Google
Na Web No BLOG AMBIENTE ACREANO

08 abril 2008

BEXIGA HIPERATIVA

Dissertação enfoca a síndrome da bexiga hipertativa, que atinge mais mulheres

Antonio Brotas
Agência Fiocruz de Notícias

Levantar várias vezes à noite para ir ao banheiro. Ter que sair às pressas de uma reunião porque não se consegue segurar a vontade de urinar ou perder urina involuntariamente, deixando de ter a capacidade de controle da micção, é um problema para um número bastante elevado de brasileiros, que apresentam estes sintomas mesmo na ausência de infecções ou outras patologias.

Pesquisa feita pela Fiocruz Bahia identificou que 10% das mulheres e 5% dos homens de Salvador sofrem de bexiga hiperativa (BH), um problema de saúde que atinge entre 50 e 100 milhões de indivíduos em todo o mundo.

O trabalho é fruto da dissertação de Raimundo Celestino Silva Neves, primeiro estudante a graduar-se no Programa de Mestrado da Pós-graduação de Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa, e integra o projeto Prevalência e grau de desconforto de bexiga hiperativa numa área urbana no Brasil, coordenado por Edson Duarte, pesquisador da Fiocruz-BA.

Desenvolvido a partir de entrevista com 3 mil pessoas em diversos bairros da capital baiana, o estudo, além de indicar que a prevalência entre as mulheres é duas vezes maior do que entre os homens, também identificou o nível de incômodo derivado do problema.

A urgência urinária, que corresponde a uma vontade incontrolável de urinar, surgida de repente e de difícil controle, também apontada como sintoma principal de BH, é um problema para 8,2% das mulheres, sendo que 46% delas têm também incontinência. Para os homens, o problema é apontado por uma parcela bem menor (4%) e destes apenas 28% têm incontinência. “As mulheres relataram mais incômodo que os homens em todos os sintomas avaliados”, destaca Neves. “Gotejamento pós-micção, apesar de ser mais freqüente em homens, incomoda muito mais as mulheres.”, diz.

O estudo, o primeiro no Brasil a ser realizado com base populacional, traz outros resultados distintos em função do gênero. Entre as mulheres, a nictúria, ou seja, vontade de levantar à noite para ir ao banheiro, atinge 71% das pacientes com BH, enquanto entre os homens este percentual é de 64%. A nictúria foi o sintoma mais relatado, com aproximadamente 2/3 dos indivíduos do estudo apresentando essa manifestação clínica. Apesar disso, ele aparece como um dos menos incomodativos.

Possíveis fatores de risco

A avaliação dos possíveis fatores de risco também foi medida. A literatura sobre a síndrome já apontava que a BH provoca impactos consideráveis na qualidade de vida das pessoas. Depressão e ansiedade, alterações na qualidade do sono, impactos negativos na vida profissional, social e sexual são algumas das conseqüências da síndrome.

Em relação à ansiedade, por exemplo, há uma maior freqüência de alterações entre as mulheres, principalmente as que possuem urgência miccional, apresentando ansiedade grave aproximadamente três vezes maior do que as mulheres sem esse sintoma. A depressão também pode ser verificada. Este sintoma, num grau moderado ou grave, é três vezes maior entre os que possuem urgência urinária, no caso dos homens. Nas mulheres, o índice é quatro vezes maior, perfazendo um total de 22%.

O tabagismo aparece como outro possível fator de risco associado. A prevalência, em comparação aos não fumantes, é três vezes maior entre os homens e um pouco mais que o dobro entre as mulheres. A relação com o parto também foi avaliada. A indicação é de que a BH é 2,3 vezes maior entre as mulheres que tiveram apenas parto normal em comparação às que nunca pariram.

Baixa procura por ajuda médica

Um dado também chamou atenção dos pesquisadores: embora a BH seja mais comum entre as mulheres, elas procuram mais ajuda dos profissionais de saúde do que eles. O índice daqueles que não procuram ajuda chega a 42,4% entre os homens, enquanto entre as mulheres é de 14,8%. “Muitos preferem falar com amigos, a parceira ou outro membro da família”, destaca Neves. Há, na realidade, aqueles que acreditavam não ser um problema sério e que deveriam melhorar naturalmente com o tempo. Outros imputam a culpa à falta de um médico regular ou até mesmo por não se sentir à vontade ao falar do problema com ele.

O trabalho é baseado na definição de BH de acordo com a Sociedade Internacional de Continência (SIC), que incorpora a perspectiva do paciente nas definições de urgência e freqüência. Desse modo, o termo BH caracteriza a síndrome sem necessidade de exames de urodinâmica, sendo diagnosticada clinicamente. Alguns estudos apontam disfunções do sistema nervoso e no músculo da bexiga como principais causas da síndrome. No que diz respeito às causas neurológicas, traumatismo craniano, tumores, acidente vascular cerebral e doenças como Alzheimer e esclerose múltipla, Parkinson e HAM/TSP para HTLV-1 são fatores que podem provocar sintomas de BH.

Composto de vários elementos em sua estrutura, como o colágeno, elastina, músculo detrusor e nervos, a bexiga é muito sensível, podendo qualquer alteração provocar BH. Outra causa seria a obstrução do colo vesical, da uretra e do esfíncter uretral, ou seja, das vias de saída, que promoveriam a hipertrofia do músculo detrusor, a redução da função contrátil e da atividade elétrica espontânea. O tratamento vai da simples educação dos pacientes sobre o funcionamento do trato urinário, bem como a mudança na ingestão de líquidos, ao uso de medicamentos e de intervenções cirúrgicas.

Ilustração: Rodrigo Carvalho