QUAL O CUSTO FINANCEIRO DOS INCÊNDIOS NAS FLORESTAS ACREANAS? (*)
Evandro Ferreira
Campanharo, W.A., Lopes, A.P., Anderson, L.O., Silva, T.F.M.R. e Aragão, L.E.C. 2019. Fire Impacts in Southwestern Amazonia into Economic Costs. Remote Sensing, vol. 11, n° 7, p. 764, Disponível em: https://doi.org/10.3390/rs11070764
UNIDSR-United Nations Office for Disaster Risk Reduction. 2018. Sendai Framework for Disaster Risk Reduction 2015–2030. Sendai, Japan. Disponível em: https://www.unisdr.org/we/inform/publications/43291.
Blog Ambiente Acreano
A resposta para essa
pergunta foi dada na forma de um criterioso artigo publicado em uma revista
científica de alto nível no qual se indica de forma objetiva a extensão dos
prejuízos financeiros que a queima de milhares de hectares de florestas nativas
representa para a economia do Acre.
Abordando o período
compreendido entre os anos de 2008 e 2012, o artigo foi originalmente publicado
em inglês (“Translating Fire Impacts in
Southwestern Amazonia into Economic Costs = “Traduzido os impactos do fogo
no sudoeste da Amazônia em custos econômicos”) na revista Remote Sensing,
edição de março de 2019, e seus autores são pesquisadores brasileiros do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Universidade Federal do
ABC.
Segundo o artigo, de todos
os desastres ambientais ocorridos no planeta entre 1998 e 2017, cerca de 91%
estavam relacionados diretamente com o clima e geraram prejuízos de
aproximadamente 2,24 bilhões de dólares.
Na Amazônia, como todos
sabem, incêndios em florestas “em pé” são exceção e não a regra. Ao contrário
do Cerrado brasileiro e das Savanas africanas, paisagens naturais que evoluíram
na presença de incêndios periódicos ou episódicos e que dependem desses eventos
para manter seu equilíbrio ecológico, a ocorrência de incêndios em florestas
nativas na Amazônia invariavelmente pressupõe que os mesmos foram resultado da
ação humana.
O uso do fogo na Amazônia é
uma prática milenar, pretérita à chegada dos europeus. Mas seu uso foi
intensificado na medida em que a colonização da região aumentou a partir de
meados do século XIX. Na região, áreas florestais são derrubadas e queimadas
para a abertura de campos para cultivos agrícolas e criação de gado. A queima da
floresta derrubada melhora, ainda que temporariamente, a fertilidade dos solos.
A mudança climática global
em curso, entretanto, tem favorecido a ocorrência mais frequente de secas
severas no sudoeste da Amazônia – onde o Acre está inserido. Nos últimos 15
anos o Acre foi atingido por três eventos de secas extremas nos anos de 2005,
2010 e de 2016. Em todas essas ocasiões, grandes extensões de florestas nativas
foram atingidas por incêndios florestais cujos focos primários originaram-se em
áreas antropizadas adjacentes: pastagens e cultivos agrícolas.
O pesquisador Irwing Foster
Brown, do Woods Hole Research Center e do Parque Zoobotânico da UFAC, publicou
um artigo estimando que na seca de 2005 mais de 400 mil pessoas foram afetadas
pela poluição decorrente dos incêndios ocorridos. Mais de 300 mil hectares de
florestas nativas foram queimadas e os custos econômicos diretos atingiram
cerca de 50 milhões de dólares. A soma global dos prejuízos econômicos, sociais
e ambientais ultrapassou os 100 milhões de dólares.
Uma das consequências do
“desastre” ocorrido durante a seca de 2005, no qual o governo do Estado mostrou
estar completamente despreparado, foi a criação de mecanismos de alerta
(monitoramento climático e hidrológico) e o estabelecimento de políticas
públicas voltadas para diminuir o desmatamento e os riscos de incêndios
florestais, mesmo em anos sem secas severas.
É importante ressaltar,
entretanto, que a criação e a implementação dessas estruturas e políticas foi
feita sem que dados mais detalhados sobre os reais custos sociais, ambientais e
econômicos decorrentes da referida seca estivessem disponíveis.
A produção desses dados é
um desafio em nível global. Um relatório do escritório das Nações Unidades para
a Redução dos Riscos de Desastres (UNISDR) mostrou que somente 37% dos
desastres ocorridos entre 1998 e 2017 tiveram a estimativa dos seus custos
econômicos revelados. Os custos que os demais desastres representaram não são
conhecidos ou foram mal documentados.
O estudo dos pesquisadores
do INPE e da Universidade do ABC citado acima revelou que durante secas severas
no Acre, o incremento da quantidade de incêndios – quando comparados com os
anos sem secas – aumenta em até 15 vezes os custos estimados dos danos em
infraestruturas, perda de produção agrícola, emissão de CO2 e morbidade por
doenças respiratórios. Em percentual, o prejuízo causados por secas severas à
economia do Acre é estimado em 7,03 ± 2,45% do Produto Interno Bruto do estado.
O estudo mostrou ainda que
nos anos analisados (2008-2012) mais de 2.577 km² foram queimados no Acre, dos
quais cerca de 12% queimaram mais de uma vez. As queimadas se concentraram nas
proximidades de centros urbanos (Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Sena Madureira,
Tarauacá, Feijó e Brasiléia), de estradas (BR-364, BR-317, AC-040 e AC-075) e
rios (Iaco, Muru, Acre e Envira).
A ocorrência do fogo foi
majoritariamente em áreas privadas (98,8%). Nos anos sem seca severa as
pastagens representaram 63,5% de toda a área queimada, enquanto as áreas
florestais representaram apenas 29,7%. Durante a seca ocorrida em 2010,
entretanto, a situação se inverteu e as florestas representaram 54,5% de todas
as áreas queimadas no Estado, com o percentual das pastagens caindo para 42,2%.
Nesse ano, a área de florestas afetadas por incêndios foi aproximadamente 16
vezes maior quando comparado com os anos sem a ocorrência de secas.
Sob o aspecto econômico, as
perdas decorrentes da seca de 2010 no Acre foram calculadas pelos autores como
equivalentes a 243,35 ± 85,05 milhões de dólares. Para todo o período do estudo
(2008-2012) as perdas foram estimadas em 307,46 ± 85,41 milhões de dólares.
Isso representou 7,03 ± 2,45% e 9.07 ± 2,46% do Produto Interno Bruto do Acre,
respectivamente.
Os resultados do estudo
mostram que as perdas decorrentes da ocorrência de secas severas no Acre podem
ser imensas. No atual contexto, onde ações de fiscalização e controle do
desmatamento e de outros delitos ambientais estão sendo desacreditadas e
desautorizadas, a eventual ocorrência de uma nova seca severa no Acre poderá
ter resultados desastrosos. Caberá, portanto, ao Governo Estadual, o papel de
liderar a execução das ações de combate aos delitos ambientais e fortalecer as
políticas públicas para minorar os efeitos danosos desses eventos
climáticos.
Para saber mais:
Brown, I.F., Schroeder, W.,
Setzer, A., Maldonado, M.D.L.R., Pantoja, N., Duarte, A., Marengo, J. 2006. Monitoring fires in southwestern Amazonia Rain Forests. Eos Trans. AGU,
vol. 87, p. 253. Disponível em: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1029/2006EO260001
Campanharo, W.A., Lopes, A.P., Anderson, L.O., Silva, T.F.M.R. e Aragão, L.E.C. 2019. Fire Impacts in Southwestern Amazonia into Economic Costs. Remote Sensing, vol. 11, n° 7, p. 764, Disponível em: https://doi.org/10.3390/rs11070764
UNIDSR-United Nations Office for Disaster Risk Reduction. 2018. Sendai Framework for Disaster Risk Reduction 2015–2030. Sendai, Japan. Disponível em: https://www.unisdr.org/we/inform/publications/43291.
(*) Artigo publicado no jornal
A Gazeta, Rio Branco, Acre, 16/06/2020.
Crédito da imagem: Dr. Foster Brown (WHRC/PZ-UFAC)
Crédito da imagem: Dr. Foster Brown (WHRC/PZ-UFAC)




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