AMBIENTE ACREANO: A palmeira 'bacaba' ou 'bacaba-de-caranaí' (Oenocarpus balickii Kahn) nativa do Acre
Google
Na Web No BLOG AMBIENTE ACREANO

terça-feira, março 23, 2010

A palmeira 'bacaba' ou 'bacaba-de-caranaí' (Oenocarpus balickii Kahn) nativa do Acre

Notas histórico-taxonômicas sobre a 'outra' bacaba acreana

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

A palmeira retratada nas fotos deste artigo, cientificamente conhecida como Oenocarpus balickii Kahn, é conhecida em Cruzeiro do Sul e regiões adjacentes como 'bacaba' ou 'bacaba-de-caranaí'.

Vale ressaltar que no Acre existe outra palmeira nativa, que ocorre em todo o Estado, também conhecida como bacaba. Seu nome científico é Oenocarpus mapora H. Karsten, e dos seus frutos é que se faz o 'vinho de bacaba'. É uma espécie muito comum, conhecida também como bacabinha, sendo inclusive cultivada como ornamental ou frutífera nas cidades acreanas.

A bacaba-de-caranaí, que considero de rara ocorrência no Acre, foi descrita cientificamente a partir de amostras botânicas coletadas em 1989 na estação de pesquisa peruana 'Jenaro Herrena' (Departamento de Loreto, Província de Requena, rio Ucayali) pelo cientista francês Francis Kahn.

A publicação da espécie foi feita na revista científica suiça Candollea (No.45) em 1990 [1].

Entretanto, seu nome científico, autoria e data de publicação poderiam ter sido outros, não fosse a personalidade forte e a visão taxonômica 'agregadora' (lumper) do primeiro pesquisador a encontrar indivíduos desta espécie no campo: Wessels Boer.

Wessels Boer (1936-?) foi um botânico holandês que atuou na América do Sul na década de 60, quando o Suriname ainda era uma colônia holandesa. Ele foi o primeiro estudioso a observar na prática que havia um 'excesso' de nomes científicos publicados para as palmeiras nativas das Américas. Ou seja, a diversidade real de palmeiras encontradas no campo era efetivamente inferior à quantidade de nomes científicos publicados.

Já na sua primeira obra sobre as palmeiras americanas, ('As palmeiras Indígenas do Suriname', 1965) [2], ele alertava que os gêneros Attalea (onde se incluem as conhecidas uricuri e jaci), Geonoma (ubim) e Bactris (os coquinhos marajás) eram 'intratáveis' e incompreensíveis se alguém tentasse estudá-las usando a literatura existente à época.

Corretamente, ele apontou que pesquisadores do passado, entre eles Martius (alemão), Barbosa Rodrigues (brasileiro), Liberty Bailey (americano) e principalmente Max Burret (alemão), haviam contribuído sobremaneira para a caótica situação da taxonomia das palmeiras da região.

Eram centenas de nomes na literatura que raramente podiam ser encontrados no campo. Muitas espécies haviam sido descritas com base em diferenças de tamanho, coloração de frutos, presença ou ausência de um ou outro tipo de indumento (pêlos, espinhos, etc).

A solução que Wessels Boer encontrou para resolver a questão do excesso de nomes foi, inicialmente, colocar como sinônimos de umas poucas espécies, dezenas de outros nomes de espécies cuja descrição publicada nas revistas e livros não permitia a identificação positiva de amostras botânicas enviadas para os herbários.

Para fazer essa junção (lumping) Wessels Boer consultou as amostras botânicas que haviam dado origem às novas espécies (material tipo) e, corretamente, preservou os nomes mais antigos.

Esse choque inicial deve ter tido profunda influência no resto da curta, mas influencial, carreira de Wessls Boer. Sua grande contribuição literária, a revisão do gênero Geonoma (1968) [3], é uma prova de tenacidade e dedicação poucas vezes vista na história da taxonomia das palmeiras americanas, considerando as condições de trabalho à época.

Por essa razão, quando ele decidiu se dedicar a descrever a flora de palmeiras da Venezuela, era de se esperar que muitas espécies novas que viesse eventualmente a encontrar durante seus trabalhos no campo fossem eventualmente classificadas no nível de variedade ou mesmo 'inseridas' dentro de espécies-complexos, ou seja, espécies muito variáveis.

E foi isso que aconteceu quando ele descobriu algumas palmeiras que tinham certa similaridade, mas não eram exatamente idênticas a qualquer uma das espécies do gênero Oenocarpus descritas até aquela época. Diante da situação, ele resolveu dar o nome Oenocarpus bacaba variedade parvus a sua nova descoberta.

Este nome foi inicialmente publicado em um artigo na revista Acta Botánica Venezuélica (1971) [4], como uma prévia para sua obra completa, 'Palmas Indigenas de Venezuela' [5], cujo manuscrito estava em fase final de elaboração.

A publicação da nova espécie - apenas o nome - sem a correspondente descrição botânica não validou o nome científico escolhido por Wessels Boer, o que só aconteceu em 1988, quando a revista Pittieria finalmente publicou um número especial dedicado ao manuscrito do botânico holandês.

A razão para a demora na publicação da obra se deu pelo fato de, em meados da década de 70, Wessels Boer ter abandonado por completo a botânica, ficando o manuscrito engavetado na Universidade de Mérida (Venezuela).

Ao final, imagina-se que a publicação saiu basicamente como estava no manuscrito original, pois as eventuais sugestões de mudanças feitas pelos revisores não puderam, obviamente, ser atendidas. Além disso, aquela era a primeira obra (até hoje única) a tratar de todas as palmeiras nativas da Venezuela.

Com a publicação da nova espécie de Wessels Boer no nível de variedade, taxonomicamente abriu-se a possibilidade de elevação da mesma ao nível de espécie já que, segundo as regras taxonômicas, um nome não tem prioridade fora do seu ranking.

Em outras palavras: a eventual transformação da Oenocarpus bacaba variedade parvus em espécie não implicaria na adoção do nome Oenocarpus parvus.

E isso efetivamente aconteceu em 1990, quando Francis Kahn publicou a espécie Oenocarpus balickii a partir de amostras que encontrou no Peru.

O nome 'Balickii' é uma homenagem ao grande pesquisador etnobotânico americano Michael J. Balick, que havia estudado Oenocarpus em sua dissertação de doutorado (1980) [6] e publicado um extenso trabalho sobre a sistemática do grupo em 1986 [7].

A bacaba-de-caranaí no Acre

Em território acreano, a bacaba-de-caranaí só tem sido encontrada no vale do Juruá, sempre em áreas de florestas primárias de terra firme - rara em áreas antropizadas -, ou em campinaranas, sobre solos muito arenosos.

As coletas botânicas da espécie feitas no Acre indicam que ela ocorre na região da Serra do Moa, cercanias de Mâncio Lima e de Cruzeiro do Sul. Nesta última, encontramos um indivíduo em um ramal conhecido como 'canela fina', praticamente dentro da cidade, em pequeno fragmento florestal onde contabilizamos quase 10 gêneros de palmeiras!

[As fotos aqui apresentadas foram feitas na altura do km 60 da BR-307, já em território amazonense, próximo do ramal para o rio Moa.]

No campo, a bacaba-de-caranaí pode ser diferenciada da bacabinha (Oenocarpus mapora) pelo seu hábito solitário, estipe mais robusto (maior diâmetro) e frutos menores. Do patauá (Oenocarpus bataua), ela difere pelo porte visivelmente inferior e as folhas com pinas (folíolos) irregulares e apontados em diferentes direções - em patauá as pinas são regularmente arranjadas ao longo da folha, formando um único plano.

É importante ressaltar que, sob o ponto de vista taxonômico, a bacaba de caranaí é muito mais aproximada da bacaba do amazonas (Oenocarpus bacaba) e da bacaba-de-leque (Oenocarpus distichus) - encontrada em Rondônia e no Brasil central0 - do que do patauá e da bacabinha nativos do Acre.

Além do Brasil (Acre, Amazonas e Rondônia), a bacaba-de-caranai ocorre no Peru, Colombia e Venezuela.

Referência bibliográficas citadas:

[1] Kahn, F. 1990. Las Palmeras del Arboretum Jenaro Herrera. Candollea 45 (1): 341-362.

[2] Wessels Boer, J. G. 1965. Flora of Suriname, vol. V, part. I. Palmae. E. Edited by J. Lanjouw. E. J. Brill, Leiden. 172 p.

[3] Wessels Boer, J. 1968. The geonomoid palms. Verh. Kon. Ned. Akad. Wetensch, Afd. Natuurk., Tweede Sect. ser 2, 58: 1-202.

[4] Wessels Boer, J. G. Clave descriptiva de las palmas Venezolanas. Acta Bot. Venez. 6:299-362. 1971.

[5] Wessels Boer, J. G. Palmas Indigenas de Venezuela. Pittieria 17: 1-332, 1988. Universidad de Los Andes-Merida-Venezuela.

[6] Balick, M.J. (1980b) The Biology and Economics of the Jessenia-Oenocarpus (Palmae) Complex, Ph.D. dissertation, Department of Biology, Harvard University, Cambridge.

[7] Balick, M. J. 1986. Systematics and Economic Botany of the Oenocarpus Jessenia (Palmae) Complex. Advances in Economic Botany 3. 140 pp.
Publicado por Evandro Ferreira 0 comentários Digg! Link Permanente Envie este artigo para um amigo

0 Comments:

Postar um comentário

Link permanente:

Criar um link

<< Home