EUCLIDES DA CUNHA NO ACRE
O capítulo acreano na vida de Euclides da Cunha
Isaac Melo
Editor do Blog 'Alma Acreana'
Em dezembro de 1904, em plena selva amazônica, iniciava-se uma expedição não menos digna de uma epopeia. A frente dela estava o prosador de Os Sertões, a comandar a Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, numa viagem que se estendeu até novembro de 1905. O olhar aguçado, a pena pertinaz e a visão plenamente humana de Euclides da Cunha resultariam numa das páginas mais abrilhantadas das letras amazônicas, que até hoje impressiona pela sagacidade e força telúrica.
A assinatura do Tratado de Petrópolis, em novembro de 1903, põe fim, em parte, o conflito que se estendera desde 1898 pela posse das terras então ocupadas por brasileiros, o Acre, restabelecendo assim a paz entre os seringueiros acreanos e os bolivianos. Todavia, um outro impasse surgia. O governo do Peru reivindicava grandes áreas no Alto Purus e Alto Juruá, inclusive estimulava a ocupação do território, mesmo que tardiamente.
Depois de discussões diplomáticas entre esses países resolveu-se criar uma comissão mista que iria percorrer todo o Purus para reconhecimento da região e a partir daí delimitar as respectivas fronteiras. O governo brasileiro, por meio do Barão de Rio Branco, nomeou Euclides da Cunha
para integrar e chefiar a comissão; por sua vez, o governo peruano nomeou Pedro Buenaño, um sujeito não muito cortês com os brasileiros e que passou toda a viagem a provocar Euclides. Ao todo integravam a Comissão 14 brasileiros (ao término 9 apenas) e aproximadamente 21 peruanos.
Os ardis do caminho fizeram da expedição uma espécie de epopeia moderna. Além de suportar as provocações de Buenaño que se faziam constantes, Euclides e sua equipe enfrentaram um naufrágio, fez grande parte da viagem doente, tiveram que arrastar dias por dias as ubás com as quais tiveram que transpor mais de 74 cachoeiras, e por fim, dias de caminhada mata adentro. Soma-se a isso, o iminente perigo de a qualquer momento ser atacados por índios que habitavam aquela região.
A expedição se saíra perfeitamente bem. Sobretudo, graças aos esforços e inteligência de seu chefe. Como resultado, o Departamento do Alto Acre não sofreu diminuição alguma, os do Alto Purus e Alto Juruá perderam apenas as zonas meridionais, sem prejuízo nenhum para o Acre, uma vez que nunca, de fato, ocupou essas áreas.
Pode-se dizer que o mais interessante em uma viagem não é a partida nem a chegada, mas o seu ínterim. Durante a expedição Euclides absorveu-se à paisagem, para produzir as páginas talvez mais sugestivas e originais que se tenha escrito sobre a Amazônia, como assinala Leandro Tocantins. Seus olhos arregalados contemplam e entendem melhor a paisagem que se vai desenrolando como se fosse uma gigantesca tela de cinema operado em câmera lenta.
Tantos exploradores e cientistas já haviam galgado aquelas paragens, mas só ele, nas palavras de Tocantins, podia ver e interpretar aqueles furos, aquela flora, aqueles rios, aquelas ilhas, aquelas águas, aqueles lagos, de forma até então desconhecida na Literatura. Ele via e pressentia coisas fora da órbita do homem comum.
Ao olhar para o homem que ali se instalou, Euclides diz que este “é ainda um intruso impertinente” numa selva em que desaparecem as formas topográficas mais associadas à existência humana. Todavia, esse inferno verde que parecia para
sempre impenetrável, ver insurgir em seu seio uma sociedade de caboclos titânicos no desejo “civilizador” de constância e continuidade da cultura. As gentes que a povoam, assinala Euclides, talham-se-lhe pela braveza. Não a cultivam, aformoseando-a: domam-na.
E, numa visão de homem que está além do seu tempo e de sua cultura, afirma que os sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma das maiores empresas destes tempos. Estão amansando o deserto. Ali, diz ele, se cria uma nova sorte de exilados (o exilado que pede exílio). E denuncia o sistema de escravidão que se implantara: o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se. E verifica-se que não é o clima que é mau, é o homem, pois ali ele criou a mais imperfeita organização do trabalho que foi capaz o egoísmo humano.
Para Euclides, o povoamento do Acre foi um caso histórico inteiramente fortuito, fora da diretriz do nosso progresso, em que faltou desde o princípio acompanhar não só a marcha lenta e progressiva das migrações seguras, como os mais ordinários resguardos
administrativos. E responsabiliza o Governo Federal, cuja única preocupação dos poderes públicos consistia em libertá-las quanto antes daquelas invasões de bárbaros moribundos que infestavam o Brasil, isto é, livrar dos grandes e importantes centros urbanos os flagelados das secas. E para isso, abarrotavam-se, às carreiras, os vapores, com aqueles fardos agitantes consignados à morte para a Amazônia.
Todavia, aqueles que haviam sido expatriados dentro da própria pátria com a missão dolorossíma e única de desaparecerem, não desapareceram. Ao contrário, acentua Euclides, em menos de trinta anos, o Estado que era uma vaga expressão geográfica, um deserto empantanado, a estirar-se, sem lindes, para o sudoeste, definiu-se de chofre, avantajando-se aos primeiros pontos do nosso desenvolvimento econômico.
Segundo Euclides, realizou-se no Acre a chamada “seleção telúrica”, isto é, a selva só concedeu o direito da existência aos que lhe afeiçoaram. Isso cheira a darwinismo e com razão. Em todas as latitudes, acentua ele, foi sempre gravíssima nos seus primórdios, a afinidade eletiva entre terra e o homem. Por isso, a cada deslize fisiológico ou moral antepõe-se o
corretivo da reação física: a eliminação generalizada dos incompetentes.
Por fim, Euclides se volta para o ser humano que para ali se trasladou: os homens são admiráveis. Vimo-los de perto, conversamo-los. Guardamos-lhes os nomes e apelidos bizarros. O clima aí exerceu uma função superior na formação desse homem, pois exercitou uma fiscalização incorrutível, libertando o território de calamidades e desmandos, que seriam muito maiores e piores do que aqueles que por lá ainda se fizeram sentir por muitos anos. Esse clima, diz Euclides, eliminou e elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte. E arremata, e é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons.
Legendas das Fotografias (conforme dispostas ao longo do texto)
1. Euclides num grupo a caminho do Alto Purus com dedicatória aos familiares, 1905
2. Flotilha da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
3. Batelão Manoel Urbano antes de afundar (com nota de Euclides da Cunha). Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
4. Euclides saltando de uma canoa, com a cabeça protegida dos piuns por um capuz improvisado, 1905. Reprod. de Leandro Tocantins, Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido, Rio de Janeiro, Record, 1968.
5. Euclides em banquete com os peruanos, oferecido na casa comercial de C. Sharf. Curanja, [03 jul. 1905]. Euclides está sentado ao lado do chefe da comissão peruana, Pedro Alejandro Buenaño, que está na cabeceira da mesa. A data, 03. jul. 1905, foi extraída de um trecho não oficial do relatório, escrito pelo próprio Euclides. Entretanto, no “Diário da Marcha”, escrito sob a sua supervisão, está registrada a data de 30 de junho de 1905, tendo o almoço sido servido às 11 horas. O escrevente do “Diário” tinha liberdade de expressão, mas Euclides corrigia alguns deslizes à margem]. Reprod. de Leandro Tocantins, Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido. Rio de Janeiro: Record, 1968. Acervo da Mapoteca do Itamaraty.
6. Barracão Liberdade, no Alto Purus. Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
Fonte das imagens: site Euclides das Cunha. O site é excelente, completo!
Referências para aprofundar:
Cunha, Euclides da. À Margem da História. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
Tocantins, Leandro. Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
“Alimento, há dias, o sonho de uma viagem ao Acre”
Euclides da Cunha
em carta a Luiz Cruls, em 1903.
Euclides da Cunha
em carta a Luiz Cruls, em 1903.
Isaac Melo
Editor do Blog 'Alma Acreana'

A assinatura do Tratado de Petrópolis, em novembro de 1903, põe fim, em parte, o conflito que se estendera desde 1898 pela posse das terras então ocupadas por brasileiros, o Acre, restabelecendo assim a paz entre os seringueiros acreanos e os bolivianos. Todavia, um outro impasse surgia. O governo do Peru reivindicava grandes áreas no Alto Purus e Alto Juruá, inclusive estimulava a ocupação do território, mesmo que tardiamente.
Depois de discussões diplomáticas entre esses países resolveu-se criar uma comissão mista que iria percorrer todo o Purus para reconhecimento da região e a partir daí delimitar as respectivas fronteiras. O governo brasileiro, por meio do Barão de Rio Branco, nomeou Euclides da Cunha

Os ardis do caminho fizeram da expedição uma espécie de epopeia moderna. Além de suportar as provocações de Buenaño que se faziam constantes, Euclides e sua equipe enfrentaram um naufrágio, fez grande parte da viagem doente, tiveram que arrastar dias por dias as ubás com as quais tiveram que transpor mais de 74 cachoeiras, e por fim, dias de caminhada mata adentro. Soma-se a isso, o iminente perigo de a qualquer momento ser atacados por índios que habitavam aquela região.
A expedição se saíra perfeitamente bem. Sobretudo, graças aos esforços e inteligência de seu chefe. Como resultado, o Departamento do Alto Acre não sofreu diminuição alguma, os do Alto Purus e Alto Juruá perderam apenas as zonas meridionais, sem prejuízo nenhum para o Acre, uma vez que nunca, de fato, ocupou essas áreas.

Tantos exploradores e cientistas já haviam galgado aquelas paragens, mas só ele, nas palavras de Tocantins, podia ver e interpretar aqueles furos, aquela flora, aqueles rios, aquelas ilhas, aquelas águas, aqueles lagos, de forma até então desconhecida na Literatura. Ele via e pressentia coisas fora da órbita do homem comum.
Ao olhar para o homem que ali se instalou, Euclides diz que este “é ainda um intruso impertinente” numa selva em que desaparecem as formas topográficas mais associadas à existência humana. Todavia, esse inferno verde que parecia para

E, numa visão de homem que está além do seu tempo e de sua cultura, afirma que os sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma das maiores empresas destes tempos. Estão amansando o deserto. Ali, diz ele, se cria uma nova sorte de exilados (o exilado que pede exílio). E denuncia o sistema de escravidão que se implantara: o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se. E verifica-se que não é o clima que é mau, é o homem, pois ali ele criou a mais imperfeita organização do trabalho que foi capaz o egoísmo humano.
Para Euclides, o povoamento do Acre foi um caso histórico inteiramente fortuito, fora da diretriz do nosso progresso, em que faltou desde o princípio acompanhar não só a marcha lenta e progressiva das migrações seguras, como os mais ordinários resguardos

Todavia, aqueles que haviam sido expatriados dentro da própria pátria com a missão dolorossíma e única de desaparecerem, não desapareceram. Ao contrário, acentua Euclides, em menos de trinta anos, o Estado que era uma vaga expressão geográfica, um deserto empantanado, a estirar-se, sem lindes, para o sudoeste, definiu-se de chofre, avantajando-se aos primeiros pontos do nosso desenvolvimento econômico.
Segundo Euclides, realizou-se no Acre a chamada “seleção telúrica”, isto é, a selva só concedeu o direito da existência aos que lhe afeiçoaram. Isso cheira a darwinismo e com razão. Em todas as latitudes, acentua ele, foi sempre gravíssima nos seus primórdios, a afinidade eletiva entre terra e o homem. Por isso, a cada deslize fisiológico ou moral antepõe-se o

Por fim, Euclides se volta para o ser humano que para ali se trasladou: os homens são admiráveis. Vimo-los de perto, conversamo-los. Guardamos-lhes os nomes e apelidos bizarros. O clima aí exerceu uma função superior na formação desse homem, pois exercitou uma fiscalização incorrutível, libertando o território de calamidades e desmandos, que seriam muito maiores e piores do que aqueles que por lá ainda se fizeram sentir por muitos anos. Esse clima, diz Euclides, eliminou e elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte. E arremata, e é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons.
Legendas das Fotografias (conforme dispostas ao longo do texto)
1. Euclides num grupo a caminho do Alto Purus com dedicatória aos familiares, 1905
2. Flotilha da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
3. Batelão Manoel Urbano antes de afundar (com nota de Euclides da Cunha). Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
4. Euclides saltando de uma canoa, com a cabeça protegida dos piuns por um capuz improvisado, 1905. Reprod. de Leandro Tocantins, Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido, Rio de Janeiro, Record, 1968.
5. Euclides em banquete com os peruanos, oferecido na casa comercial de C. Sharf. Curanja, [03 jul. 1905]. Euclides está sentado ao lado do chefe da comissão peruana, Pedro Alejandro Buenaño, que está na cabeceira da mesa. A data, 03. jul. 1905, foi extraída de um trecho não oficial do relatório, escrito pelo próprio Euclides. Entretanto, no “Diário da Marcha”, escrito sob a sua supervisão, está registrada a data de 30 de junho de 1905, tendo o almoço sido servido às 11 horas. O escrevente do “Diário” tinha liberdade de expressão, mas Euclides corrigia alguns deslizes à margem]. Reprod. de Leandro Tocantins, Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido. Rio de Janeiro: Record, 1968. Acervo da Mapoteca do Itamaraty.
6. Barracão Liberdade, no Alto Purus. Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
Fonte das imagens: site Euclides das Cunha. O site é excelente, completo!
Referências para aprofundar:
Cunha, Euclides da. À Margem da História. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
Tocantins, Leandro. Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
1 Comments:
Olá, Isaac! Obrigado pelo link e pelo elogio. O seu blog tem bastante conteúdo. Parabéns!
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