AMBIENTE ACREANO: O BACARRCÃO DO SERINGAL VITÓRIA VELHA EM TARAUACÁ, ACRE
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domingo, março 20, 2011

O BACARRCÃO DO SERINGAL VITÓRIA VELHA EM TARAUACÁ, ACRE

O último adeus

Isaac Melo*





“1911” lê-se acima de teu batente!
Há cem anos mira com teus quatro olhos,
embora cansados e feridos,
os homens que passam até desaparecer
engolidos pela curva do rio.
Em cada tábua há pedaços de segredos
deixados pelos homens...
Em cada telha há respingos de vozes
que aindam ecoam pela sala deserta...
Em cada anoitecer há chamas de lamparina,
a alumiar as lembranças que aí permanecem...
Os homens passam ignorantes da história e
tu permaneces em teu mutismo sabedor.
O navio gaiola Gilberto, a naufragar,
e tu presenciaste;
as balsas de borracha, a descer rio abaixo,
e tu presenciaste;
os patrões em seus coronelismos,
e tu presenciaste;
os regatões em suas negociatas,
e tu presenciaste;
os seringueiros com suas pélas de borracha,
e tu presenciaste;
os domingos de aviamento no barracão,
e tu presenciaste;
os carros de bois saindo para os centros,
e tu presenciaste;
os guarda-livros atenciosos em seus livros-caixas,
e tu presenciaste;
as novenas e terços em dias especiais,
e tu presenciaste;
as chuvas torrenciais e os repiquetes,
e tu presenciaste;
as sortes, as desavenças e as esperanças,
e tu presenciaste...
As mãos que te ergueram onde estarão?
Elas, quem sabe, não te deixariam padecer.
O verdadeiro artista há de sempre respeitar
as obras de suas mãos!

Oh, ironia! Aqueles que podem não fazem
e os que querem não podem!
Até quando aguentarás o descaso dos homens
e as mãos esfaimadas do tempo?

NOTA DO BLOG: no verão de 1977 fui passar as férias do meio do ano em um seringal administrado pelo 'fuzileiro naval' Adson Leite. O nome, se não me engano, era 'Vitória Nova'. Lembro que fomos em um pequeno batelão com pelo menos 8 pessoas e a viagem durou pelo menos 2 dias. O pernoite foi feito neste barracão do Vitória Velha. Confesso que fiquei um pouco temeroso - estava no começo da adolescência -, pois já tinha ouvido muitas histórias de fastasmas de pessoas que haviam falecido no local em razão do naufrágio do navio gaiola 'Gilberto'. Mas o que mais me impressionou - e amedrontou - foram as histórias contadas por um senhor negro, muito velho, alto, e que parecia ser um dos primeiros desbravadores do local - ou pelo menos sabia de todas as histórias. Armei minha rede ao lado da rede do velho senhor. Foi duro dormir e pensar em todas as histórias que ele havia contado. Mais duro foi saber que ele estava lá naquele barracão no entardecer de sua vida, sem notícias de seus parentes distantes, sem conforto para seus males de velhice...enfim, um tesouro histórico que deve ter levado consigo parte da memória de Tarauacá. Não sei o que aconteceu com ele. Também nunca o esqueci. Da mesma forma sempre lembro da imponência do velho barracão.

*Isaac Melo escreve no blog Alma Acreana
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