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sábado, abril 18, 2015

APREENSÃO DE MADEIRA ILEGAL RENDE MULTA DE R$ 17 MILHÕES

Operação do Ibama realizada na divisa entre o Amazonas e Rondônia já vistoriou mais de 50 áreas com indicativos de desmatamento recente.

Por: Rede Diário de Comunicação/Via Painel Florestal

[Operação Toruk está sendo realizada desde o dia 16 de março nos municípios de Boca do Acre e Lábrea. Foto: Ibama]

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em ação de fiscalização da Operação Toruk, apreendeu, no início do mês de abril, um caminhão carregado com 18 toras de madeira (100 m³) e aplicou ao infrator uma multa de R$ 17 milhões. A operação, realizada na divisa entre os Estados do Amazonas e de Rondônia, já vistoriou mais de 50 áreas com indicativos de desmatamento recente.

De acordo com informações do Instituto, a operação, que está sendo realizada desde o dia 16 de março nos municípios de Boca do Acre e Lábrea, tem como objetivo combater o desmatamento ilegal. O caminhão toreiro, apreendido na Terra Indígena (TI) Kaxarari, também continha cem litros de combustíveis (gasolina e óleo diesel).

Segundo o Ibama, a TI Kaxarari é alvo constante de invasão de madeireiros, que exploram ilegalmente madeiras nobres como ipê, angelim, muiracatiara, entre outras. Ao perceber a chegada da equipe de fiscalização, os madeireiros fugiram para a floresta. No caminhão, havia plaquetas utilizadas para identificar tocos e toras de áreas de planos de manejo florestal.

Conforme a assessoria do instituto, as evidências indicam que há um esquema de “esquentamento” das madeiras provenientes da TI, que eram encaminhadas às serrarias da região. O caminhão toreiro foi queimado para impedir a continuação da exploração madeireira ilegal numa área de aproximadamente 3 mil hectares.

O infrator já foi identificado, foi multado em R$ 17 milhões, mas não teve sua identidade revelada. Ele também responderá criminalmente à Justiça Federal por invasão de terra indígena e exploração ilegal de madeira. As toras serão doadas aos indígenas das aldeais Pedreira e Paxiúba, que as utilizarão para melhoria de suas moradias e construção de escolas e postos de saúde. A área de exploração ilegal foi embargada e continuará sob monitoramento do Ibama.


Até o momento, a Operação Toruk, que conta com apoio do Batalhão Ambiental da Polícia do Amazonas, já vistoriou 53 áreas com indicativos de desmatamento recente, totalizando 2.980 hectares, o que equivale a mais de dois mil campos de futebol. Também, foram vistoriadas 27 áreas embargadas anteriormente e lavrados 12 autos de infração, com aplicação de R$ 20 milhões em multas, concluiu a assessoria em nota divulgada no site do Instituto.
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sexta-feira, abril 17, 2015

METANO DA AMAZÔNIA VEM DE REBANHOS E QUEIMA DE BIOMASSA

 Por Júlio Bernardes - jubern@usp.br
Agência USP de Notícias

A bacia amazônica é responsável por 4% a 5% das emissões de metano (CH4) — um dos gases do efeito estufa — em todo o mundo. O dado faz parte de pesquisa do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), entidade associada à USP, que determinou a emissão de metano entre os anos de 2010 e 2013, a partir da coleta de amostras de ar em quatro pontos da região, feita em aviões de pequeno porte. O trabalho da bióloga Luana Santamaria Basso aponta também que o manejo de rebanhos é responsável por 19%, em média, das emissões estimadas para cada um dos locais de estudo, enquanto a queima de biomassa contribui com 8% a 10% da emissão estimada para a área da amazônia brasileira.

O estudo, descrito em tese de doutorado apresentada no Ipen, fez parte de um grande projeto de pesquisa que tem como objetivo entender e determinar as emissões dos principais gases do efeito estufa da Amazônia. “Foram realizadas coletas em quatro localidades distribuídas na Amazônia Brasileira, formando um grande quadrante representando toda a Bacia, próximos às cidades de Santarém (Pará), Alta Floresta (Mato Grosso), Rio Branco (Acre) e Tabatinga (Amazonas)”, conta Luana. “Os estudos procuram observar como a amazônia contribui e quais são os processos que interferem nestas emissões, de modo a compreender como a região pode responder às futuras alterações climáticas”. O trabalho foi orientado pela professora Luciana Vanni Gatti, coordenadora do projeto no Laboratório de Química Atmosférica (LQA) do Ipen.

Na pesquisa foram realizados perfis verticais para as coletas de ar, utilizando aviões de pequeno porte, desde aproximadamente 300 metros (m) da superficie até 4,4 quilômetros (km), nos quatro locais de estudo na amazônia. “Foram realizados quatro anos de medidas continuas em escala regional, quinzenalmente, totalizando 293 perfis verticais realizados”, conta a pesquisadora. “Os perfis verticais são realizados tendo como base um plano de voo, preparado previamente, que indica para o piloto a localização e em quais altitudes devem ser feitas as coletas”.

A coleta tem inicio no ponto mais alto e desce em uma trajetória helicoidal de aproximadamente 5 km de diâmetro. “Os quatro anos de estudo mostraram que a Amazônia atua como uma importante fonte de metano, com uma emissão de 25,4 Teragramas (Tg) por ano”, aponta Luana. “Isso representa de 4% a 5% da emissão global, considerando a área da amazônia brasileira, que é de 4,2 milhões de quilômetros quadrados”.

Origem Antrópica

“Atualmente existem poucos estudos realizados sobre a emissão de metano na amazônia”, diz a pesquisadora. Para estimar algumas contribuições de atividades humanas nas emissões observadas na pesquisa, realizou-se alguns estudos complementares. “Hoje, cerca de 60% das emissões globais de metano são de origem antrópica, ou seja, relacionada com atividades humanas, como por exemplo a criação de rebanhos de animais que emitem metano a partir da fermentação entérica, as queimadas, o cultivo de arroz, entre outras”.

O monóxido de carbono (CO), que foi quantificado na mesma amostra de ar coletada nos locais estudados, foi usado para estimar qual a contribuição da queima de biomassa nas emissões de metano. “Os resultados mostraram que a queima representara entre 8% e 10% da emissão total estimada para a amazônia brasileira”, ressalta Luana. Também foi realizada uma estimativa das emissões provenientes da fermentação entérica e do manejo dos dejetos dos rebanhos de animais ruminantes. “Elas representam em média 19% da emissão de metano estimada para cada local estudado”.

Durante os quatro anos do estudo, foi possível observar uma variação anual das emissões, indicando uma relação com as variações climáticas, como por exemplo a variação da precipitação e de temperatura. “Os resultados obtidos ressaltam a importância da realização de estudos de longa duração, durante períodos de dez anos, por exemplo”, afirma a pesquisadora. “A comparação destes resultados com dados de temperatura, precipitação, número de focos de queimada, dentre outros, ajudarão a obter um melhor entendimento das fontes de metano e também da variabilidade em suas emissões ao longo dos anos, que atualmente não é completamente compreendida”.

Segundo Luana, os perfis de avião mostram a resultante de todos os processos que ocorreram desde a costa brasileira até o local da coleta, mostrando a região Amazônica como um todo, mas não permitem entender exatamente todas as fontes, sumidouros e os fatores que influenciam nestes processos. “Para isto são necessários estudos complementares que mostrem mais detalhadamente o funcionamento de cada compartimento da floresta, por exemplo das áreas alagáveis, dos rios, etc”, aponta. “Os resultados mostraram variações anuais nas emissões, porém é necessário mais tempo de estudo, em torno de dez anos, para poder considerar estas variações e observar uma tendência de aumento ao longo dos anos”.
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quinta-feira, abril 16, 2015

ESPÉCIES DE MADEIRAS NOBRES AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO NO MATO GROSSO

Levantamento constatou que o Cedro, Cerejeira e Jatobá estão entre as  31 espécies em estado crítico

Por Ciclo Vivo/M. Barbant, Sema/MT

O Estado do Mato Grosso é um dos que mais desmata em todo o Brasil. Em consequência disso, o território também integra a lista de espécies ameaçadas. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o Estado concentra 31 espécies de árvores em risco de extinção.

A informação consta nas Listas Nacionais de Espécies Ameaçadas de Extinção, divulgada em dezembro de 2014 pela ministra Izabella Teixeira. Segundo o documento oficial, 2.113 espécies foram analisadas e constatou-se que 31 delas estão em níveis que variam de “Em Perigo” até “Vulneráveis”.

Entre as árvores ameaçadas estão: palmito-juçara, ipê-felpudo, cerejeira, cedro, mogno, jequitibá, jatobá, entre outras. O desmatamento ilegal é a principal causa para a perda das espécies, seja para a própria indústria madeireira, para trocar a floresta por lavoura ou para a construção de empreendimentos.

Com a descrição feita pelo órgão governamental, as espécies identificadas ficam protegidas de maneira integral. Assim sendo, é proibida a coleta, corte, transporte, armazenamento, manejo, beneficiamento e comercialização. O uso das sementes, folhas e frutos, no entanto, está permitido, desde que sejam usadas técnicas de manejo que não coloquem em risco a conservação da espécie.

De acordo com a analista ambiental Hélida Bruno Nogueira Borges, da Coordenadoria de Conservação e Restauração de Ecossistemas (CCRE), da Superintendência de Mudanças Climáticas e Biodiversidade (Subio), da Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso (Sema), o estudo selecionou somente as espécies arbóreas porque apenas para este grupo existem informações para o Estado. “Espécies arbustivas, herbáceas, cipós e epífitas não foram identificadas na relação do MMA. Isto significa que o número real de espécies ameaçadas pode ser maior que as 31 espécies relacionadas”, disse a analista ambiental.


“As espécies encontradas em Mato Grosso, a partir de agora, precisam de cuidados na autorização de corte em Planos de Exploração Florestal (PEFs) e Planos de Manejo, já que essas práticas eliminam indivíduos e também a variabilidade genética necessária para a adaptação de espécies ao ambiente. O desmatamento ilegal é pior ainda, pois pode eliminar populações inteiras promovendo a extinção local ou regional de espécies de plantas, além disso, precisamos discutir a proposição de planos de proteção visando a conservação dessas espécies”, destacou Hélida Bruno.
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ESTRADAS AUMENTARAM DESMATAMENTO EM RONDÔNIA

Por Antonio Carlos Quinto - acquinto@usp.br
Agência USP de Notícias


Pesquisa realizada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, constata que no estado de Rondônia as proximidade das estradas é o principal fator que estimula o desmatamento. O estudo também analisou como a fragmentação da floresta influenciou a extinção local de espécies de mamíferos de médio e grande porte, e alterações na qualidade da água dos riachos locais.

[Imagens de satélite da família Landsat revelam a expansão do desmatamento entre os anos de 1975 e 2011]

As análises e levantamentos compõem a tese de doutorado do ecólogo Rodrigo Anzolin Begotti. “Ao todo foram cerca de quatro anos e meio de estudos e análises de uma área de aproximadamente 55 mil quilômetros quadrados, por meio de imagens de satélite da família Landsat referentes ao período de 1975 a 2011”, conta. A área estudada, segundo o cientista, representa cerca de 23% de todo o estado de Rondônia. Ali existem mais de 12 mil quilômetros de estradas de terra e pavimentadas. “Vale lembrar que o desmatamento de florestas tropicais é uma das principais fontes de emissão de gases do efeito estufa”, ressalta.

Begotti também avaliou como o que restou da floresta influenciou na qualidade da água dos riachos. “Neste caso, analisamos 21 parâmetros físico-químicos da água relacionando-os com a dinâmica do desmatamento, o arranjo espacial e a quantidade de floresta remanescente, além de características físicas das áreas drenadas por esses corpos d’água”, descreve. As análises laboratoriais foram realizadas no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), em Piracicaba. Com esses dados, o pesquisador conseguiu constatar, por exemplo, que a proporção de floresta até a distância de 100 metros dos riachos contribuiu para reduzir as concentrações de alumínio, fosfato, nitrogênio e sedimentos em suspensão, principalmente na estação chuvosa. Esse resultado tem implicações importantes com relação às modificações realizadas recentemente no Código Florestal no que diz respeito à manutenção de vegetação na beira de rios, lagos e nascentes.

Desmatamento histórico

A colonização do estado de Rondônia, como explica o pesquisador, foi marcada o pelos incentivos do governo federal, sobretudo nas década de 1970 e 1980, por meio da concessão de lotes para pequenos agricultores. “Isso levou ao desmatamento de grandes áreas, por parte de milhares de assentados, a maioria vindos das regiões sul e sudeste”, conta. Além disso, ele lembra que àquela época, a derrubada da floresta era condição para que os assentados garantissem a posse de seus lotes, sendo que a caça era a única fonte de alimentação. A coordenação e execução dos projetos de assentamento foi realizada pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária (INCRA), utilizando inclusive financiamento do Banco Mundial.

Anos mais tarde, já nas décadas de 1990 e 2000, os agentes do desmatamento mudaram, com a abertura de estradas e de grandes áreas para criação de gado. “Os lucros da produção da carne motivam a abertura de novas áreas e novos desmatamentos”, enfatiza o pesquisador. Begotti conta que o estado de Rondônia possui o sétimo maior rebanho do País com cerca de 12 milhões de cabeças de gado, segundo dados do IBGE. Com a situação incerta no que diz respeito à questão fundiária em algumas localidades, existem até hoje focos de conflito com posseiros e invasores de terras públicas que desmataram uma quantidade de floresta considerável dentro e nas imediações da Floresta Nacional do Bom Futuro, por exemplo.

Ele descreve que, ao longo de 36 anos de monitoramento houve uma perda de floresta da ordem de 24.826 quilômetros quadrados (km²) relacionada, dentre outros fatores, à expansão da malha viária de 3.158 km para 12.863 km de extensão. “Embora a extensão da malha viária não tenha variado de modo significativo quando comparamos as áreas desmatadas recentemente com aquelas do início da colonização de Rondônia, o processo de fragmentação da floresta desmatada nos últimos anos tem sido mais intenso”, lembra o ecólogo.

Entrevistas

As informações sobre as espécies de mamíferos foram coletadas em entrevistas junto a proprietários da região, tendo como referência os fragmentos de florestas dentro de suas propriedades. “Além disso, também visitamos Unidades de Conservação como e Reservas Eextrativistas (RESEX)”, conta o pesquisador. Ao todo, foram examinados cerca de 110 fragmentos de florestas sendo que, em cada um deles foi realizada uma ou duas entrevistas. O estudo compreendeu a região centro norte de Rondônia, englobando cerca de 10 municípios.

[Ainda há as espécies que persistem e resistem, mesmo em áreas cujo habitat florestal foi reduzido]

De acordo com o levantamento, as espécies que estão em maior risco de extinção local nos fragmentos são o tatu-canastra, a onça-pintada, a anta e o tamanduá-bandeira, entre outros, corroborando resultados de outros estudos na Mata Atlântica e na própria Amazônia. “Mas há as espécies de hábitos generalistas que persistem e resistem mesmo em áreas cujo habitat florestal foi extremamente reduzido, como o macaco prego, a paca, a irara e o tatu-galinha”, lembra o pesquisador, ressaltando que “algumas dessas espécies como a paca e o tatu-galinha ainda são caçadas, mesmo nos fragmentos”.

A pesquisa de doutorado O papel dos remanescentes florestais na retenção da biodiversidade e conservação da água em uma paisagem fragmentada na região central de Rondônia foi financiada pela FAPESP por meio de auxílio-pesquisa e bolsa regular. O estudo teve início em 2009 e foi concluído em 2014, no Departamento de Ciências Florestais da Esalq, sob orientação do professor Sílvio Frosini de Barros Ferraz.

Fotos: Rodrigo Anzolin Begotti
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quarta-feira, abril 15, 2015

PLANTAS DA AMAZÔNIA BRASILEIRA SÃO MATÉRIA PRIMA DE PRODUTOS PARA CABELOS

Liana John 
Blog Biodiversa - Planeta Sustentável
   
As duas espécies da Amazônia brasileira são amplamente conhecidas por seus usos tradicionais: do crajiru (Arrabidaea chica) há muito se tira o corante vermelho-vinho para dar vida aos sorvetes, produzidos na Europa inclusive, e do mulateiro-da-várzea (Calycophyllum spruceanum) se obtém chá e banho de assento para o resguardo pós-parto, sobretudo das moradoras de comunidades isoladas. Mas é graças às pesquisas sobre as propriedades e particularidades das substâncias encontradas nas duas plantas que hoje também se fabricam xampus, condicionadores, cremes para tratamento capilar e até tônicos para estimular o crescimento de cabelos.

O crajiru é uma trepadeira de folhas estreitas e longas, fácil de “plantar de galho” como se diz popularmente. É bastante cultivado em jardins e roças. Tanto o corante alimentício como o extrato dos cosméticos são obtidos das folhas, embora os produtos para cabelos não sirvam para tingir, pois o protocolo de extração é diferente.

O mulateiro-da-várzea é uma bela árvore de trinta metros de altura, com tronco liso e reto, de cuja casca se extraem compostos fenólicos antioxidantes e clareadores, usados contra rugas e manchas da pele (leia o post do blog Biodiversa Para rejuvenescer use o escorrega-macaco). Sua área de ocorrência natural se estende pelas várzeas do Acre, Amapá e Amazonas, em concentrações de até 30 árvores por hectare (só para efeito de comparação, as espécies madeireiras devem ter um mínimo de três árvores por hectare para serem exploradas legalmente e o mulateiro tem 10 vezes mais). A madeira é densa e tem bom poder calorífico, por isso é bastante usada como lenha para cozinhar, pelas populações tradicionais.

“Minha família veio da França e Amsterdã nos anos 1890 e se instalou no Acre, antes do Acre ser do Brasil”, conta o químico e empresário Paulo Tasso, justificando, em tom de brincadeira, como nasceu ‘índio de olhos azuis’. Desde criança, ele sempre viu a mulherada tomando chá de mulateiro e passando na pele para não envelhecer. E pode comprovar o efeito nos rostos lisos e sem rugas delas, com destaque para uma tia, Terezinha, hoje com 91-anos-que-ninguém-diz.

Por isso, Tasso investiu numa fábrica de creme facial antirrugas, chamada Casa de Mulateiro. Depois, tomou conhecimento de pesquisas realizadas com as duas espécies – mais de 40 teses de doutorado, só sobre o mulateiro – e criou também uma linha para cabelos, utilizando os extratos e a mucilagem de mulateiro e crajiru, com reforço de amor-crescido (Portulaca pilosa).

O mulateiro é fungicida, o crajiru é bactericida e o amor crescido fecha a cutícula do cabelo e dá brilho. Todos juntos garantem a limpeza e fortificam o couro cabeludo e os cabelos, sobretudo após tinturas à base de formol, amônia, guanidinas, peróxido de hidrogênio (água oxigenada) e hidróxidos.

“Como sou um pouco careca, comecei a desenvolver um tônico capilar para mim, à base de mulateiro e outro ativo vegetal. Deu muito certo – fez nascerem novos fios! – então agora estou preparando o lançamento desse tônico no mercado”, comemora o químico-empresário. Isso deve ocorrer assim que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apreciar a documentação, talvez até meados deste ano.

“Todos os nossos produtos são orgânicos, sem parabenos e sem petrolatos”, acrescenta. “O crajiru e o amor-crescido são cultivados e, no caso do mulateiro, que vem da floresta, de árvores nativas, temos o cuidado de acompanhar toda a coleta da casca, feita de modo sustentável por cooperativas do Sul do Amazonas. Queremos ter a certeza de só usar o mulateiro mesmo (sem misturas com outras espécies, como acontece quando não se controla a origem) e em condições ideais, sem fungos, sem resíduos”.


Pelo jeito, a aposta na dupla da biodiversidade amazônica compensa, sobretudo para quem tem problemas cabeludos. Ou melhor, capilares!
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terça-feira, abril 14, 2015

ANTROPOCENO: A ÉPOCA GEOLÓGICA DO HOMEM (I)

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Se a história geológica de 4,57 bilhões de anos do nosso planeta fosse condensada em 24 horas de um dia, o homem moderno iria surgir apenas quando faltassem três segundos para a meia noite. Essa breve presença passa a impressão enganosa de que o papel do homem na história do planeta é a de um mero coadjuvante sem maior importância.  Entretanto, a verdade é que o homem, nesses poucos segundos de sua existência geológica, tem influenciado de tal forma as condições naturais do nosso planeta que uma nova época geológica foi proposta para acomodar as mudanças patrocinadas por ele: o Antropoceno ou ‘época da humanidade’.

O termo Antropoceno, uma junção das palavras gregas anthropo-, que significa humano e –ceno, que significa novo, foi originalmente proposto pelo pesquisador americano Eugene Stoermer no início da década de 1980 para se referir aos impactos causados pelas atividades humanas sobre o planeta.  Entretanto, a popularização do termo ocorreu graças ao ganhador do prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen. Durante uma conferência científica realizada no México em 2000, depois de ouvir repetidas vezes o presidente do evento se referir à época geológica atual como sendo o Holoceno, iniciada 11 mil anos atrás com o fim da última era glacial ou idade do gelo, Crutzen pediu a palavra e, no calor do momento, afirmou “Precisamos parar com essa história. O Holoceno já ficou para trás. Agora estamos no Antropoceno!”

Para Crutzen era evidente que as mudanças em curso no planeta estavam sendo promovidas pelo homem e não por forças naturais, como as que caracterizam as demais eras, períodos e épocas da história geológica do planeta. Em síntese, a influência das atividades humanas na atmosfera terrestre nos últimos séculos tem sido tão significativa que poderia se constituir em uma nova época geológica. A formalização e o desenvolvimento do conceito de Antropoceno foram explicados por Crutzen e Stoermer no artigo “O Antropoceno”, publicado no ano de 2000 na revista Global Change Newsletter, e por Crutzen, em 2002, no artigo “Geologia da Humanidade” publicado na conceituada revista científica Nature.

É importante considerar, entretanto, que antes de Stoermer e Crutzen, outros autores já haviam abordado os efeitos das atividades humanas sobre a história geológica do planeta. Em 1873 o geólogo italiano Antonio Stoppani cunhou o termo ‘Era Antropozóica’ como sucessora da Era Cenozóica, usando como argumento o aparecimento do homem e as mudanças que ele estava promovendo no planeta.  Em 1879 o geólogo norte-americano Joseph Le Conte sugeriu o nome ‘Psicozoico’. Em 1926 o antropólogo Francês Teilhard de Chardin e o geoquímico russo Vladimir Vernadsky propuseram o termo ‘Noosfera’, por considerar que o poder intelectual humano gerou efeitos que poderiam ser considerados uma força geológica. Mais recentemente, em 1992, o americano Andrew Revkin utilizou o termo ‘Antroceno’ para justificar o fato de a era geológica atual estar sendo moldada pelo homem. Em 1999 o termo ‘Homogenoceno’ foi usado pelo biólogo sul-africano Michael Samways, que argumentou que na atualidade a biodiversidade está diminuindo e os ecossistemas no planeta estão se tornando mais similares.

Embora a adoção do termo Antropoceno pela comunidade científica, considerado tecnicamente mais apropriado, seja quase consensual, a sua inserção na ‘Escala de Tempo Geológico’ oficial pela Comissão Internacional de Estratigrafia da União Internacional de Ciências Geológicas ainda não se concretizou. Esperava-se que isso tivesse acontecido durante 34°. Congresso Internacional de Geologia realizado em 2012 na Austrália, mas não se concretizou. A esperança é que isso aconteça em 2016, durante o 35º Congresso Internacional de Geologia a ser realizado na África do Sul. Sobre essa situação, Paul Crutzen e Christian Schwägerl, um jornalista especializado em assuntos ambientais, afirmam textualmente, em artigo publicado em 2011, que “É uma pena que ainda estejamos vivendo oficialmente em uma época chamado Holoceno. O Antropoceno – marcada pela dominação humana dos processos geológicos, biológicos e químicos na Terra - já é uma realidade inegável. Há evidências de que a mudança de nome sugerida há mais de dez anos está atrasada. Talvez ainda demore um tempo até que o corpo científico responsável pela nominação de grandes períodos de tempo na história da terra - Comissão Internacional de Estratigrafia – se convença da necessidade da mudança. Mas isso não deve nos impedir de ver e aprender o que significa viver nesta nova época do Antropoceno em um planeta que está sendo antropizado em alta velocidade”.

Outro aspecto inconcluso sobre o Antropoceno é a data de seu início. A opinião de alguns estudiosos situa o início dessa nova época geológica entre o final do século 18 e os anos de 1950. O limite temporal mais antigo coincidente com o aperfeiçoamento da máquina a vapor por James Watt, e é considerando como o marco inicial da revolução industrial que promoveu um aumento significativo na quantidade de CO2 e outros gases causadores do efeito estufa na atmosfera do planeta. No século 20 a queima de combustíveis fósseis para a geração de energia para abastecer o parque industrial crescente no planeta só intensificou esse processo. O segundo limite temporal está relacionado com a intensificação dos testes nucleares atmosféricos a partir da década de 50. Testes nucleares, como ressalta David Grinspoon, curador de astrobiologia do Denver Museum of Nature & Science, produzem assinaturas isotópicas e de estruturas geológicas que não podem ser interpretadas de outra forma. Outras opiniões situam o início do Antropoceno no início do Holoceno, há cerca de 8 mil anos, por ocasião da disseminação da agricultura. Essa disseminação resultou no desmatamento em várias regiões do planeta e causou um aumento de CO2 na atmosfera que evitou a ocorrência de uma nova era do gelo. Alguns cientistas sugerem o início em meados do século 20, a partir da aceleração do crescimento populacional no planeta e o consequente aumento do consumo predatório de recursos naturais.

Independente das discussões acadêmicas que tentam determinar a data exata do início dessa nova época geológica, o certo que poucos argumentos podem negar que o ser humano se tornou um agente geológico capaz de causar mudanças marcantes no planeta, da mesma forma que vulcões e asteroides o fizeram no passado. Aceitar esse fato é fundamental porque poderá fazer com que nós possamos refletir e reformular o real papel que desempenhamos no planeta. Um editorial da revista Nature de março de 2015 coloca números preocupantes: desde o final da segunda guerra a população mundial aumentou 180%, o uso de água 215% e o consumo de energia 375%. A revista advoga para que a Comissão Internacional de Estratigrafia insira o Antropoceno na escala geológica oficial porque isso encorajaria uma atitude mental da população importante não apenas para compreender as transformações que estão em curso no momento, mas também para saber como agir para manejar a situação.

Para saber mais:

Araia, E. 2011. ‘Bem vindo ao Antropoceno’. Revista Planeta, 470. Disponível em: revistaplaneta.terra.com.br/secao/reportagens/bem-vindo-ao-antropoceno

Crutzen, P. J. e Stoermer, E. F. 2000. ‘The ‘Anthropocene’. Global Change Newsletter, v.41, p. 17.

Crutzen, P. J. 2002. ‘Geology of mankind’. Nature, v.415 (6.867), p. 23.

Martini, B. 2013. ‘The Anthropocene: Humankind as a Turning Point for Earth’. Astrobiology Magagzine. Disponível em: www.astrobio.net/interview/the-anthropocene-humankind-as-a-turning-point-for-earth

Martini, B. e Ribeiro, C. G. 2011. ‘Antropoceno: a época da humanidade?’ Ciência Hoje, v.48, n.283, p.38-43.

Nature Magazine. 2015. ‘Editorial: All in good time’. Nature, v.519, p.129–130. Disponível em: http://www.nature.com/news/all-in-good-time-1.17074

Zalasiewicz, J. et al. 2008. ‘Are we living in the Anthropocene?’ GSA Today, v. 18 (2), p. 4.

Zalasiewicz, J. et al. 2010. ‘The new world of the Anthropocene’. Environment Science & Technology, v.44 (7), p.2.228.
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segunda-feira, outubro 27, 2014

UMA VITÓRIA DA DEMOCRACIA, UM VOTO CONTRA OS GOLPISTAS

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Na eleição de domingo votei em Dilma Roussef, mas até sábado a noite estava certo que votaria em Aécio Neves. O que me fez mudar? Não compactuo com manipulações e tentativas escancaradas de ganhar eleição no grito. Explico: nessa eleição a sociedade brasileira quase foi vítima da manipulação orquestrada pelo ‘partido da imprensa golpista’ (PIG), termo criado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim para designar o conjunto de grandes empresas de comunicação que monopolizam há décadas a ‘forma e o conteúdo’ das informações que chegam à população brasileira. 

Refiro-me ao episódio protagonizado pela revista ‘Veja’, amplamente difundido pelos integrantes do PIG, que afirma em sua última edição que o doleiro Alberto Youssef denunciou a autoridades policiais e judiciárias a participação da Presidente Dilma e do ex-presidente Lula nos desvios financeiros ocorridos na Petrobrás. O depoimento do doleiro foi acompanhado por seu advogado, que ao ser questionado negou ter ouvido tal afirmação.

Para caracterizar o interesse eleitoreiro, a revista antecipou de sábado para quinta-feira a publicação de sua capa e de parte do texto da reportagem. Além disso, não é preciso lembrar que o interesse em ‘vazar’ partes do processo – que supostamente deveria correr em segredo de justiça – não é canônico, especialmente porque aconteceu na véspera da eleição.

A orquestração patrocinada pelo PIG esta semana não tem nada a ver com a liberdade que a verdadeira imprensa – conservadora ou progressista – tanto reclama. Liberdade de informar tem que vir atrelada com a responsabilidade de apurar e a oportunidade do contraditório para os acusados. O que o Jornal Nacional protagonizou no sábado (25/10) é um exemplo didático do ‘jornalismo de esgoto’. Não deu a Lula espaço para se defender. Não repercutiu a denúncia na sexta, mesmo com tempo de sobra para elaborar sobre o tema. Preferiu ‘fazer a festa’ no sábado, véspera da eleição, quando tentativas de esclarecimentos não iriam ter efeito algum no pleito ocorrido no domingo.

Como bem afirmou o colunista Ricardo Melo no jornal Folha de S. Paulo “A triste realidade: bandoleiros de gravata, travestidos de "bem informados", tentam dar credibilidade a histórias oriundas de porões. A forma e o conteúdo, mais uma vez, andaram de mãos dadas”.

E para os leitores mais jovens, que não conhecem ou se interessam em buscar outros fatos protagonizados pelos integrantes do PIG, fazemos questão de relembrar os episódios que resultaram na eleição de Fernando Collor em 1989.

Não consigo esquecer a manipulação que a Globo fez do debate Collor x Lula no Jornal Nacional exibido na véspera daquela eleição, quando, como agora, não era mais possível reparar a verdade dos fatos. No debate Collor x Lula houve um claro equilíbrio, mas na matéria exibida pelo Jornal Nacional, Collor deu ‘um banho’ em Lula.

E o episódio do sequestro, por terroristas chilenos, do empresário Abílio Diniz? Diniz foi ‘libertado’ no sábado, véspera do embate final Collor x Lula. Os integrantes do PIG não perderam a oportunidade de fazer a ligação do PT com os sequestradores: a polícia – atendendo interesses não esclarecidos até hoje – plantou material de propaganda do PT no cativeiro e, depois de torturar os sequestradores – que apareceram sujos, maltrapilhos, com olhos inchados e lábios partidos –, os fez posar com camisetas brancas, limpas e imaculadas, com propaganda do PT. As fotos foram amplamente divulgadas e um diário de Rio Branco deu como manchete na manhã da eleição ‘PT sequestra Abílio Diniz’. Como Lula poderia ganhar aquela eleição?

Se me arrependo de ter votado em Dilma? O tempo, o senhor da razão, dirá. Hoje tenho minha consciência tranquila, mas se minha escolha se mostrar equivocada poderei me corrigir na próxima eleição, daqui a quatro anos. Essa é a vantagem da democracia e não podemos negar, eleitores de Aécio inclusos, que a vitória de Dilma é uma vitória de nossa democracia. 

Quanto aos que tentaram manipular o resultado dessa eleição, a vitória de Dilma representa um duro golpe em suas pretensões. Resta saber se Aécio fez parte da trama tendo em vista a exploração que fez de forma tão didática, quase orquestrada com o PIG, das denúncias de Veja em seu programa eleitoral, no debate da Globo e em declarações para a imprensa geral.


Eu terei paciência de aguardar os desdobramentos do inquérito policial e do processo judicial. Se houver culpados tenho certeza que pagarão pelos delitos cometidos. José Genoino, José Dirceu, Delúbio Soares, Roberto Jefferson e tantos outros cardeais do PT e de partidos aliados estão ai para provar que nossa justiça tarda, mas não falha.
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sábado, setembro 20, 2014

O BAMBU É UM DESAFIO PARA A CONSERVAÇÃO E O MANEJO DE FLORESTAS NO SUDOESTE DA AMAZÔNIA

Final

Evandro José Linhares Ferreira*
Blog Ambiente Acreano


A ocorrência de florestas com comportamento caducifólio no sudoeste da Amazônia não está citada na literatura. Entretanto, as características dessas florestas se enquadram na definição de floresta tropical caducifólia (22; 47): formações ocorrentes em regiões onde a estação chuvosa é seguida por um longo período seco e com o estrato superior (dossel) formado de macro e mesofanerófítos predominantemente caducifólios, com mais de 50% dos indivíduos despidos de folhagem no período desfavorável. É interessante notar, no entanto, que o estrato inferior das florestas com comportamento caducifólio no sudoeste da Amazônia - dominado por bambu e/ou palmeiras - são perenifólios.


As florestas com comportamento caducifólio do sudoeste da Amazônia estão no limite sul do domínio da floresta ombrófila aberta da Amazônia e devem representar uma transição para outras formações pré-andinas e de regiões mais secas como o cerrado. Entretanto, se elas forem apenas enclaves não é incomum a ocorrência de florestas estacionais em meio a formações de florestas ombrófilas na Amazônia (48). Um indicador que reforça o caráter estacional das florestas com bambu no Acre é a ocorrência anormalmente elevada da palmeira Syagrus sancona e a quase ausência da palmeira açaí (Euterpe precatoria) (49). Syagrus é um gênero mais diversificado e abundante em regiões de cerrado ou em florestas de transição entre a Amazônia e o cerrado, e raro em florestas primárias da Amazônia (50).

Estacionalidade da floresta favorece o bambu

A admissão da ocorrência de florestas estacionais no sudoeste da Amazônia implica na reclassificação de parte considerável das florestas acreanas, consideradas em sua quase totalidade como dos tipos "ombrófila densa" e "ombrófila aberta" (3; 51), e suscita uma importante questão fitoecológica relacionada com a dominância do bambu na região: será que existe um favorecimento climático para o estabelecimento e a manutenção das extensas áreas de florestas com bambu na região? Nenhuma das hipóteses até aqui levantadas para explicar a presença do bambu na região considerou a sazonalidade climática e sua influência sobre a vegetação local: (i) ações antropogênicas (52), (ii) eventos naturais catastróficos como incêndios florestais massivos ocorridos no passado (53), (iii) oportunismo da espécie na colonização de clareiras e supressão da regeneração de outras espécies (7; 8), (iv) danos cíclicos-permententes no dossel da floresta (7) e (v) ocorrência associada a tipos específicos de solo (1).

Um fator que limita a aceitação da primeira hipótese é o fato dos registros históricos indicarem que a presença de assentamentos indígenas pré-colombianos na Amazônia está mais concentrada nas áreas de várzeas e florestas adjacentes do que nas florestas de terra firme dos interflúvios, onde as florestas com bambu do sudoeste da Amazônia são mais frequentes (7). Uma exceção a isso talvez sejam os povos de terra firme responsáveis pela construção de centenas de geoglifos em áreas de terra firme da Amazônia ocidental (54). As demais hipóteses são válidas, mas individualmente não explicam a resiliência do bambu na região.

Se for considerado que o fator climático desencadeia o comportamento caducifólio das florestas com bambu, condições ideais de luminosidade e espaço físico no dossel da floresta estarão disponíveis em bases anuais para o crescimento do bambu durante o período de estiagem. É importante ressaltar que mesmo com restrição de água no solo na estiagem, os colmos de Guadua weberbaueri são capazes de crescer 1,2 m/mês (2) porque acumulam água em seu interior (7). Dessa forma, independente de ações antropogênicas, eventos naturais catastróficos, oportunismo para ocupar clareiras abertas na floresta pela queda natural de árvores ou por blowdowns (rajadas de ventos muito fortes), e abertura de espaço no dossel da floresta via danos físicos causados na copa de árvores de sustentação, a estacionalidade das florestas do sudoeste da Amazônia funciona em favor da manutenção do bambu como o elemento dominador do subosque das florestas locais. O fator climático também deve ser um dos principais fatores que limitam a expansão do bambu para áreas florestais adjacentes à sua atual zona de ocorrência no sudoeste da Amazônia, pois em todas essas áreas adjacentes se verificam aberturas de milhares de clareiras por razões naturais (queda de árvores e blowdowns) ou decorrentes da ação humana (desmatamento, exploração seletiva de madeira).

Considerações finais

As florestas com bambu no sudoeste da Amazônia são formações que demandam extremo cuidado durante as intervenções para a exploração de seus recursos florestais, especialmente a exploração madeireira, pois o bambu, por sua agressividade e rapidez na colonização de novos espaços no interior da floresta, pode comprometer a regeneração natural de outras espécies e alterar a estrutura e a composição florística.

O fato das florestas com bambu serem do tipo abertas as tornam naturalmente muito mais suscetíveis ao fogo do que outras formações florestais amazônicas, como as florestas densas. Além disso, a mortalidade sincrônica e em massa do bambu, cujas populações podem ocupar extensões superiores a 2.700 km2, aumenta de forma dramática o risco de incêndios florestais na região.

A seca de 2005 favoreceu a ocorrência de numerosos incêndios florestais no sudoeste da Amazônia que alteraram a estrutura e a diversidade das florestas locais. Essas modificações estruturais e florísticas tornaram as florestas impactadas pelos incêndios florestais mais suscetíveis ao fogo e, provavelmente, favoreceram a expansão do bambu para novas áreas.

O longo período de estiagem que ocorre no sudoeste da Amazônia induz a maioria dos indivíduos arbóreos das florestas com bambu a se comportar de forma estacional, perdendo as folhas anualmente. Essa condição, independente de outras estratégias de crescimento e expansão que o bambu possui, é um dos fatores determinantes para a sua perpetuação nas florestas da região.

Nota: Os números entre parênteses referem-se às referência bibliográficas consultadas, disponíveis na íntegra do artigo, publica do na revista Ciência e Cultura, Vol. 66, p. 46-51, jul.-set. de 2014.

*Engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA-AC e do Parque Zoobotânico da UFAC.
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sexta-feira, setembro 19, 2014

O BAMBU É UM DESAFIO PARA A CONSERVAÇÃO E O MANEJO DE FLORESTAS NO SUDOESTE DA AMAZÔNIA

Segunda parte

Evandro José Linhares Ferreira* 
Blog Ambiente Acreano

As florestas com bambu e os riscos de incêndios florestais 

O perigo da invasão do bambu na Amazônia ocidental não decorre apenas da exploração madeireira. Outra ameaça é a ocorrência de fogo de origem natural ou decorrente de atividades humanas.

É possível que as mudanças climáticas em curso tenham contribuído de forma significativa para a seca que afetou severamente o sudoeste da Amazônia em 2005, uma das mais intensas dos últimos 100 anos (19; 20). Este evento pode ter sido um prólogo do que deverá acontecer nas próximas décadas, pois mais de 75% dos modelos climáticos propostos para a região sugerem que, até 2100, parte da extremidade leste e sul da Amazônia atualmente ocupada por florestas se tornará climaticamente imprópria para essas florestas, que serão substituídas por um tipo de vegetação parecido com as savanas (21).

A alta suscetibilidade dessa região às mudanças climáticas revelada pelos modelos climáticos (20) se deve, em parte, ao fato da tipologia florestal predominante ser do tipo "aberta", como são as florestas com bambu. No âmbito do sistema brasileiro de classificação da vegetação, elas são consideradas como "florestas ombrófilas abertas" (22). Elas predominam na parte sul da Amazônia e são consideradas como transição entre a floresta amazônica e áreas extra-amazônicas. Elas se distinguem fisionomicamente das florestas densas por apresentar dossel com árvores mais espaçadas (aberto) e ocorrer em regiões com climas sazonais onde a estação seca varia entre 2 e 4 meses (23).

O dossel mais aberto das florestas do sul da Amazônia favorece a predominância de alguns grupos de plantas no subosque, com destaque para as palmeiras (várias espécies) e o bambu (principalmente G. sarcocarpa e G. weberbaueri), resultando na ocorrência generalizada de florestas com palmeiras e bambu por toda a região.

A exploração madeireira, especialmente das árvores de maior porte, abre clareiras nessas florestas e contribui para ampliar a abertura do dossel florestal (24). Além de contribuir para aumentar a dominância do bambu nos locais em que já está presente e favorecer a sua expansão para áreas onde estava ausente (25; 26), a exploração madeireira também aumenta a suscetibilidade ao fogo (26-28), pois o microclima no interior das florestas abertas é mais seco e a serrapilheira que se acumula sobre o solo não conserva a umidade da mesma forma que nas florestas densas, onde o dossel é mais compacto (29; 30).

Pesquisadores que estudam florestas com bambu na Amazônia e em outras regiões já alertaram que a remoção de árvores madeireiras de grande porte é problemática não apenas porque elas tem naturalmente baixo volume de madeira e área basal, mas também porque isso aumenta os riscos de incêndios florestais (27-28; 31-32), especialmente após a exploração da madeira (16).

A seca de 2005 no sudoeste da Amazônia proporcionou condições para a ocorrência de numerosos incêndios florestais espontâneos (33-35) e contribuiu para tornar as florestas da região ainda mais suscetíveis ao fogo (36-38). As florestas impactadas pelo fogo tiveram sua estrutura alterada, pois o fogo afetou severamente as plantas do subosque, diminuiu a diversidade florística e causou a mortalidade de árvores de grande porte (39-42). Nessas condições, é possível que tenha havido uma expansão do bambu para o interior dessas florestas. A recorrência da ocorrência de incêndios florestais causados pelo homem na região, especialmente os derivados da queima de áreas agrícolas adjacentes às áreas florestais, é outro fator que deve contribuir para a expansão e dominância do bambu no sudoeste da Amazônia (26).

Florestas com bambu são estacionais? 

Entre 2005 e 2008 diversos sobrevoos foram realizados entre as cidades de Rio Branco e Santa Rosa do Purus, no Acre, por ocasião da elaboração do plano de manejo do Parque Estadual (PE) Chandless, que fica localizado no centro da "província" de bambu no sudoeste da Amazônia. Fotografias aéreas da floresta tomadas no auge do período seco (julho-agosto) durante esses sobrevoos revelaram algo intrigante para os pesquisadores: em todas as ocasiões, mais de 50% dos indivíduos arbóreos emergentes ou integrantes do dossel da floresta encontravam-se desprovidos de folhas ou mostravam apenas folhas novas, expondo a maior parte do subosque florestal dominado por bambu e/ou palmeiras abaixo.

Os primeiros indícios do caráter estacional das florestas naquela região remontam ao trabalho de caracterização da vegetação da Estação Ecológica (EERA) Rio Acre, localizada nas cabeceiras do rio Acre, no extremo leste do estado. Durante a estação seca de 2005 observou-se que a maioria dos indivíduos arbóreos nas florestas de encostas e topos de elevações na EERA Rio Acre estava desprovida de folhas (43). Como 2005 foi climaticamente atípico em razão da seca severa que atingiu a Amazônia Ocidental (20), se pensou que o comportamento estacional observado era consequência desse fenômeno. Entretanto, estudo florístico realizado no período chuvoso que se seguiu constatou que 61% dos indivíduos arbóreos encontrados correspondiam a espécies deciduais (44).

A EERA Rio Acre e o PE Chandless estão separados por uma faixa de floresta com cerca de 40 km de largura e por isso compartilham condições climáticas semelhantes, com pluviosidade de 1.900 mm em anos normais, mas que pode cair para menos de 1.500 mm em anos muito secos (45). A sazonalidade da precipitação é bastante pronunciada e o período seco pode se estender por até cinco meses (meados de abril a meados de setembro), mesmo nos anos considerados climaticamente normais (40; 45). Dessa forma, a possível explicação para o comportamento caducifólio das árvores emergentes e integrantes do dossel das florestas com bambu no Acre é climática, pois as plantas, especialmente as de maior porte, perdem as folhas em resposta à falta de água no solo durante a longa estiagem evitando, dessa forma, estresse hídrico e possível colapso.

Sem ter como manter a copa enfolhada, os indivíduos arbóreos, especialmente os emergentes, tendem a entrar em repouso fisiológico por um curto período de tempo e o seu crescimento, especialmente o radial, diminui ou para por completo dependendo da intensidade e da duração da estiagem. A retomada do crescimento após o surgimento de novas folhas resulta na formação de anéis de crescimento, fato observado em algumas espécies nativas do leste do Acre como a copaíba (Copaifera sp.). Esta condição tem levado pesquisadores locais (46) a tentar desenvolver modelos matemáticos para estimar o crescimento de espécies madeireiras locais com base em seus anéis de crescimento. 

[Artigo continua...]

Nota: Os números entre parênteses referem-se às referência bibliográficas consultadas, disponíveis na íntegra do artigo, publicado na revista Ciência e Cultura, Vol. 66, p. 46-51, jul.-set. de 2014. 

*Engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA-AC e do Parque Zoobotânico da UFAC.
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quinta-feira, setembro 18, 2014

O BAMBU É UM DESAFIO PARA A CONSERVAÇÃO E O MANEJO DE FLORESTAS NO SUDOESTE DA AMAZÔNIA

Primeira parte

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

No sudoeste da Amazônia ocorrem extensas áreas de florestas nativas com o subosque (interior da mata) dominado por algumas espécies de bambu do gênero Guadua (Figura 1). Localmente conhecidas como "tabocais" no Brasil e "pacales" no Peru, essas florestas ocupam uma área estimada em 161.500 km2 (1) (Figura 2) no sudoeste da Amazônia brasileira, nos estados do Acre e Amazonas, norte da Amazônia boliviana, no Departamento de Pando, e quase toda a Amazônia central do Peru, nos Departamentos de Madre de Dios e Ucayali. Estima-se que 59% da cobertura vegetal do Acre é composta por florestas primárias nas quais o bambu se apresenta como elemento principal ou secundário do subosque (2; 3).

O gênero Guadua está amplamente distribuído nas Américas e caracteriza-se pelo hábito arborescente, porte mediano a grande, colmos e ramos com espinhos recurvados que auxiliam a sua fixação em outras plantas (4). Assim como outros bambus, Guadua possui florescimento monocárpico, ou seja, cada população individual apresenta um único evento com floração e frutificação maciças e sincrônicas (5; 6) seguidas de mortalidade de toda a população. A longevidade das populações de Guadua no sudoeste da Amazônia é estimada entre 27 e 28 anos (1). A sincronia na floração, frutificação e morte do bambu acontece por que ele é uma planta clonal, suportada por uma extensa teia rizomatosa subterrânea. Estudo recente estimou que o tamanho médio das populações de bambu no sudoeste da Amazônia é de 330 km2, mas em uma delas a extensão ocupada era de 2.750 km2 (1).

As espécies de bambu mais frequentes nos tabocais do sudoeste da Amazônia são Guadua sarcocarpa Londoño & P. M. Peterson e G. weberbaueri Pilg. Ambas são lenhosas de hábito arborescente, sarmentosas e podem atingir até 20 m de altura e 10 cm diâmetro (4). Embora eretos no início de seu crescimento, os colmos adultos dessas espécies se apoiam em outras árvores para atingir o dossel da floresta. Nesse processo as copas das árvores de pequeno e médio porte (DAP > 30 cm) nas quais os colmos se apoiam são danificadas (7). A grande concentração de colmos que se estabelece nas áreas mais propícias para a espécie exerce uma carga de peso excessiva sobre as árvores apoio, que, em algumas situações, terminam por cair. Sem sustentação, os colmos maiores inclinam-se ou quebram-se e caem sobre as plantas menores do subosque florestal abrindo uma clareira e formando uma massa que bloqueia a passagem da luz e suprime fisicamente o recrutamento de outras árvores. As clareiras abertas são rapidamente ocupadas por novos colmos de bambu (8) e esse ciclo quase perpétuo de distúrbios no dossel florestal é uma das estratégias que os bambus do sudoeste da Amazônia usam para manter, de forma perene, a ocupação de extensas áreas florestais na região (7).

De uma maneira geral, florestas dominadas por bambus apresentam-se estruturalmente alteradas, especialmente nos estratos intermediários e no dossel. Possuem menor riqueza florística e densidade de árvores, e a redução da área basal arbórea total varia entre 30 e 50% (8-11). A presença do bambu também reduz entre 29 e 39% a biomassa aérea da floresta (12; 13) e entre 30-50% o potencial de armazenamento de carbono (2). Ele pode afetar ainda o influxo de outras espécies arbóreas, enfraquecer a habilidade competitiva das espécies com baixa capacidade de adaptação quando o ambiente passa a ser dominado pelo bambu, alterar a composição florística, reduzir em quase 40% o número de espécies na amostra de um hectare, e causar uma redução na diversidade a ponto de a mesma ser considerada uma das mais baixas da Amazônia (2; 14).

A exploração madeireira e o risco da invasão do bambu

Mesmo restritas ao sudoeste da Amazônia, as florestas com bambu são relevantes biologicamente em razão de sua ampla ocorrência na referida região. Apesar disso, a insuficiência de estudos científicos para compreender a dinâmica dessas florestas pode comprometer os esforços locais de exploração florestal sustentável. E o caso da exploração madeireira é o mais emblemático porque esta atividade é praticada de forma seletiva e a retirada das árvores deixa como legado imediato centenas de clareiras no dossel da floresta. Essas clareiras, com abundante espaço físico e luminosidade, são extremamente favoráveis ao desenvolvimento do bambu, que tem ampliada as condições para se expandir em áreas onde antes não existia. É preciso, portanto, descobrir as condições que favorecem o aparecimento do bambu, sua velocidade de crescimento e o tempo que leva para dominar uma determinada área florestal. Para o Acre, a resposta a essas questões é muito importante e urgente porque é nas regiões central e leste do estado, onde se concentram as florestas com bambu, que a exploração madeireira é mais intensa.

Estudos recentes mostram que a exploração manejada de madeira em florestas com bambu é mais complexa (15; 16) e limitada pelo fato de elas apresentarem menor área basal e densidade de árvores, resultando quase sempre em um menor volume de madeira explorado. Uma das sugestões para garantir a exploração sustentável nessas florestas envolve a combinação de ciclos curtos de cortes, baixa intensidade de exploração e rotação das espécies a serem exploradas em cada ciclo (17).

Uma avaliação do manejo de madeira em floresta com bambu no leste do Acre demonstrou que o volume de madeira remanescente após a primeira exploração se reduziu em 2/3, indicando que, no longo prazo, o manejo das espécies comerciais fica comprometido pela pouca quantidade de árvores passíveis de exploração futura. Isso levou os autores do estudo a duvidar se a exploração de madeira em florestas com bambu pode ser sustentável, especialmente nos casos que envolvem grupos de pequenos proprietários que realizam a exploração de forma comunitária (15). Para eles, a melhor alternativa de manejo seria restringir a retirada das árvores ao período imediatamente posterior aos eventos de mortalidade natural das populações de bambu, preferencialmente durante a estação seca que se segue a esses eventos (17), quando as plântulas da espécie ainda estão muito vulneráveis e o sistema de rizoma ainda não está completamente desenvolvido (18).

Existe uma incerteza e preocupação sobre o que acontecerá com as florestas do sudoeste da Amazônia após a exploração seletiva de milhares de árvores. Sabe-se que as florestas dominadas por bambu são floristicamente muito heterogêneas (15) e isso torna difícil prever se as áreas exploradas seguirão seu curso natural de regeneração ou se o bambu, com sua agressividade exagerada, e ajuda humana via abertura de clareiras, irá promover mudanças estruturais e biológicas de resultados imprevisíveis. Pode parecer exagerado, mas no contexto atual de desconhecimento científico e da intensa atividade de exploração florestal, existe a possibilidade de grandes extensões florestais da Amazônia sul-ocidental se transformarem em tabocais.

[Artigo continua...]

Nota: Os números entre parênteses referem-se às referência bibliográficas consultadas, disponíveis na íntegra do artigo, publicado na revista Ciência e Cultura, Vol. 66, p. 46-51, jul.-set. de 2014. 

*Engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA-AC e do Parque Zoobotânico da UFAC.
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quarta-feira, junho 18, 2014

REFORMA AGRÁRIA NO ACRE: ASSENTOU, DETONOU?

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Nos últimos anos, a facilidade de acesso a imagens de satélite tem permitido a observação "desde lá de cima" de ilegalidades ambientais cometidos "cá em baixo". Se você leitor tem acesso à internet e usa com frequência o programa Google Earth, uma ‘rápida visita’ à região compreendida pelos municípios de Plácido de Castro e Acrelândia permite ver claramente a situação de ilegalidade existente na maioria dos lotes dos projetos de assentamentos do Incra daquela região quando o assunto se refere ao tamanho mínimo da reserva legal que eles deveriam preservar.

Esta situação é comum na maioria dos projetos de assentamento existentes no Acre. A imagem que ilustra este texto, um recorte de algumas propriedades em um projeto de assentamento do Incra nas cercanias de Brasiléia (os retângulos correspondem aos lotes), permite ver com facilidade que algumas propriedades já alcançaram 80% de desmatamento da floresta, quando a lei exige exatamente o contrário.

Originalmente planejados para receber pequenos agricultores e suas famílias em pequenos lotes de 100 hectares, esse tipo de assentamento agrícola se constitui, na atualidade, em um modelo anacrônico que, indiretamente, promove a destruição paulatina da cobertura florestal para, em seu lugar, serem implantadas pastagens para a criação extensiva de gado. Se alguém fizer uma visita às propriedades ilustradas na figura acima seguramente constatará que não existem mais ‘pequenos agricultores’ assentados no local. E não será surpresa se também verificar que já faz muitos anos que os lotes foram vendidos (‘por debaixo do pano’) para fazendeiros que estão, gradativamente, transformando o projeto de assentamento do Incra em uma grande fazenda.

Essa prática é generalizada por toda a Amazônia. Logo que o Incra emite o título de posse definitiva, muitos assentados vendem os lotes para outras pessoas, quase sempre fazendeiros em busca de terras baratas para expandir suas propriedades. Depois de vender os lotes, os novos ‘sem terra’ vão bater nas portas do Incra exigindo novos lotes. E quando são agraciados com novas áreas de terra, a primeira coisa que eles fazem (isso é inevitável) é desmatar "um pouquinho" da floresta para cultivar milho, arroz, feijão, mandioca e outros produtos alimentares. Muitos até formam umas poucas hectares de pasto para criar uma dúzia de cabeça de gado. Nada que cause grandes estragos. Entretanto, se isso se repete constantemente, o impacto ambiental desta rotina é enorme.

Resumindo o problema: estamos caminhando em círculos. Tanto sob o ponto de vista da reforma agrária quanto de desmatamento. O irônico é que pela lei da reforma agrária, os lotes de projetos de assentamento não podem ser revendidos e, teoricamente, áreas destinadas para pequenos agricultores deveriam permanecer como tal e não transformadas em grandes fazendas de gado. Infelizmente isso tem acontecido o tempo todo e, pelo menos no Acre, todo mundo vê e sabe onde as fazendas de criação de gado estão prosperando nos projetos de assentamento. Se nada for feito, vamos precisar de muitos "Brasis" para atender a demanda de uma reforma agrária feita "as cegas" e sem critérios.

Um exemplo presente do que o futuro nos reserva está acontecendo no Projeto de Assentamento (PA) Carão, localizado a cerca de 50 km da cidade de Rio Branco. Esse assentamento, criado em 1991, possui uma área de pouco mais de 11 mil hectares nas quais estão assentadas cerca de 270 famílias que ocupam lotes com área média de 60 hectares.  Um trabalho publicado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UNB) em 2013 alerta que, mantido o ritmo de desmatamento praticado pelos pequenos proprietários, antes de 2018 toda a vegetação fotossinteticamente ativa do PA Carão terá sido suprimida. Na atualidade a reserva legal, que deveria recobrir 80% da área dos lotes, ocupa apenas 39% da área total do projeto de assentamento.

Uma ameaça que paira sobre os remanescentes florestais do PA Carão é a predominância de florestas abertas com bambu. Como se sabe, a cada 28 anos as populações de bambu morrem naturalmente e se esse evento ocorrer no período mais seco do ano, as florestas locais ficarão extremamente susceptíveis ao fogo. No mesmo estudo, os pesquisadores da UNB constataram que durante a grande seca ocorrida em 2005 pelo menos um terço da área do PA Carão foi afetado por queimadas favorecidas pela estiagem anormal. Assim, além da ameaça direta do homem e do comportamento natural de parte das plantas que forma a vegetação, as florestas sofrem com os eventos climáticos decorrentes da mudança climática em curso.

Em 2006 a engenheira agrônoma da Ufac, Sumaia Vasconcelos, alertava em uma reportagem do site ‘O Eco’ que ‘grande parte dos assentamentos no Acre apresenta menos que 50% da reserva legal e mata ciliar totalmente destruída’. Na época, trabalhando com monitoramento de queimadas no Parque Zoobotânico da UFAC, Suamaia dizia ainda que nos municípios onde os projetos de assentamento estavam localizados o número de focos de calor detectados por satélite era bastante elevado. “No leste do estado, onde aconteceram 40 dos 60 assentamentos no ano passado (referindo-se ao ano de 2005), foram registradas mais de 80% das queimadas do Acre”.

A situação ambiental precária dos assentamentos agrícolas na Amazônia não é novidade. Assim como as velhas desculpas para justificar a sua insustentabilidade: ‘falta de orientação e acesso a técnicas avançadas de cultivo levam os pequenos agricultores a continuar a com a prática de corte e queima’, ‘falta de apoio para o cultivo e de suporte para o escoamento da produção, além da precariedade das estradas estão entre as principais razões para os assentados deixarem suas terras logo depois de serem assentados pelo Incra’.

Na teoria, então, bastaria fazer assentamentos próximos a centros consumidores ávidos para comprar a produção agrícola dos assentados e ter por perto as instituições de apoio técnico, ambiental e financeiro, certo?

Não é o que parece se olharmos a situação do PA Carão, que está localizado a apenas 50 km de Rio Branco, que se constitui não apenas no maior mercado consumidor da produção agrícola acreana, mas também é sede de todos os órgãos e instituições ligadas ao setor agrícola e ambiental do Estado: Seaprof, Secretaria Estadual de Agricultura, Departamento de Florestas (SEDENS), Secretaria Municipal de Agricultura, Secretarias municipal e estadual de Meio Ambiente, Incra, Ibama, Imac, Embrapa, UFAC e instituições de fomento agrícola.

Vejam que com todas estas ‘vantagens competitivas’, as perspectivas ambientais do PA Carão são as piores possíveis e se prevê que antes de 2018 sua área florestal deverá ter sido suprimida.

Quem errou e não procurou corrigir os erros? Quem se acomodou e não foi à luta para mudar a situação? Estas são provavelmente as perguntas óbvias que muitos costumam fazer com o dedo apontado para os possíveis culpados quando a situação é irremediável. Felizmente o desastre ainda não se consumou e ainda dá tempo para unir esforços e evitar que essa ‘mancha’ fique para sempre marcada em todas as pessoas e instituições que tem o dever moral e legal de prevenir eventos como o que se anuncia para o PA Carão.

*Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta em 17/06/2014.
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terça-feira, maio 27, 2014

COMO FOI POSSÍVEL CONSTRUIR GEOGLIFOS NAS FLORESTAS ACREANAS? (II)

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

O argumento de que os indígenas levaram mil anos para resolver o problema das ‘terras fracas’ da Amazônia, ou seja, desenvolver técnicas agrícolas para alimentar grandes contingentes populacionais em áreas de florestas de terra-firme onde foram construídos os geoglifos não se sustenta porque essas técnicas deveriam ter sido herdadas por seus descendentes, contemporâneos dos primeiros exploradores espanhóis e portugueses que adentraram a Amazônia no início do século XVII. Se isso tivesse acontecido, esses povos deveriam ter prosperado e formado assentamentos perenes, mas os primeiros exploradores encontraram apenas pequenos grupamentos nômades sobrevivendo da caça e da pesca, em sua maioria habitando as margens dos grandes rios da região.

Nessa altura os geoglifos já haviam sido ‘engolidos’ pela floresta e sua existência só seria revelada no final do século XX. É como se os povos construtores dessas estruturas magníficas, que dominaram uma ampla região no limite sul-ocidental da Amazônia, tivessem desaparecido de forma rápida em um evento pré-colombiano catastrófico – doença? – sem deixar descendentes que pudessem continuar as suas práticas culturais, construtivas e de manejo da floresta.

A chegada do homem no sul da Amazônia deve ter acontecido por volta de 10 mil anos atrás, no final da última glaciação. Antes da glaciação, a paisagem local era dominada por extensas savanas que abrigavam uma megafauna diversa composta por preguiças e jacarés gigantes, tatus ‘do tamanho de um fusca’, e outros herbívoros igualmente grandiosos. O aquecimento ao final da glaciação permitiu a rápida ocupação de toda a região por florestas tropicais abertas e densas. E foi nesse novo ambiente que há cerca de 2-3 mil anos atrás os geoglifos foram construídos. Portanto, os seus construtores não tiveram outra opção, mas ‘enfrentar’ a floresta para realizar suas obras.

Estudos já demonstraram que o desmatamento de um hectare de floresta usando machados feitos de pedra demandam grande tempo e uma quantidade imensa de mão-de-obra: 1.883 homem/hora. Embora a mobilização de tal contingente não tenha sido de todo impossível no passado, o principal fator limitante para tal empreendimento seria a alimentação desse batalhão de pessoas e respectivas famílias. Como produzir grãos, raízes e proteína animal em quantidade suficiente para alimentar adequadamente a todos?

Vários pesquisadores tem procurado uma explicação lógica para entender como os construtores dos geoglifos tiveram sucesso em sua empreitada trabalhando em um ambiente francamente desfavorável. E uma das que me chamou mais a atenção foi a proposta por pesquisadores da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, publicada em um artigo na edição de abril da revista Journal of Biogeography. Nesse artigo, tendo como base imagens de satélite e uma série de dados ambientais (temperatura, precipitação, características dos solos, elevação, etc) eles modelaram a distribuição presente das florestas com bambu (Guadua spp.) e dos geoglifos no sudoeste da Amazônia e encontraram uma forte associação entre a localização dos geoglifos e florestas dominadas pelo bambu. É importante observar que nesta região as florestas com bambu são muito comuns nas regiões dos interflúvios, popularmente conhecidas como terra-firme ou 'centro', na linguagem dos extrativistas da região.

Sabe-se que as populações de bambu morrem de forma sincrônica porque elas são clonais, ligadas por um complexo e extenso sistema rizomatoso subterrâneo. Assim, quando esse rizoma morre, todos os colmos de bambu ligados a ele morrem juntos. Um estudo recente determinou que a longevidade dos bambuzais no sudoeste da Amazônia varia entre 27 e 28 anos e que o tamanho médio dos mesmos é de 330 km², sendo que o maior deles ocupava uma extensão de 2.750 km². Quando uma dessas populações de bambu morre, uma grande quantidade de massa vegetal inflamável se deposita sobre o solo da floresta. E se esse evento acontece no auge do período seco, a probabilidade de realizar a queimada da floresta é elevada. Dessa forma, conforme sugerido pelos pesquisadores da Universidade de New Hampshire, a eliminação da floresta é imensamente facilitada.

De fato, as florestas com bambu são muito diferentes de outras florestas na região. Elas apresentam-se estruturalmente alteradas, especialmente nos estratos intermediários e no dossel, possuem menor riqueza florística e densidade de árvores, e a redução da área basal arbórea total varia entre 30 e 50%. A presença do bambu reduz em até 39% a biomassa aérea da floresta e entre 30-50% o potencial de armazenamento de carbono. O bambu também pode afetar o influxo de outras espécies arbóreas, enfraquecer a habilidade competitiva das espécies com baixa capacidade de adaptação e reduzir em quase 40% o número de espécies na amostra de um hectare. Inventários realizados em florestas com bambu no Acre revelaram uma densidade mínima de 300 árvores/hectare (diâmetro a altura do peito igual ou superior a 10 cm), enquanto nas florestas sem bambu esse número pode passar de 600/hectare.

Pode-se, portanto, pensar que os construtores dos geoglifos eram povos sistemáticos que monitoravam diversos bambuzais e que tinham ideia aproximada de quando a morte dos mesmos iria acontecer. Com paciência de sobra e um pouco de sorte, a morte de um ou outro bambuzal eventualmente ocorria no período mais seco do ano. Nessa condição, a queimada da floresta era facilitada e a eliminação da maior parte da vegetação era feita pelo fogo, restando aos indígenas apenas a derrubada das árvores de maior porte, que nas florestas com bambu são em número significativamente inferior ao de outros tipos de florestas.

A queimada das florestas nas quais o bambu morria colocava à disposição dos indígenas construtores dos geoglifos dezenas, talvez centenas de hectares de solos favoráveis aos mais diversos cultivos agrícolas visto que a queimada das plantas adiciona uma riqueza temporária ao solo, permitindo o seu uso por 2-3 anos, nos moldes do sistema de derruba e queima praticado pelos pequenos agricultores da atualidade. Nestas mesmas áreas os geoglifos eram construídos.

Dessa forma, é possível pensar que os povos construtores de geoglifos eram itinerantes (nômades) e essa itinerância era guiada pela dinâmica da mortandade das populações de bambu. Da mesma forma é possível supor que a extensão das clareiras abertas por este comportamento oportunístico dos indígenas era sempre suficiente para suportar a população existente no momento.

O que ainda permanece um mistério completo é a razão para a construção de tantos geoglifos. Alguns pesquisadores tem sugerido que eles tinham função de proteção, moradia e mesmo canais de irrigação para a agricultura. Por ora, penso, como uns poucos, que os geoglifos tinham um caráter sagrado. E me arrisco a especular que foram construídos como forma de agradecimento aos deuses pela dádiva que a morte recorrente dos bambuzais na região representava: a continuidade da sobrevivência desses povos. 

Imagem: Geoglifo 'Quinoá', localizado nas proximidades do ponto onde o igarapé Quinoá cruza a rodovia BR-364, sentido Porto Velho, a cerca de 20 km da cidade de Rio Branco (Fonte: Google Earth).
Publicado por Evandro Ferreira 0 comentários Digg! Link Permanente Envie este artigo para um amigo

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