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domingo, agosto 09, 2009

COMUNISTAS, EVANGÉLICOS E O PODER POLÍTICO

...Desse modo podemos concluir que os comunistas conquistaram espaço político via recursos públicos e não via organização dos trabalhadores como ocorreu na Rússia...Agora chegou a vez das igrejas evangélicas que fizeram a lição de casa: investem intensamente em novas adesões, ou melhor, conversões, com retorno em dízimos, carreiam votos para aumentar o espaço político...

A Queda da Bastilha

Fátima Almeida *

Na escola, nos ensinavam a rememorar datas históricas. A Queda da Bastilha em 14 de julho era de uma sonoridade impressionante, mas, o seu significado permanecia velado. Mais tarde o que representou a Revolução Francesa tornou-se compreensível, com um fato muito importante: a separação entre Igreja e Estado.

Até então os monarcas eram ungidos pelo Papa e o povo era convencido da sua ascendência divina. Com a Revolução surgiu a República que não era bem uma experiência nova e sim uma reedição da Roma clássica.

Millôr Fernandes já avisou: “a história é como um idiota: se repete, se repete, se repete..” Pois bem, o que assistimos hoje no Acre mais parece uma reprise ou um retorno da estreita vinculação que havia entre Igreja e Estado, antes de 1789.

Vamos por partes: a ascensão do PT junto com os partidos satélites ocorreu, em grande parte, pelo apoio da Igreja Católica, num momento em que parte dela dava uma guinada em favor dos oprimidos da América Latina. Aqui mesmo em Rio Branco, as comunidades eclesiais de base foram um meio eficaz de organização e politização daqueles milhares de seringueiros expulsos pela ação dos pe-cuaristas e grileiros.

Por essa via, alguns dos nossos parlamentares alcançaram vagas no Senado e na Câmara Federal tais como Niílson Mourão e Marina Silva. Diga-se de passagem, isso nunca foi feito de forma transparente e sim em reuniões fechadas, preliminares das convenções do partido, apenas aqueles que transitavam pelos bastidores é que podiam reconhecer no jogo político das esquerdas locais quem fazia parte desta ou daquela facção. As facções que se aliavam à Igreja foram vencedoras, estão no poder.

Os comunistas, num primeiro momento, participaram de governos do PMDB, após o fim da Ditadura Militar. Com a formação e vitória da Frente Popular migraram para a base política do PT. O curioso é que, entre os partidos satélites, o PCdoB, foi o que mais cresceu, talvez porque a participação no governo através de cargos destinados aos seus partidá-rios constituiu um “caixa” altamente significativo devido às doações. Desse modo podemos concluir que os comunistas conquistaram espaço político via recursos públicos e não via organização dos trabalhadores como ocorreu na Rússia com a formação dos soviétes, conselhos representativos dos coletivos de camponeses e operários. E estão engrossando também suas fileiras com crentes..

Agora chegou a vez das igrejas evangélicas que fizeram a lição de casa: investem intensamente em novas adesões, ou melhor, conversões, com retorno em dízimos, carreiam votos para aumentar o espaço político, e estão se constituindo num poder altamente expressivo. Podemos dizer que preencheram o vácuo deixado pelas lideranças sindicais cooptadas. E mais, fazem tudo de forma transparente, à luz do dia, com ampla divulgação. Por enquanto, toda essa mobilização visa constituir força suficiente para galgar degraus acima, amanhã poderão chegar ao topo.

Para a História reunir igrejas e Estado é um retrocesso. Ademais, a figura de um Jesus místico embaça a compreensão de um Jesus histórico que se ergueu contra a extrema exploração dos oprimidos da Palestina pelos judeus ricos.

Em artigo de José Tadeu Arantes, numa edição especial da “historia viva”, a de n° 4, o texto de um box chama a atenção para o fato de que muito mais do que um local de culto, o Templo de Jerusalém era o centro econômico, político e religioso de Israel. Além da arrecadação de um milhão de contribuintes, dentro e fora da Palestina, auferia somas fabulosas com o sacrifício diário de animais cria-dos nas grandes propriedades das famílias dos sacerdotes. Os fiéis ao comprarem os animais tinham que pagar ágio de 8% aos cambistas já que o Templo convencionou a tetradracma tíria, o dólar da época, em razão de que a moeda corrente era altamente inflacionada. A oposição à elite sacerdotal que comandava essa rede econômica levou Jesus à morte. Sem contar que parte da elite judaica era mancomunada com os dominadores romanos. Além disso, Jesus falava com mulheres em público, era amigo das prostitutas e estava pouco se lixando com as interdições entre puros e impuros. Revolucionou também os costumes.

Há mais de vinte anos o escritor português José Saramago publicou o romance O Evangelho Segundo Jesus onde apresenta uma interpretação sobre essa trama que oculta o Jesus histórico para criar as condições típicas de crentes e religiões cujos comportamentos foram denominados por Karl Marx, em seu conjunto, como “ópio do povo”. O que lhe custou morrer em extrema pobreza apesar de ter redigido uma obra monumental e vital para a compreensão da história.

Segundo o jornalista Aimé Savard, nesta mesma edição, “o judaísmo era muito diversificado e mesmo dividido entre algumas grandes correntes e uma multiplicidade de seitas político-religiosas que nascia e desaparecia em torno de profetas efêmeros”. Parece que Millôr estava certo. Isso parece muito com o que estamos assistindo hoje no Acre e talvez no país todo.

A grande questão é que na França, a separação entre Igreja e Estado aconteceu por absoluta necessidade de criação de um Estado laico, com uma constituição, ensino laico, impulso às pesquisas de cunho científico-tecnológico em razão da expansão industrial. Ciência e indústria tem sido o casamento mais longo que já se viu.

Em nossas escolas, duzentos anos depois da Revolução Francesa, alguns professores seguem a teoria do Criacionismo (e Deus criou Adão..) negando-se a sequer comentar com seus alunos sobre o Dar-winismo (a evolução das espécies através da seleção natural e luta pela vida). Esses professores trabalham livremente e à vontade porque não existe a necessidade de dotar nosso ensino público das condições e oportunidades capazes de propiciar o aparecimento de jovens cientistas e/ou inventores já que tudo que se compra em matéria de tecnologia já vem feito e de muito longe.

Felizmente ou infelizmente, para a História, os milagres não contam e a necessidade é um modo seguro para interpretação dos fatos. As múltiplas igrejas que proliferam como cogumelos estão dando uma inegável contribuição enquanto amortecedoras da classe trabalhadora que em vez de resgatar as lutas contra a exploração prefere correr atrás de milagres individuais. As esquerdas lançaram Karl Marx na lixeira e as novas gerações não vão inventar nenhum software. Mas a interdição da BR-364, nos últimos dias, pelos habitantes da Extrema é uma bela lição do que identificamos como “necessidade”, em História. O grande milagre é o poder do povo quando desperto. É quando o carro anda.

*Fátima Almeida, jornalista e especialista em educação ambiental publica coluna semanal no jornal A Gazeta.
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