AMBIENTE ACREANO: O INÍCIO DO ANTROPOCENO, OU ‘ÉPOCA GEOLÓGICA DO HOMEM’, EM DEBATE
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terça-feira, setembro 22, 2015

O INÍCIO DO ANTROPOCENO, OU ‘ÉPOCA GEOLÓGICA DO HOMEM’, EM DEBATE

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Antropoceno é o termo utilizado para batizar uma nova época geológica cuja existência deriva das transformações que o homem tem promovido no planeta. Embora ainda não tenha sido incorporado na ‘Escala de Tempo Geológico’ do planeta, cuja manutenção está sob a responsabilidade da Comissão Internacional de Estratigrafia da União Internacional de Ciências Geológicas, poucos duvidam que isso seja feito em breve e raros são os que se opõem ao batismo da 'era geológica do homem' como Antropoceno.

O que parece não ser consenso é a determinação da data de seu início.

Havíamos informado em outro artigo que para alguns cientistas essa data situava-se entre o final do século XIX e os anos 50. A data mais antiga coincide com o início da revolução industrial, que promoveu um aumento significativo na quantidade de CO2 e outros gases causadores do efeito estufa na atmosfera do planeta. A data mais recente relaciona-se com a intensificação dos testes nucleares atmosféricos que produziram assinaturas isotópicas e de estruturas geológicas indiscutíveis.

Algumas opiniões sugerem que o Antropoceno teve início com a disseminação da agricultura extensiva, cerca de 8 mil anos atrás, que resultou em desmatamentos em diferentes regiões do planeta e provocou um aumento de CO2 na atmosfera. Outras acreditam que o Antropoceno teve início em meados do século XX com a aceleração do crescimento populacional no planeta que elevou a níveis insustentáveis o consumo de recursos naturais.

Um artigo publicado em março passado na respeitada revista científica Nature adicionou novos e bem embasados elementos à discussão. Os autores do estudo, os pesquisadores ingleses Simon Lewis e Mark Maslin, oferecem duas datas alternativas para o início do Antropoceno: 1610 ou 1964.

Para a primeira data o argumento que utilizam é uma queda de  7 ppm (partes por milhão) nos níveis de CO2 atmosférico que, segundo eles, foi resultado da aniquilação de aproximadamente 50 milhões de habitantes nativos das Américas por doenças e guerras após a chegada de Colombo. A eliminação desse grandioso contingente humano esvaziou extensas áreas agrícolas que, desprovidas dos agricultores, foram ocupadas por florestas que extraíram – na medida em que cresciam – o CO2 atmosférico até provocar a queda verificada em 1610.

Não se pode deixar de citar que pelo menos 28 milhões de africanos escravos foram trazidos para as Américas e o impacto da retirada desse contingente populacional da África também deve ter contribuído para a queda dos níveis de CO2 atmosférico de modo similar ao que aconteceu nas Américas.

A queda nos níveis de CO2 foi tão intensa que deu início à chamada ‘Pequena Era Glacial’ ocorrida entre os anos de 1650 e 1850. Nesse período não existia mar aberto em torno da Islândia, os Vikings abandonaram a Groenlândia, a Finlândia perdeu cerca de um terço da sua população e as geleiras nos Alpes se expandiram, cobrindo aldeias e matando milhares de pessoas. O planeta só voltou a esquentar depois do início da Revolução Industrial, a partir de 1850.

Ao propor 1610 como o marco zero do Antropoceno, os autores do estudo argumentam ainda que foi nessa época que o colonialismo, o comércio global e o desejo de riqueza e lucros começaram a causar pressão intensiva sobre o meio ambiente e os recursos naturais do planeta. A redistribuição global de plantas e animais ocorrida nesse mesmo período foi um evento que viabilizou o incremento na produção de proteína animal, cereais e outros alimentos cultivados, e permitiu uma aceleração no incremento da populacional no planeta.

A outra data alternativa, 1964, se refere ao pico nas medições de Carbono-14 presente na atmosfera em decorrência das numerosas explosões atômicas promovidas entre 1945 e 1963, quando foram banidas. As explosões resultaram no acúmulo de Carbono-14 em depósitos estratigráficos por todo o planeta e a medição do seu acúmulo permite determinar com a precisão de um ano, o pico da ocorrência desse elemento na atmosfera.

Essa precisão, que está ausente na maioria das outras propostas colocadas como início do Antropoceno, é de grande valia tendo em vista que a escala estratigráfica internacional (ou escala temporal geológica) requer pontos de separação entre as eras, períodos e épocas geológicas. Esses pontos, também conhecidos como limites estratigráficos, são indispensáveis para que a Comissão Internacional de Estratigrafia da União Internacional de Ciências Geológicas possa aceitar a inclusão do Antropoceno na Tabela Cronoestratigráfica Internacional.

Os autores do artigo publicado na Nature encerram seus argumentos com uma proposição interessante: se o Antropoceno for aceito, que ele seja inserido diretamente após a época do Pleistoceno, substituindo por completo o Holoceno que, na tabela cronoestratigráfica, passaria a ser apenas um estágio final do Pleistoceno. Na visão deles o Homo sapiens é uma espécie surgida no Pleistoceno e a criação do Holoceno pelos geologistas do século XIV foi justificada, entre outros argumentos, pela ideia de que a distinção entre o Pleistoceno e o Holoceno se devia em parte à presença e influência dos humanos.


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