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terça-feira, dezembro 13, 2016

BUSCAR SOLUÇÕES PARA O CLIMA É UMA NECESSIDADE QUE TRAZ BENEFÍCIOS (FINAL) (*)

REJARDINAR A BIOSFERA 

Foster Brown**, Antônio Willian Flores de Melo*** e Sabina Cerruto Ribeiro****

No artigo publicado no dia 1 de novembro de 20161 neste jornal (1), comentamos que o aumento de CO2 (Gás carbônico) na atmosfera já está causando problemas como enchentes, secas, ondas de calor, derretimento de calotas polares e promete causar muito mais nas décadas futuras.

A causa deste aumento é simples. Via queima de gás natural, petróleo e carvão estamos liberando, em décadas, carbono que levou dezenas de milhões de anos para ser depositado como vegetação morta e transformado com pressão e alta temperatura abaixo da superfície da terra. Em outras palavras, aceleramos processos naturais em um fator de um milhão de vezes.

A humanidade virou uma força geológica. Para quem pensa que isso não é verdade, mas um complô de chineses, como afirma o novo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, esse argumento não vale, mesmo sendo endossado pelas academias de ciência de vários países, inclusive do Brasil, China e Índia.

Talvez para estas pessoas, seria mais convincente falar com pessoas do campo que não vivem e trabalham em casas e salas com ar condicionado, e dependem diretamente dos recursos disponíveis na natureza. Desde 2009 conversamos com dezenas de líderes de grupos indígenas e de produtores rurais na Amazônia sul ocidental. Todos afirmam que as temperaturas estão aumentando e as estações são mais variáveis – chove quando não deveria e faz sol quando não deveria. Eles afirmam que os rios baixam mais do que antigamente nos períodos de seca.

Estas observações não são provas que o aumento de gás carbônico é responsável. Afinal o clima tem mudado naturalmente, mas as tendências das mudanças na orbita da Terra (2) e da energia do Sol (3) seriam para ter uma redução em temperatura, não um aumento.

Também os trópicos têm tanta variabilidade natural que as tendências podem ser mascaradas. Mas estas pessoas estão preocupadas pois nos últimos 15 anos eles já estão observando mudanças significativas no clima e a extrapolação para o futuro as assustam.

Fazemos torcida dos que acham que é complô, e para que o complô se revele logo e podemos focar só nos desafios de ter 9,7 bilhões de pessoas no planeta em 2050 (4), 2,4 bilhões a mais do que temos hoje.

Mas as evidências indicam que o aumento de CO2 é real e acelerando o seu impacto no clima. O que fazer?

Precisamos primeiro parar o aumento de CO2 na atmosfera, segundo, desenvolver meios de reduzi-lo, voltando a uma concentração entre 300 a 350 ppm (atualmente a concentração de CO2 é 400 ppm e aumentando numa taxa de 2 ppm por ano).

Um primeiro passo seria mudar as fontes energéticas da nossa civilização para algo que tem pouco impacto no clima. No artigo anterior, notamos que existem análises que podemos mudar o nosso sistema energético para fonte renováveis em poucas décadas.

Pode ser que as análises sejam otimistas demais, mas devemos estar discutindo quais opções são viáveis. Jacobson e colegas analisaram a situação nos Estados Unidos e projetaram que a sua base energética poderia ser mais de 80% renovável até 2030 e 100% em 2050.

Com Donald Trump como presidente, espera-se que esta transformação seja lenta nos próximos 4 anos, porém os custos de produção estão baixando rapidamente, facilitando esta mudança (5).

Mas a transformação para energia renovável não vai resolver o problema de aumento de CO2 sozinho, muito menos de reduzir CO2 na atmosfera. Temos tarefas adicionais – parar de desmatar e recuperar florestas em áreas degradadas. Cerca metade do peso seco de árvores é carbono, absorvido da atmosfera. Queimando florestas libera este carbono como CO2. Reflorestando, ou nas palavras do Dr. Antonio Nobre, “rejardinagem da biosfera”, seria uma maneira de puxar CO2 da atmosfera e guardar na biomassa das florestas (6).

Um processo similar funciona com solos. É possível aumentar a quantidade de carbono do solo, melhorando a sua fertilidade e retenção de água e reduzir o CO2 na atmosfera. Um estudo de Richard Houghton publicado em 2013 indicou que parar de desmatar e reflorestar áreas degradadas poderia tirar 4 bilhões de toneladas de carbono por ano, suficiente para parar o aumento do CO2 na atmosfera.

Se for combinado com uma mudança rápida para fontes renováveis de energia, podemos reduzir os impactos crescentes de eventos extremos climáticos. A rejardinagem da biosfera poderia ser uma estratégia global, mas com impactos locais importantes.

Vamos considerar a situação do estado do Acre. O estado tem 13% de sua área desmatada, onde parte significativa desta está degradada. A rejardinagem desses locais trariam benefícios que vão além da remoção de gases de efeito estufa, pois possibilitariam a recomposição da paisagem fragmentada e a recuperação dos serviços ambientais ali existentes. Dessa forma, seria possível aliar a mitigação das mudanças climáticas globais com a geração de benefícios importantes para a sociedade como um todo.

Agora há alguns desafios serem resolvidos nesse processo. a) Quem vai pagar para este esforço? b) Quem vai fazer? c) Como integrar esse processo com outros para ter desenvolvimento digno num planeta sustentável? Mas dadas as consequências em não fazer, acreditamos que está na hora de discutir e planejar como superar esses desafios.

Para saber mais: Houghton, RA, 2013. The emissions of carbonfrom deforestation and degradation in the tropics: past trends and futurepotential. Carbon Management 4, 539–546.

*Artigo originalmente publicado no jornal 'A Gazeta' em Rio Branco, Acre, em 15/11/2016.
**Foster Brown, pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente dos Cursos de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais e em Ciências Florestais da Universidade Federal do Acre (UFAC); cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia, do INCT SERVAMB e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico da UFAC; Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre.
***Antonio Willian Flores de Melo, professor do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza, Universidade Federal do Acre.
****Sabina Cerruto Ribeiro, professora do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza, Universidade Federal do Acre.

Foto: SOSMA

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