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sexta-feira, março 26, 2010

EUCLIDES DA CUNHA NO ACRE

O capítulo acreano na vida de Euclides da Cunha

“Alimento, há dias, o sonho de uma viagem ao Acre”
Euclides da Cunha
em carta a Luiz Cruls, em 1903.

Isaac Melo
Editor do Blog 'Alma Acreana'

Em dezembro de 1904, em plena selva amazônica, iniciava-se uma expedição não menos digna de uma epopeia. A frente dela estava o prosador de Os Sertões, a comandar a Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, numa viagem que se estendeu até novembro de 1905. O olhar aguçado, a pena pertinaz e a visão plenamente humana de Euclides da Cunha resultariam numa das páginas mais abrilhantadas das letras amazônicas, que até hoje impressiona pela sagacidade e força telúrica.

A assinatura do Tratado de Petrópolis, em novembro de 1903, põe fim, em parte, o conflito que se estendera desde 1898 pela posse das terras então ocupadas por brasileiros, o Acre, restabelecendo assim a paz entre os seringueiros acreanos e os bolivianos. Todavia, um outro impasse surgia. O governo do Peru reivindicava grandes áreas no Alto Purus e Alto Juruá, inclusive estimulava a ocupação do território, mesmo que tardiamente.

Depois de discussões diplomáticas entre esses países resolveu-se criar uma comissão mista que iria percorrer todo o Purus para reconhecimento da região e a partir daí delimitar as respectivas fronteiras. O governo brasileiro, por meio do Barão de Rio Branco, nomeou Euclides da Cunha para integrar e chefiar a comissão; por sua vez, o governo peruano nomeou Pedro Buenaño, um sujeito não muito cortês com os brasileiros e que passou toda a viagem a provocar Euclides. Ao todo integravam a Comissão 14 brasileiros (ao término 9 apenas) e aproximadamente 21 peruanos.

Os ardis do caminho fizeram da expedição uma espécie de epopeia moderna. Além de suportar as provocações de Buenaño que se faziam constantes, Euclides e sua equipe enfrentaram um naufrágio, fez grande parte da viagem doente, tiveram que arrastar dias por dias as ubás com as quais tiveram que transpor mais de 74 cachoeiras, e por fim, dias de caminhada mata adentro. Soma-se a isso, o iminente perigo de a qualquer momento ser atacados por índios que habitavam aquela região.

A expedição se saíra perfeitamente bem. Sobretudo, graças aos esforços e inteligência de seu chefe. Como resultado, o Departamento do Alto Acre não sofreu diminuição alguma, os do Alto Purus e Alto Juruá perderam apenas as zonas meridionais, sem prejuízo nenhum para o Acre, uma vez que nunca, de fato, ocupou essas áreas.

Pode-se dizer que o mais interessante em uma viagem não é a partida nem a chegada, mas o seu ínterim. Durante a expedição Euclides absorveu-se à paisagem, para produzir as páginas talvez mais sugestivas e originais que se tenha escrito sobre a Amazônia, como assinala Leandro Tocantins. Seus olhos arregalados contemplam e entendem melhor a paisagem que se vai desenrolando como se fosse uma gigantesca tela de cinema operado em câmera lenta.

Tantos exploradores e cientistas já haviam galgado aquelas paragens, mas só ele, nas palavras de Tocantins, podia ver e interpretar aqueles furos, aquela flora, aqueles rios, aquelas ilhas, aquelas águas, aqueles lagos, de forma até então desconhecida na Literatura. Ele via e pressentia coisas fora da órbita do homem comum.

Ao olhar para o homem que ali se instalou, Euclides diz que este “é ainda um intruso impertinente” numa selva em que desaparecem as formas topográficas mais associadas à existência humana. Todavia, esse inferno verde que parecia para sempre impenetrável, ver insurgir em seu seio uma sociedade de caboclos titânicos no desejo “civilizador” de constância e continuidade da cultura. As gentes que a povoam, assinala Euclides, talham-se-lhe pela braveza. Não a cultivam, aformoseando-a: domam-na.

E, numa visão de homem que está além do seu tempo e de sua cultura, afirma que os sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma das maiores empresas destes tempos. Estão amansando o deserto. Ali, diz ele, se cria uma nova sorte de exilados (o exilado que pede exílio). E denuncia o sistema de escravidão que se implantara: o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se. E verifica-se que não é o clima que é mau, é o homem, pois ali ele criou a mais imperfeita organização do trabalho que foi capaz o egoísmo humano.

Para Euclides, o povoamento do Acre foi um caso histórico inteiramente fortuito, fora da diretriz do nosso progresso, em que faltou desde o princípio acompanhar não só a marcha lenta e progressiva das migrações seguras, como os mais ordinários resguardos administrativos. E responsabiliza o Governo Federal, cuja única preocupação dos poderes públicos consistia em libertá-las quanto antes daquelas invasões de bárbaros moribundos que infestavam o Brasil, isto é, livrar dos grandes e importantes centros urbanos os flagelados das secas. E para isso, abarrotavam-se, às carreiras, os vapores, com aqueles fardos agitantes consignados à morte para a Amazônia.

Todavia, aqueles que haviam sido expatriados dentro da própria pátria com a missão dolorossíma e única de desaparecerem, não desapareceram. Ao contrário, acentua Euclides, em menos de trinta anos, o Estado que era uma vaga expressão geográfica, um deserto empantanado, a estirar-se, sem lindes, para o sudoeste, definiu-se de chofre, avantajando-se aos primeiros pontos do nosso desenvolvimento econômico.

Segundo Euclides, realizou-se no Acre a chamada “seleção telúrica”, isto é, a selva só concedeu o direito da existência aos que lhe afeiçoaram. Isso cheira a darwinismo e com razão. Em todas as latitudes, acentua ele, foi sempre gravíssima nos seus primórdios, a afinidade eletiva entre terra e o homem. Por isso, a cada deslize fisiológico ou moral antepõe-se o corretivo da reação física: a eliminação generalizada dos incompetentes.

Por fim, Euclides se volta para o ser humano que para ali se trasladou: os homens são admiráveis. Vimo-los de perto, conversamo-los. Guardamos-lhes os nomes e apelidos bizarros. O clima aí exerceu uma função superior na formação desse homem, pois exercitou uma fiscalização incorrutível, libertando o território de calamidades e desmandos, que seriam muito maiores e piores do que aqueles que por lá ainda se fizeram sentir por muitos anos. Esse clima, diz Euclides, eliminou e elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte. E arremata, e é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons.

Legendas das Fotografias (conforme dispostas ao longo do texto)

1. Euclides num grupo a caminho do Alto Purus com dedicatória aos familiares, 1905

2. Flotilha da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.

3. Batelão Manoel Urbano antes de afundar (com nota de Euclides da Cunha). Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.

4. Euclides saltando de uma canoa, com a cabeça protegida dos piuns por um capuz improvisado, 1905. Reprod. de Leandro Tocantins, Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido, Rio de Janeiro, Record, 1968.

5. Euclides em banquete com os peruanos, oferecido na casa comercial de C. Sharf. Curanja, [03 jul. 1905]. Euclides está sentado ao lado do chefe da comissão peruana, Pedro Alejandro Buenaño, que está na cabeceira da mesa. A data, 03. jul. 1905, foi extraída de um trecho não oficial do relatório, escrito pelo próprio Euclides. Entretanto, no “Diário da Marcha”, escrito sob a sua supervisão, está registrada a data de 30 de junho de 1905, tendo o almoço sido servido às 11 horas. O escrevente do “Diário” tinha liberdade de expressão, mas Euclides corrigia alguns deslizes à margem]. Reprod. de Leandro Tocantins, Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido. Rio de Janeiro: Record, 1968. Acervo da Mapoteca do Itamaraty.

6. Barracão Liberdade, no Alto Purus. Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.


Fonte das imagens: site Euclides das Cunha. O site é excelente, completo!

Referências para aprofundar:


Cunha, Euclides da. À Margem da História. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Tocantins, Leandro. Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
Publicado por Evandro Ferreira 1 comentários Digg! Link Permanente Envie este artigo para um amigo

1 Comments:

Anonymous Juan Carlos said...

Olá, Isaac! Obrigado pelo link e pelo elogio. O seu blog tem bastante conteúdo. Parabéns!

11:32  

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