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domingo, fevereiro 13, 2011

HISTÓRIA DO VÍRUS DA HEPATITE C

História do vírus da hepatite C no Brasil ganha mapa

Cristiane Albuquerque
Agência Fiocruz de Notícias

Atualmente, cerca de 170 milhões de pessoas no mundo estão infectadas pelo vírus da hepatite C, 2 milhões delas no Brasil. Contudo, pouco se sabe sobre a história do vírus no país. Um estudo desenvolvido pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) acaba de lançar luz sobre o tema, gerando um mapa inédito que permite entender a dinâmica e a trajetória dos genótipos mais prevalentes da hepatite C no Brasil – os subtipos 1a, 1b e 3c. A pesquisa aponta para dados importantes sobre a epidemiologia do vírus, suas diferenças e semelhanças em relação aos que circulam em outros países e mesmo no Brasil.

Comparando genomas

A pesquisa, realizada por meio de colaboração entre os laboratórios de Hepatites Virais e de Aids e Imunologia Molecular do IOC, é baseada na análise comparativa das sequências nucleotídicas do vírus da hepatite C (HCV) de amostras brasileiras com as de outros países. Foi usada como base de comparação parte da região NS5B do genoma do HCV. A região NS5B é responsável por codificar a RNA-polimerase dependente de RNA, enzima responsável pela síntese de novas fitas de RNA durante o processo replicativo do HCV. “A região NS5B é a mais utilizada em todo mundo para a classificação do HCV em subtipos, pois apresenta várias diferenças na seqüência nucleotídica permitindo a diferenciação precisa entre os vários subtipos, é a região com maior número de sequências depositadas no GenBank, ideal para estudos comparativos”, explica a chefe do Laboratório de Hepatites Virais, Elisabeth Lampe, que integra a equipe do estudo.

Foram analisadas sequências genéticas de 231 sequências de amostras de vírus da hepatite C isoladas no Rio de Janeiro e em Goiânia, entre 1995 e 2007. Os dados das sequências referentes às amostras brasileiras foram comparados, por meio de programas de computação específicos, com sequências genéticas de amostras do vírus que circulam em países da América do Norte, Europa e Ásia, disponíveis em bancos de dados internacionais.

Relógio molecular

Pesquisador do Laboratório de Aids e Imunologia Molecular do IOC, Gonzalo Bello explica que a origem da epidemia de hepatite C no país foi estimada utilizando como base a teoria do Relógio Molecular, que sugere que nos organismos em geral (inclusive os vírus) os genes estariam evoluindo em uma taxa constante ao longo do tempo. “Com base na Teoria do Relógio Molecular, é possível calcular em um período de tempo a taxa de evolução, determinando quando um grupo de vírus teria começado a se expandir em uma população”, descreveu o especialista.

Alinhado à teoria do Relógio Molecular, foi adotado o método de reconstrução da história evolutiva conhecido como bayesiano coalescente. “O método de reconstrução da história evolutiva utilizado baseia-se precisamente nas estimativas de uma taxa de evolução sobre a velocidade com que as sequências genéticas vão acumulando mutações ao longo do tempo. O método calcula quantas mutações há entre as sequências e, sabendo a velocidade com que essas mutações se acumulam, estima o período de tempo que essas sequências precisaram para evoluir e divergir uma da outra, a partir de um vírus ancestral comum”, completou o pesquisador.

“Nossos resultados indicam que os três principais subtipos de HCV provavelmente iniciaram a circular no país na segunda metade do século 20, coincidindo com a introdução de práticas de transfusão de sangue. A história epidêmica do HCV no Brasil é caracterizada por um longo período de expansão exponencial do numero de casos e, a partir de 1980-1995 observa-se uma redução das taxas de crescimento, coincidindo com a introdução de testes de exclusão em doadores de sangue, tais como níveis séricos elevados de alanina aminotransferase (ALT) e presença de anticorpos contra o vírus da hepatite B e da hepatite C” explicou Elisabeth Lampe. “Estes dados sugerem que a expansão da epidemia do HCV pode ter sido contida a partir das medidas de prevenção adotadas no Brasil, como a obrigatoriedade dos testes anti-HCV nos bancos de sangue, além das campanhas distribuição de seringas descartáveis entre usuários de drogas, que certamente também contribuíram para o declínio da expansão da epidemia da hepatite C”, completou a pesquisadora.

Dinâmica da dispersão do HCV no Brasil

A partir da análise, foi possível perceber que as características das linhagens brasileiras do vírus da hepatite C apresentam diferenças entre si quando comparadas com as que circulam em outros países. “Com base na análise, percebemos que o subtipo 1a da hepatite C que circula no Brasil forma um grupo independente em relação às sequências de outros países do mesmo subtipo. Já para os subtipos 1b e 3a, não parece haver uma separação tão clara das sequências brasileiras em relação às estrangeiras, pelo menos no que se refere ao segmento NS5B, que utilizamos como base de análise”, destacou Elisabeth Lampe.

Os resultados da pesquisa revelaram ainda variações importantes no padrão de transmissão do vírus entre os três subtipos considerados. A hepatite C é transmitida através de sangue contaminado, procedimentos médicos e uso de drogas injetáveis ilícitas. No passado, a transfusão de sangue era a principal forma a transmissão da doença, antes da utilização de testes de triagem para a detecção da infecção em doadores de sangue.

“A transmissão do subtipo 1a foi caracterizada pela difusão de grandes linhagens brasileiras com um intercâmbio de vírus entre diferentes regiões geográficas do país. A transmissão do subtipo 1b foi caracterizada pela introdução simultânea de múltiplas linhagens do vírus da hepatite C no país, com uma transmissão de vírus restrita entre as regiões do país e grupos de risco. Já a transmissão do subtipo 3a foi caracterizada pela difusão simultânea de múltiplas linhagens filogenéticas do vírus e a mistura aleatória por grupo de risco e local de amostragem”, apontou Gonzalo.

O estudo comprovou também que há certo grau de isolamento geográfico na dinâmica de disseminação entre as regiões Sudeste e Centro Oeste, principais fontes das amostras estudadas. “Verificamos que as transmissões são mais frequentes dentro de cada região do que entre as regiões”, pontuou o pesquisador.

“Esses dados são importantes para entender as características atuais da epidemia, detectar possíveis diferenças no potencial epidêmico dos diversos genótipos que circulam no país. Além disso, é importante estimar a história evolutiva da infecção da hepatite C para prever o futuro impacto da doença, principalmente das formas mais graves como a cirrose e o câncer hepático, já que o lapso entre a infecção pelo HCV e o desenvolvimento das complicações da hepatite C crônica é de várias décadas”, ressaltou Elisabeth. Para os pesquisadores é importante que a variabilidade genética seja verificada em outras regiões do genoma do vírus, a fim de estudar áreas relacionadas a mutações de resistência a novos medicamentos.

(Foto: Gutemberg Brito)
Publicado por Evandro Ferreira 0 comentários Digg! Link Permanente Envie este artigo para um amigo

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