AMBIENTE ACREANO: VAI UMA DOSE DE 'TAMPA AZUL'?
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segunda-feira, abril 07, 2008

VAI UMA DOSE DE 'TAMPA AZUL'?

O consumo de álcool de uso doméstico como bebida alcoólica é prática corriqueira na Amazônia. Em São Gabriel da Cachoeira-AM, o produto é vendido lado a lado com as bebidas alcoólicas comuns. No Acre o problema existe, mas pouco se sabe da sua gravidade

Quem já teve a oportunidade de andar pelo interior do Acre sabe que nos lugares mais distantes, onde até cachaça é produto raro, o consumo do álcool de farmácia é freqüente. Os moradores destas zonas até já tem um nome para o produto farmacêutico que se passa como bebida alcoólica: 'tampa azul'.

Durante as excursões de coletas de amostras botânicas realizadas pela equipe de pesquisadores do Parque Zoobotânico da UFAC o uso de álcool para conservação das amostras é rotineiro. Mas há que se tomar cuidado com o estoque pois, dependendo do porto, a 'choradeira' por uma dose de 'tampa azul' pode ser grande.

Não sabemos a gravidade do problema do consumo humano do álcool de farmácia com fins etílicos no Acre. Mas em São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas, o problema é tão grave que foi objeto de um estudo.

A carta que reproduzimos abaixo aborda o problema amazonense e foi publicada na Revista Brasileira de Psiquiatria. Pela descrição, o problema no Acre tende a ser igual ou pior.

Vale a pena acessar, no Blog Biodiversidade Acreana, o artigo 'Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil', de autoria de Maximiliano Loiola Ponte de Souza e Luiza Garnelo da Fundação Oswaldo Cruz e da Universidade Federal do Amazonas, Manaus, Brasil. O artigo foi publicado na revista Cadernos de Saúde Pública vol.23 no.7, Rio de Janeiro. Ele aborda a questão do uso do álcool entre populações indígenas.


Revista Brasileira de Psiquiatria, Vol. 29, No. 4, São Paulo.


CARTA AOS EDITORES

Comércio de "álcool de farmácia" no município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, Brasil: uma questão de saúde pública

Sr. Editor,

A literatura especializada demonstra o impacto do consumo de bebidas alcoólicas no perfil de morbi-mortalidade da população mundial(1). A população indígena encontra-se especialmente vulnerável a estes agravos(2-4). São Gabriel da Cachoeira (SGC) é um município localizado no noroeste do Estado do Amazonas, na fronteira entre Brasil, Colômbia, e Venezuela.

Estima-se que aproximadamente 90% de sua população seja composta por indígenas, pertencentes a 22 etnias diferentes. Estudo realizado em comunidades rurais, de SGC, evidenciou que o consumo de álcool líquido 96º Gay-Lussac ("álcool de farmácia") faz parte das substâncias alcoólicas lá ingeridas(3).

A venda de álcool etílico hidratado, em todas as graduações, e álcool etílico anidro por atacadistas e varejistas foi temporariamente suspensa no Brasil pela Resolução-RDC nº 46, de 20 de fevereiro de 2002, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Tal resolução visava evitar os riscos oferecidos à saúde pública decorrentes de acidentes por queimadura e de ingestão, principalmente em crianças.

Destaca-se, aqui, que na área urbana de SGC o uso de "álcool de farmácia" intencional e não apenas acidental consiste em um problema de saúde pública a ser enfrentado. Neste município observa-se, inclusive, de forma recorrente, a exposição deste produto nas prateleiras onde estão as bebidas alcoólicas. Este, costumeiramente, não é colocado junto aos demais produtos supostamente de limpeza. Assim, colocar na prateleira cachaça e "álcool de farmácia", lado a lado, é rotina nos estabelecimentos comerciais de SGC.

A força do hábito parece tão forte que, mesmo em situações nas quais o produto a ser vendido era álcool na forma gel, ele era igualmente exposto na prateleira de bebidas.

Há consenso na literatura sobre a eficácia de políticas públicas voltadas para a questão dos problemas relacionados ao uso de álcool, embasadas em experiências exitosas, nacionais e internacionais, empreendidas, sobretudo, junto a populações urbanas não-indígenas(5). Sua plena efetividade, num contexto majoritariamente indígena, pode não ser amplo e similar. Entretanto, a venda de "álcool de farmácia" juntamente com bebidas alcoólicas em estabelecimentos comerciais deve ser alvo de regulamentação do poder público.

Considerando-se as especificidades encontradas em municípios como SGC, conclama-se a Associação Brasileira de Psiquiatria a se aliar a outras entidades como a Sociedade Brasileira de Queimaduras e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) na discussão sobre o retorno da proibição da comercialização de álcool na forma líquida, por entender que esta temática está diretamente ligada a Saúde Mental.

Maximiliano Loiola Ponte de Souza
Centro de Pesquisa Leônidas e Maria Deane, Fundação
Oswaldo Cruz, Manaus (AM), Brazil

Referências

1. Meloni JN, Laranjeira R. Custo social e de saúde do consumo do álcool. Rev Bras Psiquiatr. 2004;26(Suppl. 1):7-10.

2. Kunitz SJ, Levy JE. Drinking careers: a twenty-five-year study of three Navajo populations. New Haven/London: Yale University Press; 1994.

3. Souza ML, Garnelo L. Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil. Cad Saude Publica. 2007;23(7):1640-8.

4. Guimaraes LA, Grubtis S. Alcoolismo e violência em etnias indígenas: uma visão crítica da situação brasileira. Psicol Soc. 2007;19(1):45-51.

5. Laranjeira R, Romano M. Consenso brasileiro sobre políticas públicas do álcool. Rev Bras Psiquiatr. 2004;26 (Suppl.1):68-77.
Publicado por Evandro Ferreira 0 comentários Digg! Link Permanente Envie este artigo para um amigo

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