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terça-feira, maio 19, 2020

NEM A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS FREIA A DESTRUIÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA

Evandro Ferreira
Editor do Blog ambiente Acreano

O advento da pandemia de coronavírus no Brasil trouxe uma crise socioeconômica de proporções nunca vistas.

O país praticamente parou em função das medidas sanitárias adotadas para minorar o alcance do vírus e aliviar uma pressão que, de outra forma, se revelaria insuportável para o nosso precário sistema de saúde.

Apesar desse panorama extremamente sombrio, algo peculiar tem me chamado a atenção: a destruição da floresta amazônica não foi, aparentemente, afetada pela pandemia de coronavírus.

Os alertas de desmatamento (DETER) do Instituto Nacional de Estudos Espaciais (INPE) indicam alta de 64% no corte raso da floresta em abril de 2020 (405,61 km²) frente a abril de 2019 (249,39 km²).

Além do aumento no desmatamento, os dados do INPE sugerem que a pandemia de coronavírus não afetou o ímpeto dos destruidores de nossas florestas.

De janeiro a abril de 2020 verificou-se aumento de 55% das áreas desmatadas comparado igual período de 2019. Com um agravante: em 2019 a aceleração no desmatamento aconteceu em maio. Em 2020 foi em abril, um mês antes.

Para calcular o desmatamento anual, o INPE considera o período de agosto do ano anterior e julho do ano atual. Comparando os dados de agosto de 2018-abril de 2019 (2.914 km²) e agosto de 2019-abril de 2020 (5.666 km²), verificou-se aumento de 94% no desmatamento.

Vejam que para fechar a estimativa anual, ainda faltam os dados dos meses de maio, junho e julho. São meses secos na parte ocidental da Amazônia, extremamente favoráveis para quem pretende desmatar a floresta.

Com base nisso, é fácil prever que 2020 será um ano de desmatamento “escandaloso” na Amazônia.

Para adiantar esse contexto, fizemos o seguinte questionamento:

- Qual será a área estimada de desmatamento pelo sistema DETER/INPE para o período de agosto de 2019 a julho de 2020?

Obviamente que para responder a essa pergunta, precisaremos estimar quantos km² de florestas ainda serão derrubados nos próximos meses de maio, junho e julho desse ano.

Vamos fazer isso de forma conservadora a seguir. Mas precisamos aceitar duas pré-condições:
(a) A pandemia de coronavírus não está afetando o trabalho dos destruidores da floresta amazônica, como mostra o incremento de 94% nos alertas de desmatamento observados até abril de 2020; e

(b) Devemos admitir que a área de floresta a ser derrubada no período maio-julho de 2020 deverá ser equivalente à que foi derrubada no mesmo período em 2019 (Maio: 1.102,57 km², Junho: 2.072,03 km², e Julho: 2.254,8 km²), ou seja: 5.443,9 km².

Dessa forma, quando somamos o dado real dos alertas de desmatamento observados entre agosto de 2019 e abril de 2020 (5.666 km²), com os alertadas de desmatamentos realizados no trimestre maio-julho de 2019 (5.443,9 km².), teremos um valor de aproximadamente 11 mil km².

Considerando que entre 2018-2019 os alertas de desmatamento somaram 6.840 km², se a estimativa de 11 mil km² para o período 2019-2020 se confirmar, teremos um incremento anual de cerca de 60%.

Apesar de elevado, esse incremento ainda é inferior aos 88% de aumento nos alertas de desmatamento emitidos pelo mesmo sistema DETER/INPE entre 2017-2018 e 2018-2019.

Infelizmente, essa possível diminuição no percentual de alertas de desmatamento não significará que o Brasil ficará livre das críticas mundiais no que toca à crescente destruição da Amazônia.

Ocorre que os dados do sistema DETER não são os que o INPE usa para fazer a "estimativa real” de desmatamento anual da Amazônia. Para isso, usam-se dados do sistema PRODES, mais criterioso e que toma mais tempo para ser calculado. Tanto que tradicionalmente só é publicado por volta de novembro de cada ano.

Nos últimos anos, as comparações entre os resultados anualizados dos alertas de desmatamento do DETER e de desmatamento do PRODES, tem mostrado que este último tem sido quase sempre 40% superior ao primeiro.

Assim, uma matemática simples, acrescentando 40% aos 11 mil km² de desmatamento que acreditamos será estimada pelo DETER para o período 2019-2020, poderemos prever que o "desmatamento real" na Amazônia entre 2019 e 2020 será de aproximadamente 15 mil km².

Se isso for confirmado, o incremento entre 2018-2019 e 2019-2020 girará em torno de 54%. Bem superior, portanto, aos 29,5% de aumento verificado entre os períodos 2017-2018 e 2018-2019.

Assim, quando da divulgação do desmatamento na Amazônia em meados de novembro de 2020, é certo que o mundo vai “desabar sobre o Brasil”.

Será um escândalo internacional de proporções grandiosas, pois a devastação na Amazônia brasileira terá regredido aos níveis verificados 14 anos atrás: em 2006 o desmatamento na região tinha atingido 14,1 mil km².


Por conta da pandemia e de sinais equivocados emitidos de forma reiterada por nossas autoridades ambientais, que parecem querer desestimular as ações de fiscalização e controle, receio que mesmo faltando mais de 70 dias para o “fechamento” do ano no que toca ao desmatamento, não teremos tempo para impedir que esse desastre se concretize.

Para saber mais:
·        DETER registra na Amazônia em maio 1.102,57 km² de alertas. Notícias INPE, 10/6/19
·        Alertas do DETER na Amazônia em junho somam 2.072,03 km². Notícias INPE, 4/7/19

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segunda-feira, abril 06, 2020

𝐎 𝐂𝐎𝐑𝐎𝐍𝐀𝐕Í𝐑𝐔𝐒 𝐂𝐎𝐋𝐎𝐂𝐎𝐔 𝐁𝐎𝐋𝐒𝐎𝐍𝐀𝐑𝐎 𝐍𝐀𝐒 𝐂𝐎𝐑𝐃𝐀𝐒

Evandro Ferreira/Blog Ambiente Acreano

A crise social e econômica que se abateu sobre o Brasil em decorrência da pandemia de coronavírus tem forte chance de catalisar o fim da carreira política de Bolsonaro em razão de sua absoluta incompetência para enfrentar o problema.

Seu comportamento errático indica que é quase certo que ele não consiga atravessar a crise sem perder apoio junto à sua claque de fanáticos eleitores, que hoje se estima representar 25 a 30% da população.

Pesquisas de opinião mostram que quase 2/3 da população reprovam a sua condução da crise. Por isso, sem apoio substancial entre seus seguidores fieis, sua pretensão de reeleição em 2022 será mínima. Isso se conseguir chegar lá na condição de presidente.

Sua truculência, atitudes alopradas e criminosas faz crescer, entre membros do Congresso (oposição e situação), do judiciário e até mesmo entre integrantes de seu governo, as especulações sobre uma possível saída para o “problema” Bolsonaro.

Impeachment, interdição ou renúncia tem sido as opções frequentemente citadas como saída para o problema. Embora a situação do presidente ainda não possa ser considerada irremediavelmente perdida, suas atitudes cotidianas o empurram cada vez mais nessa direção.

Alternativamente, se articula a manutenção de Bolsonaro no cargo, mas na condição de “pato manco”, sem ou com muito pouco poder de mando, ou até mesmo como uma espécie de rainha da Inglaterra, que reina mas não governa.

Teríamos que ver quem seria o tutor de Bolsonaro. Um ministro. Uma junta de ministros. A desvantagem dessa opção é que um governo sem uma liderança clara tende a ser fragmentado e fatiado e, em tese, não teria agilidade para lidar eficientemente com situações emergenciais como a que estamos vivendo agora.

Ironicamente, a pandemia atual mostrou que isso já é uma realidade, mesmo o país tendo um presidente. Sem liderança política forte junto ao Congresso, no ano passado ficou a cargo dos presidentes da Câmara e do Senado decidir o que, como e quando votar as reformas enviadas pelo governo.

Colocar uma canga e “ocultar” Bolsonaro da seara política nacional vai ser missão quase impossível em razão de sua personalidade forte (e errática). Se feito, ele irá espernear e tumultuar o ambiente político de tal forma que inviabilizará essa opção.

Nesse caso, tudo indica que não restará outra alternativa que não a “interdição” do presidente. Vai ser traumático, mas será necessário para salvar o país.

Charge: Le Monde Brasil
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sexta-feira, fevereiro 21, 2020

A HISTÓRIA DO MASSACRE DE ÍNDIOS NO ACRE

O texto aqui apresentado faz parte do livro “Dramas da Amazônia”, de autoria do pastor evangélico Sérgio Aparecido Dias, um paranaense que no início dos anos 70 veio para a Amazônia em missão evangélica e por aqui ficou. Realizou trabalhos de evangelização em muitos lugares ermos da Amazônia, incluindo a cidade de Feijó, no Acre, onde morou entre 1976 e 1979. Nesse período conheceu e entrevistou pessoalmente Pedro Biló e conversou com muitas pessoas que contaram sobre as atrocidades cometidas por ele alguns anos antes. Baseado nestas informações o Pastor Sérgio Dias escreveu o conto “O Massacre do Lago do Arapapá”. Vale a leitura.

Pedro Biló: O massacre do lago Arapapá
“E a lua prateada testemunhou a extrema covardia do ser humano, embrutecido em sua loucura assassina.”

A História é imparcial e fria nos registros e relatos dos personagens. Feitos heroicos e atos degradantes caminham paralelos, ao longo da estrada da vida. Muitas vezes, a linha que delimita heróis e bandidos é muito tênue, e o bom se mistura com o mau, sendo quase impossível separar o joio do trigo.

O que caracteriza um bandido? Qual o perfil do herói?

Se, para a justiça, todo matador é assassino e, conseqüentemente é um criminoso, talvez não o seja para a comunidade onde mora. Matar em defesa das terras ameaçadas é um ato heroico ou um ato criminoso? Exterminar um povo selvagem para ficar com suas terras também é crime?

Caso afirmativo, por que consideramos os Bandeirantes como heróis e lhes homenageamos, batizando cidades e logradouros públicos com os seus nomes?

Quem foi Raposo Tavares? Quem foi Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como Anhangüera (diabo velho)?

Em duas investidas conquistadoras pelas terras brasileiras (incursões essas chamadas bandeiras), Raposo Tavares destruiu aldeias jesuítas em Guayra, na fronteira com o Paraguai, aprisionando centenas de indígenas e matando outras tantas centenas, em 1629, com o auxílio de outro bandeirante, Manuel Preto. Entre 1648 e 1651, saiu de São Paulo e fez incursões no Amazonas e no Pará, chegando ao Peru. Nessas investidas conquistadoras, extinguiu tribos inteiras e escravizou os índios sobreviventes nessas regiões. Hoje, seu nome está associado ao heroísmo, à coragem e à honra. Seus crimes o colocam na galeria dos heróis nacionais, por matar os índios e tomar-lhes as terras de seus ancestrais.

E o que dizer de Domingos Jorge Velho? Esse bandeirante, entre outras coisas, adentrou pelo nordeste brasileiro entre 1695 e 1697, destruindo aldeias indígenas no Maranhão e no Pernambuco, tornando centenas deles em seus escravos e carregadores de sua bagagem. Participou ativamente do cerco ao Quilombo dos Palmares, sendo um dos responsáveis pela morte de Zumbi dos Palmares.

Esses homens e todos os outros bandeirantes são hoje festejados como heróis, mas a questão é: eles são heróis realmente?

Esse breve relato das atrocidades de alguns dos bandeirantes, a bem da verdade todos eles escravistas e racistas, serve de pano de fundo para a história que agora passo a narrar: a história de Pedro Biló, um dos homens de confiança do coronel José Gurgel Rabelo, o temido Zeca Rabelo, todo-poderoso do rio Envira, no estado do Acre.

Ele (Pedro Biló) também se enquadra no perfil dos bandeirantes, já que desbravava regiões em busca de seringais e castanhais, fazendo a necessária “limpeza étnica”, matando índios e incendiando suas aldeias. Entre outras nações índias, certamente os Caxinauá (povo morcego) foram os que mais sentiram o peso de sua mão e a pontaria certeira de seu rifle.

Sua área de atuação se estendia desde o atual município de Feijó, descendo até a foz do Envira, no rio Juruá, e subindo uns dois dias de viagem (num motor de 33 HP) até acima do seringal Olinda do Maciel, fundado pelo coronel Maciel, por volta de 1905, em terras onde viviam, outrora livres, mais de 1.000 índios Caxinauá.

Pedro Biló foi o responsável direto pelo decréscimo desse expressivo número de nativos, dizimando-os a tal modo que, em 1976, os dois aldeamentos principais dos Caxinauá se resumiam em algumas poucas dezenas de índios, a maioria já corrompida pela bebida e pela prostituição. E, apesar de seus quase 70 anos, a simples pronúncia de seu nome fazia os índios tremerem de pavor. E as lendas o tornavam mais e mais misterioso.

- Pedro Biló tem parte com o cão, seu moço! Rasteja igual cobra e ninguém vê ele de noite, não! Só enxerga, quando ele já tá enfiando a faca na goela, que Deus me livre e guarde!

- Ele tem reza braba e se apega com São Cipriano, cruz credo!!!

- O Biló? Ah, o seu Pedro é gente boa, é só não bulí com ele!

Opiniões contraditórias sobre um homem contraditório, cujas ações são louvadas por uns e repudiadas por outros.

Quem era Pedro Biló? De onde viera até chegar ao Acre? Uns diziam que era cearense, já outros juravam que ele era acreano da gema mesmo, cobra criada da região.

Quanto ao próprio Biló, limitava-se a sorrir de modo enigmático, alimentando ainda mais as lendas em torno de sua pessoa. E as histórias que se contavam sobre ele eram de arrepiar e impunham respeito e medo.

Uma certa vez, num tempo qualquer do passado, necessitaram de seus serviços. Um determinado seringalista precisava de uma área que pertencia aos Caxinauá, cuja aldeia ficava no centro da terra em questão. Não havia sido possível um acordo com o chefe, que não aceitou trocar as terras por outra área num outro local, embora mais vantajoso, do ponto de vista do homem branco, é claro. E Pedro Biló foi chamado para resolver o problema.

- Seu Pedro, os caboclos não trocam aquela terra por nenhuma outra! E nós sabemos que lá tem muitas seringueiras boas de corte, daquelas que dão borracha de primeira! E se eu não posso ter aquelas terras por bem, então que seja por mal mesmo!

- Se voismecê garantí as minhas costa, entonce pode contá comigo e com os meus rapaiz. A gente arresorve isso bem rapidinho.

- Nem fique ressabiado, óxente! Além de mim, ainda tem o coronel Zeca Rabêlo, meu amigo e protetor, que é a lei aqui do alto Envira! Pode fazer o trabalho, que eu garanto que ninguém vai meter o focinho por aqui, num sabe? E se meter, a gente corta na bala, pois não?!?

- Apôis, o senhor pode contá com o meu papo amarelo, meu patrão!

- Isso mesmo que eu esperava ouvir, seu Pedro! E eu fico devendo mais esse favor ao Zeca. Adespois a gente se acerta, no final do fabrico. Vai ser aquele festão, com muita mulher e cachaça! E essa indiarada dos infernos que vá conseguir terra lá com o capêta, ora pois!

E Pedro Biló ajuntou seus homens de confiança. Com a garrafa de cachaça passando de mão em mão, iniciou um pequeno discurso, tendo à mão o seu temido rifle papo amarelo. A visão de Pedro Biló, atarracado e forte, empunhando o seu temível papo amarelo, gelava o sangue de qualquer um. E olhando fixamente aqueles rudes pistoleiros, colocou-os a par da situação:

- O seu Nezinho contratou a gente prá mode arretirá aqueles caboclo lá da terra firme do Arapapá. É serviço garantido, mais eu preciso que todo mundo se agaranta na pontaria. Se a gente se arresguardá, entonce tudo vorta vivo. Mais se argum morrê, entonce que morrido fica, ocêis tão me entendendo?

- Tamo sim - responde um dos capangas - Mais num vai sê fácil tirá os caboclo de lá! O Arapapá é quase uma serra, cheio de furna, parece mais é morada de onça, aquilo lá! Sei não Biló, mais eu acho que é bão tomá cuidado! Aquela cabocrada pode armá cilada prá cima de nóis!

- Óxente Evaristo, mais que cagança é essa?!? Nóis aqui tudo é gente do gatilho, num tem medo de cabra nenhum, quanto menos de índio, que só tem arco e flecha?! E adespois, tu tá te esquecendo do meu São Cipriano? Vou fechar meu corpo com a oração da cabra preta e com a oração do sapo seco, que eu quero ver a indiarada me enxergar! Num carece de se preocupá, não! Só quero que cada um faça a sua parte, que a reza braba e as mandinga são por minha conta, tá combinado?

- Combinado e meio, Biló! Pode contá com nóis!

Evaristo tinha lá as suas razões, o Arapapá parecia um socavão de serra. Barrancos altíssimos, de rocha pura, erguiam-se ameaçadores ao longo de grande parte das terras firmes, pela margem esquerda do rio Envira. Mesmo adentrando os vários lagos, as várzeas altas se alternavam com as baixadas, misturando pedras duras como o aço, com a tabatinga argilosa. Um paraíso de riquíssimo ecossistema, abrigava vários espécimes vegetais como cedro, mogno, angelim, copiúba e outras, além do “ouro branco”, o látex das seringueiras. Seus lagos eram um autêntico viveiro de pacús, curimatãs, matrinchãs, piaus e tucunarés. Nas matas, bandos de queixadas conviviam com veados, caititús, pacas, capivaras, antas e onças. E as aves e pássaros, às centenas de milhares, enchendo a floresta de gorjeios e trinados, de colorações as mais diversas, desde o próprio arapapá, que deu nome ao local, aos magoarís, garças, papagaios, araras, mutuns, galos da serra, ciganas e maracanãs.

Depois de dois dias de cautelosa aproximação, Pedro Biló e seus homens se acercaram do Arapapá. Viajando com extremo cuidado, sempre rente às margens, adentravam em todos os igapós, escondendo-se entre as canaranas e o araçazal e dormindo nas ilhotas de terra úmida dos chavascais. Quando necessário, a canoa seguia com dois homens, ziguezagueando entre as moitas de espinhos e as tiriricas, enquanto o resto do grupo se esgueirava entre os paredões do barranco alto, procurando fazer o mínimo ruído possível, quase invisíveis aos olhos de uma possível sentinela.

Por volta das 3 horas da tarde do 3º dia, já observavam a aldeia e estudavam a disposição das malocas. Tudo muito simples: as famílias ficavam em cabanas dispostas em volta das malocas principais. Nestas, em número de dois, ficavam os guerreiros, o chefe e o pajé. Havia ainda duas cabanas onde armazenavam alimentos e guardavam as suas armas.

Teriam que tomar cuidado com os cães. Contaram mais ou menos uns oito, afora alguns filhotes. Esses cães, embora dóceis na aparência, eram acostumados a enfrentar queixadas e acuar onças nos grotões das furnas. Tinham um excelente faro, especialmente para detectar a presença de seres humanos.

Mas Pedro Biló havia tomado suas precauções. Desde o dia anterior, ele e seus homens besuntaram os seus corpos com uma mistura de malva, malvarisco, ayahuasca, pólvora e fumo. Além disso, procuraram colocar-se contra o vento, para dificultar o máximo possível a detecção pelo faro. Prepararam vários nacos de carne de sol, temperados com uma mistura de timbó com ayahuasca. A ayahuasca provoca delírios, visões, descoordenação motora e distúrbios mentais. O timbó é um cipó das muitas espécies de plantas tóxicas da floresta amazônica, que inibe os sentidos, entorpece o sistema nervoso e leva à morte por asfixia e paralisação do sistema respiratório.

Tudo agora era uma questão de tempo e paciência. Neutralizados os cães, tomadas as armas e dominadas as sentinelas, o resto seria um combate normal, com o rugido do papo amarelo e a agudeza das lâminas dos punhais.

Noite alta, lua brilhando no céu azul. A aldeia Caxinauá era uma clareira aberta na selva, inundada com a luz do luar. Nas malocas centrais, os guerreiros ressonavam e roncavam, tomados pelo sono profundo. As quatro sentinelas recostavam nas árvores próximas às cabanas laterais, visivelmente entorpecidas de sono, praticamente dormindo em pé.

Pedro Biló deslizava como cobra, rente ao solo, sem fazer o mínimo ruído, protegendo-se entre as moitas. De vez em quando, levantava levemente o braço e jogava um naco de carne em direção aos cães. Esses, sem a menor cerimônia, disputavam os pedaços e engoliam gulosamente cada porção daquele alimento letal. Sorrindo, Pedro Biló rastejou de volta. Agora era só aguardar que as drogas fizessem efeito. A mistura havia sido muito bem planejada. Se apenas tivesse usado a ayahuasca, os cães se recuperariam 1 hora depois. Se tivesse colocado só o timbó, o ruído que eles fariam na proximidade da morte teria alertado as sentinelas. Perfeito, em cerca de 30 minutos poderiam agir com mais segurança!

O leve estremecimento dos cães mostrou que a morte havia chegado para eles. Pedro Biló e mais três capangas deslocaram-se agilmente em direção às sentinelas, protegendo-se na escuridão da mata. Nas mãos, levavam os temidos punhais nordestinos, de dois gumes, utilizados pelos cangaceiros, com grossas lâminas de aço temperado, com ponta de 25 centímetros de agudeza.

Saltando das trevas, num movimento felino e uno, cada um tomou a sua vítima, tapando a sua boca com uma das mãos e, com a outra, enterrando profundamente o punhal nos rins. Com um estertor convulsivo, na terrível dor do rompimento dos rins, as sentinelas tombaram sem um gemido sequer, com os olhos a saltarem das órbitas, e os dentes cerrados rilhando num ruído áspero, violentamente sacudidas numa terrível crise aguda de insuficiência renal, mortífera e súbita. A morte sobreveio em cerca de 10 segundos.

Em seguida, todo o bando invadiu a aldeia e tomou posições estratégicas em relação às malocas principais. Pedro Biló apontou para a porta da maloca dos guerreiros e acionou o gatilho do papo amarelo. Em meio a um cerrado tiroteio, ainda entorpecidos de sono, os caxinauá saíram da maloca e correram em direção à cabana das armas. Mas encontraram-se com os homens de Pedro Biló, fortemente armados, que os mataram às dezenas. Mesmo assim, vários alcançaram as armas e ofereceram uma resistência heroica.

Crianças e mulheres, gritando aterrorizadas, procuravam se proteger nas cabanas ou entre as árvores. Alguns alcançaram as águas do lago e nadaram para os igapós. Mas diversos foram atingidos por balas certeiras e tingiram as águas do lago com a cor vermelha do seu sangue. Os valentes guerreiros caxinauá tombaram de pé e venderam bem caro as suas peles. Várias flechas trespassaram o peito dos homens de Pedro Biló e alguns tiveram as suas cabeças despedaçadas pelas bordunas e pelos tacapes. Invocando seus deuses e gritando, defenderam até à última gota de sangue a terra de seus ancestrais. Mas não podiam competir com a superioridade bélica dos homens brancos. E a lua prateada testemunhou a extrema covardia do ser humano, embrutecido em sua loucura assassina.

Após liquidar os guerreiros, aqueles homens, sedentos de sangue e possuídos de uma tara pervertida, agarraram as índias mais jovens e as que mais lhes apeteceram e promoveram um festim de estupros. Índias foram violentadas em meio ao sangue quente que jorrava dos guerreiros mortos. Seus gritos lancinantes ecoaram em vão através da selva. Ao longe, seus lamentos apenas eram ouvidos pelas outras índias e pelas crianças, jovens e velhos em fuga, que nada podiam fazer, a não ser chorar e esperar por uma futura vingança. E por toda aquela madrugada de horror, as índias capturadas foram o prêmio dos vencedores de uma batalha inglória.

Ao romper da manhã, havendo saciado a tara dos conquistadores, aquelas desventuradas índias tiveram as suas preces atendidas: uma bala na cabeça aliviou-lhes o sofrimento e levou-as aos braços piedosos de Mawutzinim, o deus maior, criador dos seres vivos e da floresta. Completada a obra e contabilizadas as baixas, o grupo vitorioso regressou para reportar a conquista e entregar o Arapapá nas mãos criminosas do mandante do covarde massacre. Uma festa estrondosa foi realizada e o mundo testemunhou o surgimento de mais um herói.

Esta é apenas a ponta do iceberg, tão somente uma das muitas histórias envolvendo a figura controversa de Pedro Biló. E não somente ele, mas muitos outros matadores e pistoleiros fizeram história naqueles tempos perdidos de Deus. Teodoro, Evaristo, Zé da Onça e tantos outros, protegidos pelos coronéis de barranco, acobertados por autoridades corruptas, foram o terror das pessoas honestas, essas sim as verdadeiras desbravadoras do Acre e de toda a Amazônia.

Seringueiros trabalhadores e corajosos, heróis anônimos, não festejados e nem reconhecidos nas datas do calendário nacional. Seus nomes jamais figurarão em nossas praças e nem em nossas ruas e avenidas, emporcalhadas com os nomes de Raposo Tavares, Domingos Jorge Velho e Bartolomeu Bueno da Silva. Fica registrado mais este protesto contra esses falsos heróis. Já basta de promover a fama de assassinos, mesmo que seus feitos tenham alargado as nossas fronteiras ou rechaçado os invasores de nossa pátria.

O que tenham feito de correto não é suficiente para encobrir seus crimes hediondos, assim como toda a água do mundo não é suficiente para lavar as mãos sujas de sangue de Pôncio Pilatos, que condenou Jesus à morte e tentou justificar-se lavando as suas mãos. E tampouco conseguirão clarear as águas tintas de sangue do lago do Arapapá.

Nota do autor: O nome “Arapapá” foi dado ao local do massacre, em virtude da mudança do nome da comunidade na época, para proteger seus atuais moradores, a maioria ignorando os fatos que lá se deram. O nome “Nezinho”, dado ao seringalista é fictício, para proteger o autor desta história, tendo em vista possíveis represálias. Sobre Pedro Biló, basta verificar com os seus descendentes ou com os moradores mais antigos de Feijó. Quanto a “Evaristo”, “Zé da Onça” e os demais, são apelidos de pistoleiros conhecidos e fazem parte também de outros relatos em outras histórias.

Para saber mais: “Dramas da Amazônia: contos de arrepiar”, de autoria de Sérgio Aparecido Dias, publicado em 2012 pela Editora Biblioteca 24horas. O livro é uma coletânea de contos resultantes da experiência pessoal do autor, que recolheu centenas de relatos e acontecidos ao longo dos rios amazônicos por onde trabalhou fazendo serviço de evangelização. Para complementar as informações, o autor fez pesquisas e consultas aos setores acadêmicos, ligados à literatura e ao folclore amazônico. Alguns nomes de lugares e pessoas citados no conto foram alterados para proteger pessoas e o autor do texto. O livro está disponível para aquisição no site da Amazon.com
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terça-feira, março 12, 2019

TAXA DE SOBREVIVÊNCIA AO CÂNCER DE MAMA NO ACRE É SIMILAR A DE PAÍSES DESENVOLVIDOS


Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

O câncer de mama é o mais frequente tipo de câncer entre as mulheres e atualmente se constitui em um grave problema de saúde pública no mundo, com taxas médias de incidência e mortalidade estimadas em 43,3 e 12,9 casos a cada 100 mil mulheres, respectivamente.

Ele não é uma doença associada com a pobreza e dentre os 25 países com maiores taxas de ocorrência da doença no mundo, 18 estão localizados na Europa. Bélgica, Luxemburgo, Holanda e França apresentaram em 2018 taxas de incidência que variaram entre 99,1 e 113,2 casos a cada 100 mil mulheres.

Embora sua taxa de mortalidade seja maior em países desenvolvidos do que nos em desenvolvimento (74,1/100 mil x 31,3/100 mil), a taxa de mortalidade é quase similar nestes dois grupos de países: 14,9/100 mil x 11,5/100 mil.

 Desde os anos 90 a taxa de mortalidade desta doença tem caído nos Estados Unidos, Australásia e em vários países europeus. Essa queda tem sido associada aos efeitos combinados da realização frequente de exames preventivos (mamografias) e melhorias no tratamento e na eficiência dos sistemas de saúde. O percentual de sobrevida de 5 anos após o diagnóstico em países desenvolvidos como a Espanha é superior a 80%, enquanto em países em desenvolvimento como a Índia ele é de 77%. Nas regiões sul e sudeste do Brasil, consideradas as mais desenvolvidas do país, ele varia de 75% no Rio de Janeiro a 87,7% em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

No Acre, estudo de pesquisadores da UNBe da Fundação Osvaldo Cruz publicado em 2012 (com dados referentes aos anos de 2007 e 2009) indicou uma taxa de incidência de 41,5 casos de câncer de mama a cada 100 mil mulheres com idade entre 25 e 69 anos. Em 2011 os mesmos pesquisadores tinham publicado um artigo no qual abordaram a tendência demortalidade por câncer no Acre entre os anos de 1980 e 2006 e mostraram que a taxa de mortalidade do câncer de mama tinha aumentado de 2,9 óbitos/100 mil mulheres em 1993 para 6,4/100 mil em 2004.

Em 2007 o Instituto Nacional do Câncer, ligado ao Ministério da Saúde, criou no Acre uma Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), cujo objetivo principal é oferecer assistência geral, especializada e integral aos pacientes com câncer, atuando no diagnóstico, estadiamento e tratamento dos pacientes. A expectativa era de que com a instalação da Unacon, o diagnóstico e o tratamento de pessoas afetadas pelo câncer no Acre pudesse ser aperfeiçoado, resultando na diminuição das taxas de mortalidade da doença e aumento da sobrevida dos afetados. 

Foi nesse contexto que a docente da Uninorte-Acre, Ruth Helena Pimenta Fujimoto, desenvolveu sua dissertação de mestrado no programa de Saúde Coletiva da UFAC entre 2012 e 2014: estimar a sobrevida hospitalar e os fatores preditivos envolvidos em mulheres afetadas pelo câncer de mama que foram tratadas na unidade da Unacon em Rio Branco, Acre, entre os dias 1º. de junho de 2007 e 31 de maio de 2012. Os resultados de seu estudo foram publicados neste mês de janeiro (Ciênc. Saúde Colet. v.24, n.1, p.261-273, 2019) e indicam que a instalação da Unacon no Acre está dando resultados positivos.

O estudo revelou que a taxa de sobrevida de 5 anos após o diagnóstico da doença nas pacientes tratados na Unacon foi de 87,3%, um valor superior ao observado em países europeus como a Espanha (≥ 80%) e mais alto do que aqueles observados em países em desenvolvimento como a Índia (77%) e Porto Rico (71,2%). O percentual de sobrevivência das pacientes tratadas na Unacon foi similar ao observado em Santa Maria-RS (87,7%) e mais elevado do que os registrados em Belo Horizonte-MG (78,5%), Florianópolis-SC (76,2%) e Barretos-SP (74,8%).

Um dado que surpreendeu os autores do estudo foi o fato de que 58,4% dos casos diagnosticados durante o período pesquisado ter sido classificado nos estádios iniciais da doença (0, I e II). Este alto percentual de diagnósticos nos estádios iniciais da doença é similar ao observado em países desenvolvidos e nas regiões mais desenvolvidas do Brasil. Vale ressaltar que o diagnóstico do câncer de mama em seu estádio inicial é crucial para a sobrevivência das mulheres afetadas. Um estudo realizado com 252 pacientes em Santa Maria-RS verificou que as taxas de sobrevida de 5 anos após a sua detecção foram de 97% para os casos classificados no estádio I, 87% no estádio II, 73% no estádio III e 57% para aqueles classificados no estágio IV.

Um resultado surpreendeu os autores do estudo. A alta incidência da doença em mulheres com menos de 40 anos: 14,3%. Alta incidência de câncer de mama em mulheres com menos de 40 anos é incomum e geralmente representa entre 5 e 7% dos casos diagnosticados. Eles também observaram que mulheres com menos de 40 anos diagnosticadas na Unacon apresentaram um baixa taxa de sobrevida nas faixas de 2 e 5 anos após a detecção da doença. As que foram diagnosticadas no estádio III da doença apresentaram baixa taxa de sobrevida depois de 2 anos de detecção da doença. Uma das possíveis razões para esse resultado é o fato de que mulheres com menos de 40 anos geralmente apresentam tumores mais difíceis de serem diagnosticados com precisão porque suas glândulas mamárias são mais adensadas, o que pode levar a um diagnóstico tardio e, consequentemente, maiores taxas de mortalidade. Além disso, é comum que programas gratuitos de mamografia preventiva não incluam mulheres com menos de 40 anos.

Atualmente a cirurgia é aceita como um tratamento padrão para pacientes em estádios iniciais do câncer de mama, sendo geralmente seguida por quimioterapia e/ou radioterapia para controlar sua reincidência. Dentre as pacientes tratadas na Unacon, a combinação de cirurgia + radioterapia resultou em melhores taxas de sobrevida nas faixas de 1, 2 e 5 anos após o diagnóstico da doença, quando comparado com casos em que a cirurgia foi seguida ou não por quimioterapia ou outra combinação de tratamento.

Na conclusão do estudo, os autores afirmam que o diagnóstico de um estádio tardio do câncer de mama aumentou em mais de 3 vezes o risco de morte após 2 anos de sua detecção. Da mesma forma, o diagnóstico de tumores maiores que 2,5 cm, mesmo com margem positiva para a realização da cirurgia para a sua remoção, receptor de progesterona negativo e qualquer outro tratamento que não fosse cirurgia combinada com radioterapia, afetaram a sobrevida específica de 5 anos das portadoras das doença e aumentaram o risco de morte em dois anos.

Para saber mais: “Survival rates ofbreast cancer and predictive factors: a hospital-based study from westernAmazon area in Brazil”, de autoria de Ruth Helena Pimenta Fujimoto (Uninorte-Ac), Rosalina Jorge Koifman (Friocruz-RJ) e Ilce Ferreira da Silva (Friocruz-RJ), publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva, v.24, n.1, p.261-273, janeiro de 2019.
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terça-feira, setembro 04, 2018

É POSSÍVEL TORNAR A EXTRAÇÃO DE BORRACHA NA AMAZÔNIA ECOLÓGICA E ECONOMICAMENTE VIÁVEL?


Evandro Ferreira*

O título desse texto é a tradução do ambicioso título de um artigo científico originalmente publicado em inglês no volume 134 (p. 186-197) da conceituada revista ‘Ecological Economics’, auspiciada pela International Society for Ecological Economics. Os autores do artigo são pesquisadores do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais e o pesquisador da Embrapa Acre, Dr. Rivadalve Coelho Gonçalves.

A resposta para a pergunta do título dada pelos autores da pesquisa é, infelizmente, devastadora. Pelo menos para mim, que ‘milito’ no ramo da Heveicultura desde o início dos anos 80, quando tive a oportunidade de atender aos cursos de ‘Tecnólogo em Heveicultura’ e ‘Engenharia Agronômica’ na Universidade Federal do Acre.

Segundo os autores do estudo, a extração de látex e produção de borracha tanto da floresta como de áreas plantadas são economicamente inviáveis em nossa região sem o pagamento de subsídios governamentais. Ou seja, nós os contribuintes é que estamos bancando a continuidade da produção de borracha na Amazônia. Os autores do artigo afirmam ainda que até mesmo a identidade cultural de nossos seringueiros, pelo menos temporariamente, depende do pagamento desses subsídios governamentais ou por serviços ambientais que eles prestam ao manter a floresta em pé.

O artigo ressalta o fracasso que foi o esforço dos últimos 40 anos de fortalecer a cadeia produtiva de numerosos produtos florestais não madeireiros visando, ao mesmo tempo, objetivos conservacionistas e de sustentação do modo de vida tradicional dos moradores de áreas florestais. Apesar de concordar, pelo menos podemos citar com orgulho uma notável exceção: a castanha do Brasil. Um produto extrativista que adquiriu nestes últimos dez anos uma importância social, econômica e ecológica só comparável à detida pela borracha no Acre durante os anos 70 e 80.

Os autores reconhecem a importância da borracha seja pelo seu aspecto histórico na Amazônia, seu alto potencial de uso industrial e com o fato de a seringueira ser uma espécie arbórea hiperdominante no bioma amazônico. Mas são lacônicos ao lembrar que o Brasil não é autossuficiente na produção de borracha. Das 400 mil toneladas dessa matéria-prima consumidas no país em 2011, 235 mil – equivalentes a US$ 1,1 bilhões – tiveram que ser importadas.

Apesar de extrapolarem sua conclusão para toda a Amazônia, a área de estudo da pesquisa está localizada ao leste do Acre, ao longo da bacia do rio Acre. Nela eles afirmam ter encontrado três espécies de seringueira (a real, a branca e a vermelha), informam que a produtividade média anual de látex é de 2,18 litros/árvore (valor que diminui com o tempo) e que a densidade de seringueiras na floresta foi estimada em 1,71 indivíduos/hectare.

Uma informação importante divulgada no trabalho diz respeito à eliminação da hipótese de que a distribuição da seringueira em nossas florestas não foi, como é quase certo no caso da castanha, produto da ação humana. Eles observaram que tanto a distribuição das plantas quanto da produtividade das árvores na floresta são completamente aleatórias.

No que concerne às áreas mais produtivas, os autores informam que as florestas da região central da bacia do rio Acre (tendo Xapuri como referência) e as da região sul da bacia, incluindo as do entorno de Assis Brasil, ambas na Reserva Extrativista (RE) Chico Mendes, são as mais promissoras.

Ao estimar o potencial de produção de borracha que poderia ser extraída dessas áreas florestais os autores chegaram a um número decepcionante: apenas 890 toneladas de borracha seca poderiam ser produzidas anualmente nas 2,5 milhões de hectares de florestas existentes na região alvo do estudo. Isso equivale a 0,36 kg/hectare/ano. O potencial produtivo das 770 mil hectares de florestas da RE Chico Mendes foi estimado em apenas 300 toneladas de borracha seca.

Para piorar as perspectivas, eles alertam que esse potencial produtivo tem sido comprometido e pode diminuir ainda mais no futuro em razão da contínua alteração da floresta por toda a região via derrubadas e incêndios florestais.

No que concerne ao retorno econômico dos diferentes tipos de borracha produzidos, especialmente na área da RE Chico Mendes, os autores são categóricos ao afirmar que apenas a produção de látex líquido é economicamente viável.

O retorno econômico da produção de borracha virgem prensada e folha defumada é praticamente zero considerando as condições mercadológicas atuais. Ironicamente, o tipo mais comum de borracha produzida na RE Chico Mendes é a folha defumada. Mais lamentável ainda é saber que a produção de qualquer um desses tipos de produtos só é viável, segundo os dados do artigo, com a presença do subsídio governamental.

A existência da empresa Natex (consumidora de látex) era crucial para a viabilidade econômica da extração desse produto (rendimento equivalente a US$ 6/hectare/ano), mas apenas para os produtores situados até 100 km da indústria. Nos demais casos a extração do látex é economicamente inviável.

Embora não explicitamente, os autores do artigo condenam a continuidade da exploração extrativista de seringueiras nativas em florestas acreanas. Para eles, a promoção de plantios via sistemas agroflorestais é essencial para aumentar o rendimento na produção de borracha e o lucro da atividade. De minha parte, e sem querer ofender a ninguém, me parece que esse tipo de conclusão tem um viés pesadamente mercantilista e empresarial.

Sabemos que mesmo os que se dizem ‘empresários do agronegócio’ não vivem e prosperam sem um ‘creditozinho’ subsidiado indireto (via perdão recorrente das dívidas do agronegócio aprovadas em Brasília). Então porque a manutenção em pé do que ainda resta de nossas florestas ricas em seringueiras, castanheiras, açaizeiros e tantos outros produtos que nos são úteis também não merece o mesmo tipo de tratamento?

Para saber mais: “Is It Possible to Make Rubber Extraction Ecologically and Economically Viable in the Amazon? The Southern Acre and Chico Mendes Reserve Case Study”, de autoria de Carolina Jaramillo-Giraldo, Britaldo Soares Filho, Sônia M. Carvalho Ribeiro e Rivadalve Coelho Gonçalves, publicado na revista “Ecological Economics”, vol. 134, p. 186-197, 2017.

*Evandro Ferreira é pesquisador do INPAe do Parque Zoobotânico da UFAC
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sexta-feira, dezembro 23, 2016

A DISPUTA EM FILA QUE VIRALIZOU E GEROU DEBATE SOBRE 'CORRUPÇÃO DO DIA A DIA'


BBC 16/12/2016

Uma foto que viralizou nas redes sociais com mais de 70 mil curtidas e 15 mil compartilhamentos gerou um debate sobre as pequenas corrupções do dia a dia e o popular "jeitinho brasileiro", à luz do atual momento vivido pelo país.

A imagem retrata uma mulher que, munida de uma sacola, teria usado a identidade de várias amigas para apanhar a maior quantidade de bebida isotônica em uma campanha de distribuição gratuita do produto na rua.

O episódio foi relatado pela paulistana Natália Bilibio, de 27 anos, em sua conta pessoal no Facebook.

Ela conta que estava em um ponto de ônibus no fim da tarde de uma quinta-feira (8/11) perto da Avenida Paulista, em São Paulo, aguardando a condução de volta para casa, quando observou uma cena que a deixou "indignada".

"Vi uma mulher com uma sacola de pano, dessas de supermercado, usando o CPFs de amigas para retirar o maior número possível de Gatorades (marca de bebida isotônica) de uma máquina instalada ao meu lado", relembra Natália à BBC Brasil. A campanha, do banco Santander, distribuía o produto gratuitamente a pedestres. A única exigência para obtê-lo era digitar o CPF.

"Vi a máquina sendo abastecida no dia anterior. Inicialmente, ela entrou na fila e pegou dois Gatorades. Em seguida, começou a ligar para as amigas e pedir o CPF delas para pegar mais e mais. Não me contive e a repreendi", diz Natália.

"Perguntei se ela estava com a consciência tranquila. Ela disse que sim. A partir daí, começou a me xingar e gritar comigo", completa. Natália acrescenta que, como voltou à fila diversas vezes, a mulher acabou com o estoque do produto.

"Pelas minhas contas, ela deve ter pego, no mínimo, dez Gatorades. Pessoas que chegaram depois não conseguiram mais pegar a bebida", avalia. "Nossa discussão durou cerca de dez minutos, até eu tomar o ônibus de volta para casa. Ela continuou me xingando e gritando da rua", acrescenta.

Ao voltar para casa, Natália decidiu postar a foto. "As pessoas defendem o fim da corrupção, mas não se dão conta de que suas próprias atitudes são corruptas", sentencia Natália.

Reação

Em seu Facebook, os usuários criticaram a atitude da mulher. A BBC Brasil não conseguiu ouvir sua versão dos fatos uma vez que a identidade da mulher não foi revelada.

"Como teremos um governo decente se as pessoas pensam dessa maneira? Lembrem-se de que a mudança deve começar por nós, pela base!", escreveu um usuário. "O problema do Brasil é o brasileiro", acrescentou outro.

"O famoso ditado 'farinha pouca, meu pirão primeiro'. Muito feio. Não é o mundo que está difícil e ruim. São as pessoas que habitam nele que estão se tornando cada vez mais intratáveis e menos altruístas. Pobres de espírito, pobres de afeto pelo próximo", descreveu uma usuário.

Houve quem também criticasse a campanha do banco.

"Detesto pessoas assim. Mas lembrando também que ninguém dá nada a ninguém muito menos banco então com o CPF introduzido o banco cria uma base de dados...tipo troca informação super relevante por Gatorade. Essas amigas entraram para a base de dados", afirmou um usuário.

"Eu só fico curiosa pra saber o que o Santander vai fazer com a informação de todos esses CPFs?", acrescentou outra usuária. Procurado pela BBC Brasil, o banco Santander informou que a ação foi concebida para "engajar clientes e não-clientes".

"A ação 'De um Ponto a Outro' foi concebida para engajar o público (clientes e não-clientes) ao proporcionar experiências com a marca Santander que materializem o posicionamento 'O que a gente pode fazer por você hoje?'", diz o comunicado enviado à BBC Brasil.

"A iniciativa está nas ruas de São Paulo desde agosto, sempre em pontos de ônibus próximos a universidades. A proposta consiste em oferecer, por exemplo, guarda-chuvas em dias chuvosos, isotônicos em dias quentes, ingressos de cinema e até poemas, antecipando desejos e necessidades das pessoas no dia a dia", acrescenta a nota.


"A identificação dos participantes pelo CPF é solicitada com o único e exclusivo objetivo de garantir que um número cada vez maior de pessoas tenha acesso aos benefícios", finaliza o banco.
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