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25 agosto 2009

GRAVIDEZ E LEISHMANIOSE

Estudo analisa segurança do tratamento da leishmaniose durante gravidez

Informe Ensp/Agência Fiocruz de Notícias

[Os protozoários do gênero Leishmania são transmitidos ao homem e a outros mamíferos por pequenos insetos chamados flebotomíneos (Foto: IOC/Fiocruz)]

A segurança do uso de antimoniais pentavalentes (antimoniato de meglumina e estibogluconato) para tratamento da leishmaniose durante a gravidez e em crianças está sendo analisada pela equipe do Laboratório de Toxicologia Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), coordenado pelo pesquisador Francisco Paumgartten. Os estudos não clínicos (em animais) do potencial teratogênico do antimoniato de meglumina revelaram que, embora o antimônio atravesse a placenta e alcance o embrião ou feto, a exposição pré-natal à substância não causou malformações congênitas em ratos. Ainda estão sendo investigadas as consequências dessa exposição intra-útero sobre o desenvolvimento pós-natal do organismo.

As leishmanioses são doenças causadas por protozoários do gênero Leishmania. Algumas espécies de Leishmania causam enfermidades que se manifestam por lesões na pele e mucosas, que, embora não levem à morte, podem deixar sequelas e deformidades severas. Outras espécies causam doença altamente debilitante (leishamaniose visceral ou calazar), que, se não for tratada, pode evoluir para óbito. O protozoário é transmitido ao homem (e também ao cão, à raposa e a outros mamíferos) por pequenos insetos chamados flebotomíneos, também conhecidos como mosquitos-palha.

Por acometer predominantemente populações pobres e de baixo poder aquisitivo, o tratamento da leishmaniose não desperta o interesse da indústria farmacêutica, sendo, por esta razão, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das doenças mais negligenciadas no mundo. Os antimoniais (inicialmente os trivalentes e depois os pentavalentes) foram os primeiros fármacos realmente eficazes utilizados para tratar a leishmaniose e são ainda hoje o medicamento de escolha para todas as formas clínicas da doença. Os antimoniais pentavalentes estão há mais de 60 anos no mercado e, portanto, não têm mais proteção patentária. Como na época em que os antimoniais pentavalentes chegaram ao mercado os estudos pré-clínicos e clínicos realizados pela indústria eram extremamente simples em relação ao que hoje é exigido, faz-se necessário investigar melhor a segurança desses fármacos, particularmente em relação aos efeitos durante a gravidez e em crianças.

"Há 60 anos, não tínhamos tantas exigências para a liberação dos medicamentos. Os medicamentos usados para o tratamento da leishmaniose, por ser uma doença associada à pobreza, não geram lucros. Logo, não são de interesse de empresas farmacêuticas, que não investem em pesquisas nessa área. Por ser o antimoniato de meglumina de importância medicamentosa estratégica para o Brasil, onde a leishamaniose é endêmica, estamos realizando estudos com ratos no laboratório, para avaliar a segurança do seu uso na gravidez e, durante o período pós-natal, em indivíduos jovens ainda em fase de crescimento e maturação funcional", diz o coordenador, Francisco Paumgartten.

O projeto de pesquisa foi aprovado no Programa Estratégico de Apoio à Pesquisa em Saúde (Papes V) e já foi tema de um artigo publicado e de uma tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Ensp. A pesquisa foi desenvolvida em ratos e os resultados mostraram que a substância passa pela placenta, mas não foram encontradas evidências de se tratar de um agente teratogênico, ou seja, que produz malformação congênita. "Temos esses primeiros resultados, mas ainda não sabemos as consequências dessa exposição pré-natal para o desenvolvimento pós-natal. No momento estamos estudando esse e outros aspectos relativos à cinética e à segurança do fármaco".

Atualmente, Deise Riba Coelho, aluna de mestrado da Ensp e bolsista do Programa Bolsa Nota 10 da Faperj, está estudando os efeitos da exposição pré e pós-natal ao antimoniato de meglumina sobre o desenvolvimento do sistema nervoso central e sobre a fertilidade da prole exposta. "Como o antimoniato de meglumina é frequentemente empregado para tratar crianças, é importante conhecer melhor a segurança desse uso em indivíduos ainda em desenvolvimento", afirma Paumgartten.