquinas e homens da aparelhagem estatal 'viram a noite' trabalhando 'arduamente' para atender uma 'justa reivindicação da população'. Se for esse o caso, então é preciso que os contribuintes não se furtem de denunciar esse comportamento extremamente danoso aos interesses da coletividade.
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sexta-feira, fevereiro 28, 2014

CHEIA DO RIO MADEIRA: CRISE PODERÁ DURAR ATÉ ABRIL

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Rio Branco-Ac (28/02/2014) - A situação no Acre por conta da cheia no rio Madeira está se tornando crítica. Na quarta-feira (27/02) mais uma vez o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (DNIT) ordenou o fechamento por tempo indeterminado da rodovia BR-364, a única ligação terrestre do Acre com o resto do Brasil. A reabertura da estrada só será autorizada caso o nível da água baixe e volte a permitir a passagem - de forma precária e perigosa - de veículos de grande porte.

Dados da série histórica do nível do rio Madeira entre os anos de 2008 e 2013, disponíveis no site da Agência Nacional de Águas (ANA), mostram que, com exceção de 2012, o ápice da cheia anual do rio ocorre em Abril (veja tabela ao lado).

A tabela mostra ainda o nível de elevação do rio Madeira entre o dia 28 de fevereiro dos anos mencionados e o dia em que o nível máximo do rio foi atingido nos anos correspondentes. O valor médio de elevação da água foi de 1,47 m, sendo que o menor aumento foi observado em 2012 (0,52 m) e o maior em 2011 (2,16 m). 

Obviamente que a cheia desse ano no rio Madeira é excepcional e a cota de 18,58 m atingida nesta quinta-feira (28/02/2014) supera os níveis máximos atingidos pelo rio em qualquer dos anos no período de 2008 e 2013. Entretanto, considerando que historicamente o nível máximo do rio é atingido em abril, as perspectivas de uma baixa acentuada do mesmo nos próximos dias não são muito positivas.

Se o comportamento natural do rio se mantiver - mesmo com a cheia excepcional desse ano - isso significa que a interrupção da BR-364 vai ser mais prolongada do que se imagina ou a mesma será fechada mais vezes nas próximas semanas. Em outras palavras, o nível de ansiedade, insegurança e interesse dos acreanos sobre a situação do rio Madeira se manterá elevado por todo o mês de março. 

Para piorar a situação, existe o risco das partes atualmente submersas da BR-364 desmoronarem ou cederem visto que são aterros construídos quase que totalmente com barro. Caso isso venha a acontecer enquanto o nível da água estiver elevado, sua recuperação ficará impossibilitada enquanto perdurar a cheia. Caso resista ao período em que ficou submersa, são grandes as possibilidades da base da estrada ou cabeceiras de pontes cederem logo após a enchente, quando o movimento normal de caminhões pesados se intensificar.


Tudo indica que a situação de isolamento terrestre do Acre com o restante do Brasil ainda está longe de ser resolvida e, mesmo com a baixa do rio madeira, ainda poderá se prolongar por algumas semanas. 
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segunda-feira, janeiro 06, 2014

ALTINO, O MACHADO

Isaac Melo*

Um dia, o escritor acreano Océlio de Medeiros, em A Represa, disse: “A oposição, no Acre, é como Deus: – não existisse era preciso inventá-la.” Agora, eu, com minha sabença de filósofo de seringal, afirmo: Se não existisse o Altino Machado, no Acre, era preciso criá-lo.

Quando vejo os webjornais acreanos, tenho a impressão de que o Estado anda a mil maravilhas. E oxalá estivesse assim. Então vou ao blog do Altino para ver como o Acre está de fato. É uma bofetada. Mas é melhor a bofetada que nos faz acordar para a realidade, do que os afagos da ilusão de quem, sendo gato, pinta-se leão.

Ninguém precisa concordar com o Altino. Nem comigo. Mas é preciso ouvi-lo. Ignorá-lo é reconhecer a própria fraqueza. Não é o dono da verdade, mas, sem dúvida, há muita verdade em seu trabalho. E, nisto, o governo deveria prestar atenção, e não taxá-lo como inimigo. Mas quem, seguindo os versos de Cecília Meireles, pode ser verdadeiro sem que desagrade?

É fácil publicar apenas o que agrada, o que é cômodo, o que convém; encher páginas com encômios; alardear-se de seus feitos, parecendo galinha quando bota ovo. Aliás, pinto é que se impressiona com a própria titica que faz. Publicar, no entanto, o que se faz necessário é para poucos. Exige dedicação, esforço, estudo. Nisto, os fraldinhas da boa notícia, que engatinham pelo jornalismo acreano, podem encontrar, se quiserem, uma referência em Altino Machado.

Não exprimo a opinião do povo acreano. Porém, enquanto acreano, tenho orgulho de ter um jornalista à altura do Altino Machado. Sobretudo numa terra, sem grandes opções, em que facilmente se é corrompido ou anestesiado pelos favores governamentais. O que presenciamos no Acre atual é uma falta de caráter daqueles, que tendo a incumbência de ser o mais verdadeiro possível naquilo que fazem, maquiam a verdade com suas ideologias capengas e projetos pessoais aloprados.

A oposição no Acre é faz de conta. Ineficiente. Um bando de pombos arrulhando em torno do milho. O Altino Machado vem fazendo aquilo que a oposição há anos não consegue: uma voz sincera e límpida de contestação, sem amarras e rabo preso. Se há uma oposição, esta chama-se Altino. Uma oposição espontânea, política, certamente, porém, não uma oposição partidária nos moldes tradicionais ou daquela de quem não está participando do banquete e quer entrar. Mas daquela que tem em vista a construção do bem comum, que cada cidadão, independente da sigla a que milite, é chamado a participar.

Não somos ingênuos a tal ponto de tomar como verdade, pronta e acabada, tudo o que o Altino apresenta em seu blog: nem em artigos de seu próprio punho, nem de outros autores. Eu, mesmo, não publicaria jamais aqueles artigos nauseabundos do Márcio Bittar. Mas, pelo menos, nos oferece a possibilidade de um outro olhar, onde cada leitor assume a responsabilidade de mensurar aquilo que se lhe é apresentado.

Dirão, talvez, alguns de meus amigos que exagero. Exagero é gastar um bilhão e duzentos milhões numa estrada que a cada ano é preciso refazê-la. O povo acreano é tolo? Ou é eficiente a equipe de marketing governamental? Os dois não dá para aceitar. Muito menos continuar a assistir a tudo de camarote, ‘com uma boca escancarada de dente esperando a morte chegar’.

Assim, o Altino assemelha-se, por seu trabalho, àquelas pessoas, usando as palavras de Thomas Mann, com as quais não é fácil conviver, mas que jamais se podem abandonar. Pessoas, como ele, fazem um bem enorme às nossas sociedades ditas democráticas, ainda que muitas vezes assuma o papel indigesto de advogado do diabo. É preciso, porém, cada vez mais vozes que se levantem contra os carrapatos de paletó e cia. que devoram o sangue e a riqueza de nosso país e de nosso povo. No entanto, não é qualquer voz que serve. Pois em tudo que é assembleia, câmara ou prefeitura se fala de ética. Mas, é nesses lugares e nessas vozes, que menos a encontramos.

Por isso, presto, aqui, a minha singela homenagem ao jornalista acreano Altino Machado. Não sou neutro! Deixo claro minhas posições e minhas escolhas, ao preço do escárnio ou do erro, à permanecer no silêncio dos covardes, dos medrosos e dos oportunistas.

Como diz a profecia bíblica: “o machado já está posto à raiz das árvores; e toda árvore que não der bom fruto, será cortada”. Então Altino, Machado neles...

*Isaac Melo é editor do Blog Alma Acreana
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sexta-feira, dezembro 13, 2013

APÓS INCÊNDIO, COMERCIANTES FICAM EM 'BARRANCO SEM SAÍDA'

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

É de dar dó a situação dos proprietários dos estabelecimentos comerciais atingidos pelo incêndio ocorrido na tarde de quarta-feira (11/12) nas imediações do mercado Elias Mansour. Segundo relatos na imprensa local, os prejuízos podem alcançar mais de R$ 1 milhão de reais e alguns comerciantes provavelmente não terão condições financeiras de reconstruir o que perderam.

O prefeito da cidade, Marcos Viana, foi rápido na mobilização de meios para debelar o fogo. Também pudera. Por coincidência, calhou que ele estava almoçando em uma pensão do mercado quando o fogo começou. Ele logo se juntou ao grupo de voluntários que ajudou a salvar parte das mercadorias das lojas sinistradas e cumpriu com louvor sua obrigação de cuidar da cidade como quem cuida de sua própria casa. Como prêmio, teve sua foto estampada ou entrevistas exibidas em quase todos os meios de comunicação que cobriram o sinistro.

Na quinta pela manhã o mandatário municipal voltou ao local do incêndio e prometeu ajuda aos comerciantes afetados. Na mesma manhã ele se reuniu com representantes do Banco do Brasil (BB), Caixa Econômica Federal (CEF), do BASA, da Secretaria de Pequenos Negócios (SEPN) e da Coordenadoria Municipal de Economia Solidária (COMTES) para ver como efetivar a ajuda.

Até agora o incêndio não oculta nada de excepcional aos olhos dos mais ingênuos. O bom senso e a lógica sugerem que tudo foi mesmo um acidente. E eu concordo que tudo não passou de um acidente. Entretanto, para alguns o fogo que consumiu parte do comércio que fica nas proximidades do futuro Shopping Popular é uma coincidência que se repete na história de nossa cidade. Em nota publicada no dia 12/12 a colunista política GinaMenezes afirma textualmente que “O ex-deputado Luiz Calixto (PSD), dono de uma fina ironia, fez a seguinte e pertinente observação a esta colunista: “Esse nosso estado é cheio de coincidências. Quando o Jorge falava em retirar o comércio da cabeça da ponte velha, um mês depois um incêndio destruiu o local. Agora que o Marcus Alexandre vai construir o shopping pra retirar o comércio da Benjamim Constant, eis que parte do camelódromo pega fogo”.

Exageros à parte do ex-situacionista e hoje ferrenho oposicionista Luiz Calixto, e descontando-se a incrível coincidência da presença do prefeito nas imediações do local quando o incêndio começou, a verdade é que na prática o fogo que consumiu os estabelecimentos comerciais nas cercanias do Shopping Popular vai servir como a desculpa perfeita para a não reabertura ou reconstrução daquela área.

Até parece que o prefeito Marcus Viana é um ingênuo quando convoca instituições bancárias para participar da ajuda aos estabelecimentos comerciais atingidos pelo fogo. Ele sabe muito bem que os bancos, públicos ou particulares, com raríssimas exceções, jamais emprestarão dinheiro para empreendimentos – pessoa jurídica – como os que foram afetados pelo incêndio. Ingênuos foram os comerciantes que fizeram número na reunião com o prefeito, que já declarou que “são os próprios comerciantes quem irão decidir onde querem ficar, mas o nosso entendimento é que por se tratar de um barranco de rio não há condições para que novas construções possam ser feitas no local”. 

Não tenho dúvida de que o fogo e o prefeito da cidade encurralaram os comerciantes em ‘um barranco sem saída’.

Obviamente que o fogo ocorrido na quarta-feira nem de longe lembra os incêndios recorrentes que vitimaram um comerciante de nossa cidade que ao final da vida passou a ser conhecido popularmente como ‘Zé Foguinho’. Entretanto, tenho cá minhas preocupações com a segurança dos numerosos estabelecimentos comerciais agregados no entorno do terminal de ônibus das proximidades do mercado Elias Mansour, vizinhos ao futuro shopping popular. Para não serem vítimas de um futuro incêndio que possa vir a ser qualificado pelo ex-deputado Luiz Calixto como mais uma ‘coincidência histórica’, é altamente recomendável que eles se organizem para tomar todas as medidas preventivas possíveis e imagináveis.

Crédito da imagem: A GazetaNet/Wesley Moraes
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sexta-feira, novembro 22, 2013

A ESTUPIDEZ HUMANA NÃO TEM LIMITE!!!

Marcos Vinicius Neves*

Ontem, quinta-feira, tomei um susto danado quando tava parado ali no sinal da caixa d’água da Seis de Agosto. Bem na esquina, esticada entre postes, tinha uma faixa impressa com imagens de três militares (das três forças) e uma frase absurda: “O povo brasileiro pede a volta do regime militar pra moralizar porque o Brasil estar sem comando”.

Sinceramente não consigo saber a que povo brasileiro esta(s) pessoa(s) que mandou fazer essas faixas está se referindo. Porque até onde sei, o povo brasileiro nunca aceitou a Ditadura. E mais, boa parte do povo brasileiro sofreu muito, de forma direta ou indireta, com a Ditadura Militar. Muitas famílias foram completamente desestruturadas e espatifadas durante os “anos de chumbo”. A esse respeito, talvez seja bom lembrar que o povo brasileiro ainda sofre, mesmo que às vezes não perceba claramente, as consequências dos anos de atraso e obscuridade que a ditadura nos legou.

O que me lembra que, por coincidência, ainda na quarta-feira a noite, assisti um filme excelente sobre a vida de Leila Diniz. Uma mulher maravilhosa e corajosa o suficiente pra desafiar a hipocrisia da sociedade e do Regime Militar. E, é claro, pagou um alto preço por isso. Ela e todos os seus amigos e familiares. Em compensação, as ousadas atitudes e opiniões de Leila, não só marcaram toda uma geração, como a tornaram inesquecível.

O que me lembra, ainda, outra coincidência. Sábado passado fui atender a um pedido inusitado. Fui gravar uma entrevista com estudantes de odontologia sobre... adivinhem... Ditadura Militar!!! Gravar entrevista sobre acontecimentos históricos já faz parte de minha rotina, o inusitado dessa vez é que eram estudantes de odontologia.

 Me acostumei a dar entrevistas pra futuros historiadores, sociólogos, antropólogos, jornalistas e até arquitetos, mas futuros dentistas, confesso que foi a primeira vez. E devo confessar também que achei muito legal que se discuta temas importantes como esse nos mais diversos cursos de formação universitária. Afinal, dentistas também precisam aguçar sua consciência critica, ainda mais nesse tempo em que o trabalho voluntário em comunidades desassistidas é tão necessário.

Mas, enfim, to contando dessa entrevista pra dizer que a questão das consequências da Ditadura Militar foi a mais perguntada e debatida durante nossa conversa. Afinal, como desconhecer que boa parte da grande mídia que continua dando as cartas nesse país construiu sua hegemonia sobre os alicerces do Governo Militar. Esses mesmos órgãos de comunicação que vivem arrotando moralismos e uma ética que nunca praticaram, foram cumplices e sustentáculos da Ditatura Militar e de todos os atos autoritários e vergonhosos que foram praticados naquele período. Ou alguém, em sã consciência, é capaz de achar que a campanha sistemática que a Globo fez contra o Lula e continua fazendo contra a Dilma é fruto do acaso? Ou já esqueceram que foram eles mesmos que elegeram o Collor, colaborando mais uma vez para atrasar em alguns anos o país? E que continuam manipulando as informações para manter o poder que desfrutam desde a malfadada Ditadura.

Mesmo que pareça que as gerações mais jovens não levam isso em conta. Não podem desconhecer que boa parte das mazelas políticas de nosso país, foram adquiridas e consolidadas durante a ditadura militar. O assistencialismo, o clientelismo, o autoritarismo, o nepotismo, são parte dessa herança maldita da Ditadura, que muitos de nós continuam perpetuando ao elegerem políticos que fazem dessas práticas seu modus operandi.

E tanto na entrevista de sábado, quanto no filme da Leila. Não consigo deixar de sentir um gosto amargo ao imaginar o que poderíamos ser hoje se não tivessem sidos censurados, exilados, assassinados, boa parte dos maiores e melhores produtores de cultura, arte, ideias e opiniões desse país, durante longos 20 anos. 

Assim, ao me deparar com faixas absurdas e estúpidas como essas penduradas nas ruas da cidade, não pude deixar de sentir profundo asco dessa gente que diz sentir falta da Ditadura Militar. Gente que, como os neonazistas e preconceituosos de toda espécie, deveria ter vergonha na cara e ficar bem quietinha para, no mínimo, não ofender as pessoas e famílias que pagaram um alto preço durante a Ditadura. Diante disso, só posso dar um conselho pra esse tipo de gente: Tá sentindo falta da Ditadura? Então vá pra China e nos poupe de sua má companhia!

*Marcos Vinicius Neves (historiador)
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