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quarta-feira, abril 25, 2012

GEOGLIFOS E GEOSISTEMAS POLÍTICOS: UM PASSADO SURPREENDENTE DA AMAZÔNIA

Será que os objetivos dos ambientalistas que lutam pela preservação e restauração da floresta amazônica na atualidade não deveriam levar em consideração o fato de que na época da criação dos geoglifos, em tempos pré-colombianos, existia uma grande extensão de florestas abertas na região?


Barbara J. Rei/Antropóloga e Biologista-NPR
[Tradução: Evandro Ferreira, Blog Ambiente Acreano/Sugestão de Alceu Ranzi]


Será que a nossa compreensão sobre os assentamentos pré-colombianos na Amazônia têm qualquer relação com o debate sobre o atual modelo de desenvolvimento da região?

Em algum momento entre 1.000 e 2.000 anos atrás, as pessoas que viveram na região amazônica onde hoje é o Brasil construiram gigantescas esculturas na terra, os geoglifos, em forma de quadrados, círculos, elipses, retângulos e octógonos.

O New York Times informou sobre esses geoglifos na semana passada. Estes símbolos cerimoniais - se de fato, como alguns arqueólogos suspeitam, é isso que eles são - já são conhecidas há algum tempo. Com o aumento do desmatamento na Amazônia, mais dessas obras ancestrais estão vindo à luz. E com eles aumentou a certeza de que os antigos habitantes da amazônia praticavam agricultura intensiva e viviam espalhados em um amplo território politicamente organizado.

Esses fatos destroem uma falsa idéia preconcebida sobre a Amazônia pré-colombiana: enormes extensões de florestas intactas repletas de macacos, aves, onças e insetos, habitadas por uns poucos e dispersos grupos de humanos que sobreviviam da prática da caça e coleta.

Para ter uma melhor compreensão sobre o que é conhecido do passado da Amazônia, esta semana entrei em contato com William Woods, o geógrafo e antropólogo da Universidade de Kansas citado no artigo do New York Times. Segundo ele, "nos últimos 20 anos abundantes e convincentes provas vêm se acumulando e sugerem que havia mais pessoas na Amazônia há 500 anos que o que se observa hoje nas áreas fora das grandes cidades da região”. Em vez de pequenos grupos isolados uns dos outros, estamos falando de grandes agrupamentos humanos politicamente organizados, explicou.

Naquela época, a floresta nativa era muito mais aberta do que é hoje, e havia uma mistura de prósperos assentamentos permanentes, campos de cultivo, pomares e jardins. Palmeiras e Castanheiras já eram cultivadas. Estes habitantes ancestrais não apenas alteraram a paisagem em sua volta, mas desempenharam um papel importante na criação da paisagem.

Woods tem muito interesse nas ‘Terras Pretas dos Índios’. As ‘Terra pretas’, diz ele, "foram criadas pelos povos indígenas há centenas, algumas há milhares de anos atrás, e estão associadas a longos e duradouros locais de assentamentos indígenas onde hoje se pode encontrar amostras de cerâmicas, ossos de animais e peixes, e outros resquícios de artefatos culturais."

Então, a terra preta é o melhor exemplo de atividade antrópica no passado amazônico - e era uma atividade muito bem sucedida. Estes solos negros, Woods explica, "são muito mais férteis do que os solos vizinhos avermelhados altamente intemperizados, e têm sustentado esta fertilidade até os dias atuais, apesar do clima tropical e de cultivos freqüentes ou periódicos”.

Isso é uma coisa muito interessante para pessoas como eu, que não estava plenamente consciente sobre a importância da antropologia, uma ciência que tem o poder de transformar a maneira como pensamos sobre as interações humanas e ambientais ocorridos no nosso passado.

Para se ter uma idéia mais completa sobre a América pré-colombiana, Woods recomenda o livro ‘1491’ de Charles C. Mann. Com base no excelente artigo de C. Mann publicado em 2002 na revista 'The Atlantic', eu reforço a recomendação Woods.

Por agora, estou preocupada com uma questão que surgiu com o artigo publicado no New York times. Como essa melhor compreensão sobre o passado da Amazônia deve influenciar a maneira como pensamos sobre a conservação da Amazônia nos dias atuais?

É hora de jogar no lixo a idéia estereotipada e condescendente – construída de uma forma nobremente selvagem – de que “centenas de anos atrás, tribos indígenas migrantes viviam em harmonia com a natureza na floresta amazônica e não deixaram nenhuma pegada ecológica”.

A questão difícil é, para onde vamos a partir daqui?

Não devemos perder de vista o fato de que o desmatamento atual na Amazônia ocorre por uma combinação de razões, que vão desde o desmatamento para abertura de pastagens para o gado emfazendas, até operações de exploração madeireira em grande escala.

Mas será que os objetivos dos ambientalistas que lutam pela preservação e restauração da floresta amazônica na atualidade não deveriam levar em consideração o fato de que na época da criação dos geoglifos existia uma grande extensão de florestas abertas na região?

Eu me pergunto que tipo de relacionamento esta questão tem com uma outra: o que as pessoas que vivem hoje na Amazônia querem, no que se refere à preservação de sítios arqueológicos chave em seus países, incluindo estes onde hoje estão localizados os geoglifos?

Que tipo de balanço deve ser buscado entre preservar a floresta e preservar o patromônio cultural brasileiro?

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Artigo originalmente publicado no site da National Public Radio/NPR-USA. Para ler o artigo “Geo-Glyphs And Geo-Polities: Amazonia's Surprising Past”, clique aqui.

Crédito das imagens: Geoglifos (Site Geoglifos.com.br)/Manifestantes contra criação de gado na Amazônia (Blog Rios Vivos)

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