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27 agosto 2009

INICIAÇÃO SEXUAL, IDENTIDADE MASCULINA E SAÚDE

Padrão hegemônico de masculinidade influencia comportamento e saúde

Fernanda Marques
Agência Fiocruz de Notícias

As narrativas de homens jovens são o ponto de partida de um estudo da Fiocruz que tem como objetivo principal identificar a interface entre iniciação sexual, identidade masculina e saúde. Depois de ouvir e analisar os relatos de universitários do Rio de Janeiro, a pesquisa constatou que eles atribuem diferentes significados à iniciação sexual. Além disso, sentem-se pressionados a agir de acordo com roteiros sociais que ditam como um indivíduo deve se comportar para provar sua masculinidade.

Esse estudo foi iniciado no mestrado e vem sendo ampliado no doutorado da pedagoga Lúcia Emilia Figueiredo de Sousa Rebello, desenvolvidos no Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), sob orientação do sanitarista Romeu Gomes. O trabalho é parte de uma pesquisa maior, aprovada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que visa analisar os sentidos atribuídos por homens à sexualidade masculina e aos cuidados de saúde sexual, também em desenvolvimento no IFF. O estudo rendeu um artigo publicado no início deste ano no periódico Ciência & Saúde Coletiva.

Na maioria das vezes, tanto no senso comum como no meio acadêmico, a iniciação sexual se apresenta associada à primeira relação sexual entre pessoas de sexos opostos. No entanto, conforme mostra o artigo, identificar e trabalhar com os diferentes significados que os indivíduos atribuem à experiência de iniciação sexual permite uma análise que reflete aspectos subjetivos e questões socioculturais – fundamentais para a compreensão dos scripts que permeiam a conduta sexual masculina. Apesar dessa importância, só mais recentemente as percepções dos jovens sobre este e outros assuntos envolvendo a sexualidade começaram a ser valorizadas como matéria-prima para pesquisas e intervenções na área da saúde sexual e reprodutiva.

Iniciação sexual cada vez mais cedo

Para os universitários ouvidos durante o estudo de Lúcia e Romeu, a iniciação sexual está associada à descoberta do corpo como fonte de desejo e prazer, assim como à demarcação de uma etapa da vida, um marco entre o fim da infância e o início da fase adulta. Outro significado atribuído à iniciação sexual é o de despertar para o sexo oposto. De acordo com os pesquisadores, esse despertar faz parte de um roteiro social de gênero ensinado desde cedo às crianças, para mostrar-lhes como deve ser a relação entre homens e mulheres. “Mesmo na narrativa do jovem que declarou ‘gostar de meninos’ este despertar para o sexo oposto aparece como um roteiro de iniciação sexual a ser seguido e que limita por longo período a expressão de sua sexualidade”, contam Lúcia e Romeu no artigo.

Os jovens autores das narrativas também apontaram medo e ansiedade de não corresponderem às expectativas de idade para a iniciação sexual, ditadas por um modelo hegemônico de masculinidade. “Possivelmente, os homens jovens sentem a necessidade de provar para si mesmos, através de sua primeira relação sexual, que são ‘homens de verdade’’, argumentam os pesquisadores. A exigência de ser Homem com H maiúsculo pode levar os meninos a iniciarem sua vida sexual numa idade cada vez mais precoce.

Preservativo esquecido ou deixado de lado

O artigo destaca, ainda, que diferentes processos de socialização, reproduzidos a cada geração, estabelecem o cuidado com a saúde como uma característica da mulher. Portanto, é compreensível que, nas narrativas dos rapazes sobre sua experiência de iniciação sexual, não tenha aparecido a preocupação com o cuidado da própria saúde sexual. Com acesso à informação e pertencentes a uma geração que acompanhou à emergência da Aids – eles nasceram entre 1981 e 1987 –, os jovens estudados incluíam em seus scripts sexuais o uso da camisinha, mas nem sempre. O preservativo era esquecido ou deixado de lado, principalmente, nas relações com namoradas. “O namoro, no discurso destes jovens, pressupõe uma relação de exclusividade entre pessoas que se gostam e, sendo assim, haveria uma confiança de que ‘nada de mal aconteceria’”, contextualizam Lúcia e Romeu. “Outras justificativas apontadas são o fato de ‘ter sido pego de surpresa’ e a dificuldade para colocar o preservativo”.

Não usar a camisinha temendo se atrapalhar e estragar o momento é mais uma prova de como os participantes da pesquisa estão enredados nos scripts sexuais, segundo os quais o sexo é uma performance que não admite erros e deve ser executada com competência. “Assim, muitos jovens, para garantir uma boa performance, preferem não correr o risco de perder a ereção, em meio à dificuldade para colocar o preservativo, e têm relações sexuais sem proteção”, alertam Lúcia e Romeu.

Segundo os pesquisadores, as narrativas dos universitários são recheadas de elementos que sustentam o padrão de masculinidade hegemônico, mas também contêm indicadores de que esse padrão começa a sofrer abalos, com a progressiva valorização das relações afetivo-sexuais. “Ainda que não seja entendido como parte hegemônica ou ‘tradicional’ da identidade masculina, o desejo de fazer coincidir a experiência sentimental e a experiência sexual pode ser identificado nas narrativas dos sujeitos deste estudo”, ressaltam Lúcia e Romeu. “Reforçamos a importância de estratégias de promoção da saúde que encorajem os homens jovens a mostrarem seus sentimentos e a falarem de suas dúvidas e frustrações, sem a intenção de criarmos modelos de controle e/ou de comportamentos normatizados”.

A narrativa como matéria-prima

Ao optarem pelo estudo das narrativas, Lúcia e Romeu estavam interessados, especialmente, em revelar questões socioculturais e aspectos subjetivos relacionados à experiência de iniciação sexual. Na etapa de coleta de dados, não foi pedido aos participantes que preenchessem questionários nem respondessem a perguntas. Solicitou-se apenas que contassem sua experiência sexual, livremente, sem interrupções, a partir de uma metodologia própria da entrevista narrativa. Quando, de forma espontânea, a narrativa terminava, a pesquisadora iniciava uma conversa com o jovem, utilizando a mesma linguagem dele e procurando esclarecer alguns pontos da história.

À primeira vista, pode parecer uma metodologia de pesquisa fácil, mas não é. “Para o universo masculino, falar de si e de suas incertezas pode ser entendido como fraqueza ou ausência de masculinidade e, assim, mesmo que o jovem do século 21 seja visto como livre e bem informado, há muitas dúvidas e conflitos a serem desvelados quando o assunto é sexo”, afirmam Lúcia e Romeu no artigo da revista Ciência & Saúde Coletiva. Como prova dessa dificuldade que os homens têm para falar de suas experiências, destaca-se que alguns jovens não se sentiram à vontade para participar do estudo porque a pesquisadora era mulher e de outra geração. Para resolver o impasse, em algumas situações, Lúcia contou com um auxiliar de pesquisa homem e da mesma idade dos entrevistados.

Também para que os rapazes alvo do estudo se sentissem mais à vontade, eles puderam escolher o local da conversa e a maioria optou pela própria universidade. Ao todo, os pesquisadores ouviram nove universitários. “Não buscamos uma representatividade numérica e sim um aprofundamento da temática”, explicam Lúcia e Romeu. O fato de todos serem universitários – dos cursos de engenharia e serviço social – possibilitou o trabalho com um grupo que tem acesso à informação e uma visão mais reflexiva em relação à própria experiência de iniciação sexual.

Além de serem alunos de graduação, os participantes tinham outras características em comum: todos nasceram na década de 80, marcada pela emergência da Aids, e tiveram sua iniciação sexual nos anos 90, caracterizados pelo fenômeno global, virtual e digital. Todos ainda moravam com suas famílias de origem, no Rio de Janeiro, considerada capital de vanguarda para a liberação de costumes, a despeito das dificuldades em lidar com os novos desafios da sexualidade juvenil. “Seja como pais, educadores ou profissionais de saúde, de um modo geral, acreditamos que sabemos o que é bom para os jovens, o que eles precisam e o que eles desejam. Admitir que podemos aprender com eles e que não sabemos tudo sobre eles pode ser um caminho de mudança desta crença”, sugerem os pesquisadores.

Para ler o artigo em Ciência & Saúde Coletiva, clique aqui.

Publicado em 27/08/2009.

Matéria originalmente veiculada na Revista de Manguinhos/CCS/Fiocruz.

Ilustração de Rodrigo Carvalho.