AMBIENTE ACREANO: AS TIPOLOGIAS VEGETAIS DO PARQUE ESTADUAL CHANDLESS, ACRE, BRASIL
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quinta-feira, janeiro 27, 2011

AS TIPOLOGIAS VEGETAIS DO PARQUE ESTADUAL CHANDLESS, ACRE, BRASIL

Estudo no Parque Estadual Chandless revelou a ocorrência de duas tipologias florestais inéditas para o Acre: as 'queimadas' e a floresta tropical caducifólia. Ambas tipologias não estão contempladas no Zoneamento Ecológico e Econômico do Acre.

Avaliação Ecológica Rápida da Vegetação do Parque Estadual Chandless (*)

Evandro José Linhares Ferreira (Responsável Técnico)
Antonio José Barreto dos Santos (Auxiliar Técnico – parataxonomista)


Parte 1

1. INTRODUÇÃO

As duas campanhas de campo da Avaliação Ecológica Rápida (AER) do Parque Estadual (PE) Chandless foram realizadas em fevereiro e agosto de 2008.

O aspecto técnico-científico mais importante do relatório é a constatação de que as tipologias florestais predominantes na UC não podem ser classificadas integralmente conforme ACRE (2000; 2006), que sugere a ocorrência, naquela região do Estado, das tipologias: Floresta Aberta com Bambu + Floresta Aberta com Palmeira, Floresta Aberta com Palmeira + Floresta Aberta com Bambu, Floresta Aberta com Bambu dominante e Floresta Aberta com Bambu em áreas aluviais (Figura 1).

FIGURA 1 - Mapa de vegetação do Estado do Acre (Fonte: Acre, 2000)

O trabalho de campo realizado durante a AER confirmou a ocorrência de apenas uma das formações sugeridas acima: a Floresta Aberta com Bambu em áreas aluviais. Duas novas formações estão confirmadas na área do Parque ou sua adjacência. Uma pequena mancha de Floresta Ombrófila Densa, no limite da UC com o Projeto de Assentamento (PA) no município de Santa Rosa e um tipo de floresta estacional não registrada anteriormente para o Acre.

Esta descoberta só foi possível porque durante a segunda campanha de campo, que coincidiu com a época seca, se observou que as florestas da unidade classificadas como Ombrófilas Abertas, sensu Veloso et alii (1974), apresentam um comportamento caducifólio de seu componente dominante, o dossel, em função do período seco superior a 4 meses que predomina naquela região do Estado.

Por essa razão, e considerando ainda que o percentual de árvores caducifólias observadas no estrato dominante das florestas das áreas de terra firme do Parque era superior a 50% dos indivíduos e que ele se encontra em uma região com duas estações climáticas (chuva e seca) bem demarcadas, a classificação mais apropriada para as formações florestais mais extensas e significativas da unidade é ‘Floresta Tropical Caducifólia’ sensu lato, considerando as proposições contidas no sistema de classificação da vegetação brasileira (IBGE, 1992).

As Florestas Caducifólias do PE Chandless são facilmente observadas em sobrevôos durante o período mais seco do ano e estão ilustradas na Figura 2, tomada em agosto de 2008 na parte sudoeste da UC. Nela é possível ver claramente que a maioria das árvores de grande porte, integrantes do dossel da floresta, se encontra sem folhas ou com folhas novas, indicando que passaram por processo recente de perda foliar.

FIGURA 2 - Imagem aérea da Floresta Tropical Caducifólia que predomina nas áreas de terra firme do PE Chandless (Foto: E. Ferreira, agosto de 2008)

No PE Chandless também foram encontradas formações vegetais conhecidas como ‘queimadas’, que antes da realização da AER eram conhecidas apenas pelos habitantes que residem naquela UC. As ‘queimadas’ consistem em pequenas áreas abertas desprovidas do estrato arbóreo, mas com a superfície recoberta por vegetação rasteira e poucas árvores emergentes colonizadas por lianas herbáceas. Visto do alto tem-se a impressão de pequenas clareiras feitas pelo homem no meio da floresta (Figura 3). Uma inspeção in loco, entretanto, revela que a falta de vegetação na área da ‘queimada’ se deve ao fato da mesma se constituir em uma espécie de igapó permanente ou parcialmente alagado.

De acordo com as poucas informações obtidas durante a AER, pode-se sugerir que as ‘queimadas’ não apresentam padrão regular de distribuição e não estão associadas com nenhum tipo particular de formação florestal. A vegetação herbácea e arbustiva que recobre a área da ‘queimada’ é muito densa e a lâmina d'água tem profundidade desconhecida, mas é, aparentemente, rasa. Todas as imagens aéreas e uma inspeção terrestre indicam que a acumulação de água nas ‘queimadas’ se deve a sua estreita relação com pequenos igarapés de águas claras, estando descartada a possibilidade de elas serem lagos derivados de meandros abandonados dos rios que drenam a UC.

FIGURA 3 - Imagem aérea de uma ‘queimada’, formação vegetal desconhecida que ocorre no PE Chandless (Foto: E. Ferreira, agosto de 2008)

As observações realizadas a partir de sobrevôos indicam ainda que podem existir dezenas dessas formações na região de influência do rio Chandless, na parte central do Parque.

Do pouco que se pode observar sobre as ‘queimadas’, é possível sugerir que elas sejam uma espécie de ‘wetland’, cuja definição é muito contraditória pois envovlve muitas variáveis (Cowardin e Golet, 1995). Foi possível observar durante a AER que as queimadas apresentam águas rasas e o solo local é saturado de água. Se supõe que haja acúmulo de material orgânico proveniente da vegetação e foi observada a presença de plantas adaptados à vida aquática. Estas características levam à eliminação da classificação das queimadas como Áreas Pioneiras de Influência Fluvial, como sugerido na classificação de vegetação do projeto RADAMBRASIL (IBGE, 1986).

Guntenspergen e Stearns (1985) apud Paz (2003) sugerem alguns conceitos relevantes para o entendimento desse tipo de ecossistema: (i) não são sistemas estáticos, mas altamente dinâmicos e situados na interface entre ambientes terrestres e aquáticos; (ii) mudam naturalmente, ou seja, estão sempre em evolução, buscando um equilíbrio com o ambiente ao redor, em função do clima, da hidrologia, das espécies presentes, da geologia e até da interação com sistemas adjacentes; (iii) apresentam características individuais resultantes da variação dos regimes climático e hidrológico, da diversidade de espécies e de eventos passados, gerando ecossistemas muito diferentes entre si.

Dessa forma, e considerando o inventário de áreas úmidas para a região Neotropical de Scott & Carbonell (1986), se classifica aqui as ‘queimadas’ como lagoas de origem fluvial, cujo principal elemento alimentador e de drenagem é formado por pequenos igarapés.

2. MÉTODOS

2.1. Definição dos locais de amostragem

A definição dos locais de amostragem foi feita alguns meses antes da ida a campo mediante o uso de imagem de satélite e usando como base o mapa de vegetação do Estado publicado em ACRE (2000). Foram selecionados alguns pontos potenciais para a instalação de trilhas ao longo da unidade. A determinação das localidades para a abertura das trilhas levou em consideração as condições de acesso aos respectivos locais e a representatividade da tipologia que se pretendia amostrar.

Em dezembro de 2007, por ocasião da primeira campanha de campo, e em junho de 2008, por ocasião da segunda campanha, equipes precursoras foram à unidade para proceder a abertura das trilhas. Para a primeira campanha, realizada inteiramente dentro da área da UC, foram instaladas nove trilhas em formações florestais localizadas ao longo dos principais cursos de água que drenam a unidade. As trilhas abertas estavam assim distribuídas: uma ao longo do igarapé Cuchichá, uma na área do igarapé Chandless-chá e as demais ao longo do rio Chandless (Figura 4, linhas em cor vermelha). Para a segunda campanha, que também incluiu levantamentos em áreas adjacentes à UC, e que teve como base a cidade de Santa Rosa do Purus, foram instaladas seis trilhas. Quatro delas foram abertas em áreas florestais de lotes de agricultores do Projeto de Assentamento Agrícola Santa Rosa, do INCRA, na divisa com o Parque, e duas dentro da área da UC (Figura 5, linhas em cor laranja).

FIGURA 4 - Trilhas abertas na UC durante a 1ª. Fase da AER, em fevereiro de 2008 (Fonte: SOS Amazônia)

Durante o trabalho de campo outros pontos de observação foram selecionados na medida em que as equipes envolvidas na coleta de dados indicassem a necessidade.

2.2. Levantamentos de campo – Inventários Florísticos

a) Parcelas: para a realização dos inventários foram abertas parcelas de 1.000 m² (100 x 10 m), subdivididas em 5 parcelas menores de 10 x 20 m. Em cada uma das parcelas foram levantadas todas as plantas com mais de 10 cm de DAP (diâmetro a 1,30 m do solo), incluindo as lianas de maior porte. Este método é similar ao adotado durante a AER da Estação Ecológica Rio Acre (Ferreira e Oliveira, 2005; Silveira et alii, 2006).

b) Amostragem dos diferentes táxons nas parcelas: as epífitas foram contabilizadas na parcela um de cada um dos transectos instalados. As pteridófitas e ervas de menor porte foram contabilizadas na parcela 2, sendo que a densidade foi determinada em uma pequena subparcela medindo 2 x 2 m. Todas as plantas com menos de 10 cm de Diâmetro a Altura do Peito (DAP), incluindo as regenerações, foram inventariadas na parcela 3. Isto foi feito porque muitas vezes estes táxons ocorrem em grande número, comprometendo a agilidade do trabalho. A diversidade e densidade de bambu foram inventariadas na parcela 4. A contabilização das espécies de bambu foi feita com base na contagem do número de colmos por parcela visto ser impossível discriminar os indivíduos.

FIGURA 5 - Trilhas abertas na UC e áreas adjacentes durante a 2ª. Fase da AER - agosto de 2008 (Fonte: SOS Amazônia)

Para cada uma das plantas amostradas, foram anotados os nomes vulgares, família botânica, feita a identificação de gênero e espécie no campo, ou posteriormente no herbário. Além disso, foi anotado o DAP das plantas com mais de 10 cm de diâmetro e estimada a altura total e comercial. Foi anotado ainda o estágio fenológico de cada planta levantada.

c) Transecto praia-floresta (segunda campanha): consistiu na abertura de um transecto com 200 m de comprimento, medido desde a margem do rio até a floresta primária de terra-firme. Ele foi aberto de forma perpendicular ao curso do rio e todas as plantas até 5 m de distância para o lado esquerdo e direito do transecto foram identificadas. O inventário foi qualitativo.

d) Trilhas menores (primeira campanha) e pontos de observação sem abertura de trilhas ou instalação de parcelas (primeira e segunda campanha): foram abertas duas trilhas com 100 m de comprimento (primeira campanha) ao longo de pontos onde a vegetação necessitava ser estudada porque outros membros da expedição tinham realizado trabalho no local ou pelo fato da vegetação local ser de interesse para todas as equipes e não ter sido incluída nos transectos citados acima. Na segunda campanha foram realizadas observações não sistemáticas em áreas naturais (Lago do Capitão, margem e floresta adjacente ao lago do Luisinho) e antropizadas (área urbana de Santa Rosa, cercanias do lixão da cidade e uma fazenda de criação de gado).

Em todos os pontos amostrados, as coletas botânicas, para posterior identificação botânica das amostras, foram realizadas apenas quando as espécies possuíam flores ou frutos ou quando não era possível realizar a identificação no campo. As informações levantadas nos transectos, nas trilhas menores e ao longo dos pontos de observação permitiram fazer uma caracterização das diferentes fisionomias, determinar a composição de espécies vegetais presentes e avaliar o estado de conservação e os impactos antrópicos.

3. CARACTERIZAÇÃO DA VEGETAÇÃO DO PE CHANDLESS

3.1. Caracterização, definição e classificação

A característica mais marcante da vegetação do PE Chandless é o comportamento caducifólio do dossel das suas florestas nas áreas de terra firme. Esta é a principal razão que impede a classificação das formações florestais da UC como Floresta Ombrófila Aberta, conforme proposto no manual técnico da vegetação brasileira (IBGE, 1992). Este manual oferece como alternativas para a classificação das florestas do PE Chandless a possibilidade de denominá-las Florestas Tropicais Semicaducifólias ou Caducifólias.

A primeira classificação, terminologicamente mais adequada, não se aplica porque conceitualmente IBGE (1992) condiciona a ocorrência de florestas semicaducifólias às regiões com dupla estacionalidade da condição climática: uma tropical, com estação de chuvas intensas seguida de período seco, e outra subtropical sem período seco, mas com seca fisiológica em decorrência do frio intenso no período de inverno (temperaturas médias inferiores a 15ºC).

Há que se observar, entretanto, que a definição de formação semicaducifólia – sem considerar o aspecto climático, é, em teoria, mais aplicável aos casos das florestas encontradas no PE Chandless. Como indicado acima, apenas parte dos componentes da formação florestal tem comportamento caducifólio – o dossel. Os estratos intermediários e inferiores são perenifólios. As palmeiras, por exemplo, são perenifólias e dominam o sub-bosque de grande parte das florestas da UC.

Resta, portanto, classificar conceitualmente as florestas do PE Chandless na única alternativa disponível no sistema de classificação do IBGE (1992): Floresta Tropical Caducifólia. Esta formação, conforme o manual citado, é definida como “caracterizada por duas estações climáticas bem demarcadas, uma chuvosa seguida de longo período biologicamente seco, ocorre na forma de disjunções florestais, apresentando um estrato dominante macro ou mesofanerófito predominantemente caducifólio, com mais de 50% dos indivíduos despidos de folhagem no período desfavorável”. O fato das condições climáticas na região do PE Chandless não apresentarem um período seco tão prolongado como sugerido na conceituação acima não invalida a classificação das florestas da UC nesta categoria.

Vale, todavia, uma crítica ao sistema de classificação do IBGE. Conceitualmente, Florestas Caducifólias sugerem que todos os estratos perdem simultaneamente as folhas em uma determinada época do ano. Em contraste, Florestas Semicaducifólias sugerem que apenas um ou alguns dos estratos, mas não todos, perdem as folhas. Infelizmente, o sistema de classificação da vegetação brasileira parece dar um peso grande demais às condições climáticas, impedindo ou limitando a correta aplicação dos termos fitológicos mais adequados.

Os primeiros indícios de que as florestas naquela região são distintas das demais formações já registradas para o Acre remontam ao trabalho de caracterização da vegetação da ESEC Rio Acre (Ferreira, 2006). Posteriormente, sobrevôo realizado pela equipe técnica da Fundação SOS Amazônia em julho de 2007, e relatos do professor da Universidade Federal do Acre - UFAC, Roberto Feres (comunicação pessoal, 2008) reforçaram as suspeitas sobre a ocorrência de um alto grau de deciduidade do componente arbóreo daquelas florestas. A segunda etapa de campo da AER do Chandless realizada no período seco e o sobrevôo da unidade feito na mesma época (agosto de 2008) confirmaram não apenas o caráter diferenciado das florestas de terra firme do Parque, mas também que uma extensa área florestal localizada na região leste do Acre, ao longo da fronteira peruana, e que deve abranger também a área da ESEC Rio Acre, apresenta o mesmo comportamento.

3.2. Afinidades com a vegetação da ESEC Rio Acre

A vegetação do PE Chandless tem afinidade com aquela encontrada na ESEC Rio Acre (Ferreira, 2006). Em 2005, Ferreira e Oliveira já tinham observado que a maioria dos indivíduos arbóreos nas florestas das encostas e dos topos das elevações na área da ESEC era decídua no período da seca. Entretanto, como aquele ano foi climaticamente atípico em razão da ocorrência da seca mais severa registrada na Amazônia Ocidental, a formalização desta nova classificação não foi possível. Durante a segunda etapa da AER daquela UC, ocorrida no período chuvoso, os inventários florísticos realizados por Silveira et alii (2006) identificaram que 61% das formas de vida classificadas como arbóreas correspondiam a espécies deciduais. Esse resultado reforçou a idéia de que na região leste do Acre, as formações vegetais não se comportavam como típicas Florestas Ombrófilas Abertas.

Tanto o PE Chandless como a ESEC Rio Acre estão inseridos no domínio da Formação Solimões (BRASIL, 1976), caracterizada pela presença de rochas sedimentares de idade pliopleistocênica da Sub-Região dos Baixos Platôs da Amazônia, dissecada na forma de interflúvios colinosos ou em relevo ondulado. As condições climáticas nas duas UCs são equivalentes, com índice pluviométrico em anos normais de 1.900 mm, podendo, entretanto, recuar para menos de 1.500 mm em anos muito secos, e uma sazonalidade da precipitação bastante pronunciada (Duarte, 2006). O período seco, por exemplo, chega a se estender por até cinco meses (meados de abril a meados de setembro), mesmo nos anos considerados climaticamente normais.

Ao contrário do que foi observado na ESEC Rio Acre, onde as diferentes feições fitoecológicas variam de acordo com as características peculiares que estas adquirem em função do relevo nas quais estão inseridas (Ferreira, 2006), no PE Chandless a altitude não pareceu ser o elemento controlador das mudanças na tipologia florestal. Lá, a presença ou ausência do bambu e de palmeiras no sub-bosque são os elementos definidores da paisagem.

3.3. PE Chandless no limite sul da Floresta Ombrófila Aberta da Amazônia

As florestas com comportamento caducifólio encontradas no PE Chandless estão, geograficamente, no limite sul do domínio da Floresta Ombrófila Aberta da Amazônia. Silveira et alii (2006) não descartam essa possibilidade e sugerem que a presença de espécies decíduas e semidecíduas nas florestas dessa parte da Amazônia refletem relações florísticas dessa região com Florestas Estacionais, Cerrado e as Matas Secas. Eles afirmam que na ESEC Rio Acre, as florestas abertas com palmeiras associadas com bambu, apresentam elementos comuns entre as florestas semidecíduas e o cerradão, que é o elemento chave na relação entre florestas estacionais ou semidecíduas e o cerrado.

Ferreira e Oliveira (2005) já haviam alertado para a ausência da palmeira açaí Euterpe precatoria e uma abundância acima do normal da jaciarana Syagrus sancona na área da ESEC. O mesmo padrão de ausência-ocorrência destas espécies foi observado no PE Chandless. Nesta UC, a jaciarana é particularmente abundante nas florestas que margeiam o rio Chandless após a boca do igarapé Cuchichá, chegando a rivalizar em abundância com outras espécies de palmeiras mais comuns como a paxiubinha Socratea exorrhiza e paxiubão Iriartea deltoidea. É importante notar que o gênero Syagrus, com 34 espécies nativas em território brasileiro (Lorenzi et alii, 2004), é o grupo de palmeira mais diversificado nas regiões de cerrado no Centro-Oeste do país

3.4.Florestas caducifólias: um novo paradigma na fitogeografia acreana?

Admitir que as florestas do PE Chandless são Estacionais e Caducifólias vai de encontro à classificação fitogeográfica ‘clássica’ do Estado proposta em BRASIL (1976; 1977), cuja escala efetiva de estudo é de 1:1.000.000. Da mesma forma, ela contraria as linhas gerais dessa classificação, porém com um pouco mais de detalhamento, adotadas nas fases I e II do Zoneamento Ecológico e Econômico do Acre (ACRE, 2000; 2006), que usou escala de 1:250.000.

A AER do PE Chandless, durante as suas duas campanhas de campo, consistiu em um esforço de pesquisa sistemático, detalhado, representativo, intensivo e repetitivo. Nela as imagens de satélite e respectivas hipóteses de tipologias inferidas a partir delas serviram para guiar a instalação de pontos amostrais e os estudos no campo se basearam em inventários florísticos. Pereira e Bersch (2006), comentando sobre a forma como se definiram as grandes formações fitoecológicas do Acre, afirmam que ela se baseou unicamente na interpretação de imagens de satélite e em informações de inventários florestais. Pode-se, dessa forma, inferir que a classificação da vegetação acreana como Floresta Ombrófila Densa, Floresta Ombrófila Aberta e Campinaranas está fortemente baseada em aspectos estruturais e fisionômicos. Muito pouco foi considerado dos aspectos florísticos, climáticos e de comportamento fenológico das florestas nativas do Estado.

3.5. Gênese das Florestas Caducifólias na região

Por (1992) sugere que as florestas estacionais, especialmente as da bacia do rio Paraná e as florestas residuais e de galeria ao longo das principais bacias fluviais daquela região, funcionaram como uma ponte ecológica para as migrações florísticas entre a Mata Atlântica e as florestas no oeste da Amazônia localizadas nas adjacências do Rio Paraguai e tributários do Rio Madeira, no oeste, incluindo o rio Guaporé. Muitas destas florestas são estacionais semideciduais e se distribuem pela depressão pantaneira do Mato Grosso do Sul, margeando rios da bacia hidrográfica do Paraguai (IBGE 1992).

Ratter (1987) aponta para a existência de manchas de florestas semidecíduas na região mais seca da “hiléia” no Mato Grosso e outros enclaves. Estudos recentes, como os de Sasaki et alii (2008) no Parque Estadual do Cristalino, localizado no extremo norte do Mato Grosso, confirmam a sugestão de Ratter e apóiam as idéias de Por, ao identificar a ocorrência de Floresta Estacional Semidecidual e Campinaranas em conjunto com Florestas Ombrófilas Abertas no referido Parque.

Prado & Gibbs (1993) alertam para a pouca atenção dada à influência das mudanças climáticas ocorridas no passado sobre a expansão da vegetação semidecídua e decídua e postulam que as espécies envolvidas na retração-expansão cíclicas das florestas são atualmente elementos das caatingas e de algumas florestas deciduais e semidecíduas que ocorrem nos Estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e norte do Paraná.

3.6.AER do PE Chandless: novas questões fitoecológicas

A AER do PE Chandless levanta outras questões fitoecológicas importantes, especialmente as relacionadas com a presença das florestas com sub-bosque dominado pelo bambu Guadua spp.

Uma questão que necessita ser investigada é se o comportamento fenológico do dossel da floresta existente da UC e regiões adjacentes é uma resposta a possíveis mudanças climáticas que estão em curso na região leste do Acre em função do alto índice de desmatamento (acima de 30%).

Outra questão diz respeito a um possível favorecimento climático indireto ao estabelecimento e manutenção das extensas áreas de florestas com bambu dominante naquela região. Esta suposição se baseia em observações de campo e de sobrevôos, que revelaram que a floresta com bambu dominante tem sempre um componente arbóreo menos numeroso do que na condição onde o bambu Guadua spp.está ausente. A deciduidade do dossel das florestas por período prolongado em função da estiagem que abre espaço físico vital e aumenta de forma dramática o nível de luminosidade que chega às camadas mais baixas da vegetação pode estar favorecendo a rápida colonização do sub-bosque dessas formações florestais pelo bambu.

Uma eventual confirmação dessa hipótese mostrará, então, que são as condições climáticas específicas daquela região, e secundariamente as características do solo e talvez a disponibilidade de água, o fator que tem limitado a expansão das florestas dominadas por bambu para regiões adjacentes no oeste do Acre, sul do Amazonas e no Peru.

TABELA 1 - Descrição sumária das tipologias vegetais do PE Chandless e suas subdivisões

CÓDIGO

AER

DESCRIÇÃO

1

FORMAÇÕES PIONEIRAS

1a

FORMAÇÕES PIONEIRAS DE INFLUÊNCIA FLUVIAL (FPIF)

Conjunto de formações vegetais pioneiras em diferentes estágios de desenvolvimento, em áreas de ativa deposição aluvial.

1b

FORMAÇÕES PIONEIRAS ALUVIAIS (FPA)

Conjunto de formações vegetais pioneiras em diferentes estágios de desenvolvimento em áreas inundáveis, em solos arenosos nas margens do rio Purus.

2

FLORESTA OMBRÓFILA ABERTA DE INFLUÊNCIA ALUVIAL

Florestas em terraços alagáveis, adjacentes aos rios Chandless e Chandless-chá e igarapé Cuchichá.

3

FLORESTA OMBRÓFILA DENSA

Florestas em fundos de vales em áreas de terra firme, encontrada no limite da UC com o município de Santa Rosa do Purus.

4

VEGETAÇÃO SOBRE LAGOAS DE ORIGEM FLUVIAL (QUEIMADAS)

Composta por ervas, arbustos e lianas, se constituindo em formações isoladas, de pequena superfície e permanentemente alagadas.

5

FLORESTA TROPICAL CADUCIFÓLIA COM BAMBU NO SUB-BOSQUE

Constitui-se em manchas com densidade variável de dominância do bambu, geralmente fáceis de serem segregadas.

6

FLORESTA TROPICAL CADUCIFÓLIA COM PALMEIRAS NO SUB-BOSQUE

6a

Floresta bem estruturada e dossel uniforme presentes nos fundos de vales e mais raramente no topo de elevações.

6b

Floresta das encostas e topo das elevações, mal estruturadas, muitas vezes ocupando áreas onde o bambu morreu em anos recentes.

3.7. Caracterização resumida das tipologias do PE Chandless

Existem 6 grandes tipologias na área do PE Chandless (Tabela 1): Formações pioneiras de influência fluvial (FPIF) e aluvial (FPA), Floresta Ombrófila Aberta de Influência Aluvial, Floresta Ombrófila Densa, Queimadas (QMA), Florestas Tropicais Caducifólias com palmeiras no sub-bosque e Florestas Tropicais Caducifólias com bambu no sub-bosque. As FPIFs estão distribuídas ao longo das margens dos rios e grandes igarapés, nas áreas de ativa deposição fluvial. A Floresta Ombrófila Aberta de Influência Aluvial ocorre nos terraços temporariamente alagáveis ao longo dos principais cursos de água que drenam a UC. A Floresta Ombrófila Densa é encontrada em pequenas manchas nos fundos de vales. As queimadas, que representam a menores formações, são encontradas em pontos isolados na parte central da UC. As Florestas Caducifólias com palmeiras e bambu no sub-bosque predominam nas áreas de terra firme da unidade.

As formações com bambu dominante geralmente ocorrem nos locais de mais baixa altitude, muitas vezes adjacentes a áreas aluviais, ou chegando a ocupar a margem dos rios. As formações onde as palmeiras dominam o sub-bosque estão presentes nas áreas mais altas e distantes dos grandes cursos de água. Nas regiões onde ela predomina, se observa que ela tem características distintas. Nos fundos de vales, por exemplo, é comum a ocorrência de paxiubais Iriartea deltoidea, o estrato herbáceo é mais diversificado e numeroso e a floresta geralmente é bem estruturada. No topo das elevações, as florestas são mais abertas e a ocorrência de palmeiras de médio porte no sub-bosque é muito grande, especialmente nos casos de jarina Phytelephas macrocarpa e murmuru Astrocaryum spp.

(*) Trabalho TERMO DE REFERÊNCIA Nº 03 / 2007 Tarefa: 01.03.19.02.01.02 / Parque Estadual Chandless / SEMA-AC, executado pela Fundação SOS Amazônia
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2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Parabéns Evandro por este trabalho.

Paulo Melo

00:30  
Anonymous Anônimo said...

Como meu projeto e sobre "Fenologia de Indivíduas Arbóreas do Dossel de uma Floresta Aberta com Bambu do Sudoeste da Amazônia,Brasil." seu projeto ampliou minha visão.

Maury Sergio

13:53  

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