AMBIENTE ACREANO: FONTES DE FUMAÇA E A NAVALHA DE OCKHAM*
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segunda-feira, outubro 03, 2016

FONTES DE FUMAÇA E A NAVALHA DE OCKHAM*

Foster Brown** e Sonaira Silva***
  
Estes dias estamos no meio de um evento extremo climático – uma seca severa – que produz condições propícias para queimadas e consequentemente fumaça. Como exemplo, nos dias 23 e 24 de agosto deste ano a cidade de Rio Branco estava coberta com fumaça. Se continuar a seca como aconteceu nos anos 2005 e 2010, podemos ter outros dias assim, portanto vale a pena analisar um pouco de onde vem a fumaça e isto envolve entrar no processo científico ena aplicação da Navalha de Ockham.

A ciência, ao contrário da matemática, não prova nada, mas junta evidências a favor ou contra explicações de como a natureza funciona. Estas explicações mudam com tempo quando novas observações e teorias aparecem. No caso da fumaça, podemos aplicar a lei de conservação de massa, poeticamente colocada na frase atribuída ao cientista francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Mas Einstein indicou que esta lei é simplesmente uma aproximação do que já havia mostrado, que massa pode ser perdida e transformada em energia, como acontece no Sol. Mesmo assim, a lei é uma boa aproximação para compreendermos as fontes de fumaça.

No caso da fumaça em Rio Branco, a lei de conservação de massa implica que a fumaça pode vir de três fontes:(1) queimadas dentro da cidade; (2) queimadas fora da cidade mas dentro do estado do Acre; e (3) queimadas fora do estado do Acre.

No primeiro caso, esperamos fuligem e uma variação de concentração da fumaça na cidade. Se o vizinho queima no quintal dele, a fumaça seria densa, mas ela vai reduzir com a distância. No caso (2) as concentrações de fumaça seriam mais uniformes na cidade e com pouca fuligem. No caso (3), notamos em 2004 que ventos fortes associados à frentes frias podem trazer fumaça de longe, por exemplo, de queimadas em Beni e Santa Cruz na Bolívia,e afetar a qualidade do ar em Rio Branco. Ventos fortes do norte e nordeste podem trazer fumaça do Amazonas ou Rondônia.

As três fontes de fumaça contribuem para piorar a qualidade do ar em Rio Branco, mas qual é a maior fonte?A resposta depende das evidências e teorias disponíveis e muda com tempo. Se tiver muita fuligem, ela indica que as fontes estão bem próximas,na cidade.

No caso de fumaça uniforme, a determinação é mais complicada numa seca generalizada como aconteceu em 2005, 2010 e agora, em 2016. Quando se queima fora do estado do Acre, estamos também queimando dentro do estado, dificultando a distinção entre as duas fontes.

Podemos usar uma heurística de filosofia, ou seja, um guia para encontrar explicações, chamado a Navalha de Ockham. Na verdade foi um frei chamado Guilherme que nasceu em Ockham. Ele propôs a ideia no século 14,de não complicar explicações mais do que o necessário. No caso de fumaça, isto gera uma série de possíveis explicações para testar, que vão das mais simples às mais complexas.

A mais simples explicação para fumaça seria que alguém na vizinhança está queimando algo, mas podemos rejeitar esta ideia se não tiver fuligem e se a fumaça não for uniforme por centenas de metros ou quilômetros.

A segunda explicação seria que a fonte está fora da cidade, mas dentro do estado do Acre. Para ter uma avaliação mais confiável podemos analisar os focos de calor de satélites e talvez tenhamos imagens de satélite ou relatos de indivíduos que indicam movimentos de nuvens de fumaça.

Se não encontrar estas evidências, é a hora de testar a explicação de que a fumaça vem fora do estado. Para a fumaça chegar de longe, precisa de duas condições: muitas queimadas gerando fumaça e ventos fortes e consistentes destas queimadas até Rio Branco.

No caso dos dias 23 e 24 de agosto em Rio Branco, a fumaça foi quase uniforme na cidade, sugerindo que a fonte não foi dentro de Rio Branco. Imagens do satélite Aqua nas tardes de dias 22 e 23 de agosto mostraram fumaça oriunda de queimadas perto de Capixaba e Senador Guiomard. As nuvens de fumaça nas imagens estavam movendo-se no sentido sudeste para noroeste, sugerindo que para as manhãs de 23 e 24 de agosto, estas queimadas foram as fontes principais da fumaça em Rio Branco. Nestas imagens não foi observada fumaça densa atravessando a fronteira com a Bolívia ou com o estado do Amazonas.

A fumaça causa sérios problemas a saúde humana e afeta o funcionamento dos ecossistemas. A origem da fumaça é importante, entretanto mais importante é entender que ainda estamos no início de setembro, mês tipicamente com maior registro de queimadas e incêndios florestais no Acre.

Em 2005 e 2010, cerca de metade dos focos de calor do ano inteiro aconteceram em setembro. Nestes anos, mais de 300.000 e 100.000 hectares de floresta queimaram no Acre, respectivamente, gerando muito fumaça. Em 2005 o primeiro autor notou durante sobrevoos, grandes áreas de florestas queimando, produzindo densas nuvens de fumaça.

A Navalha do Ockham não é infalível, mas serve para priorizar a busca de explicações. Este setembro foi um pouco como os de 2005 e 2010 e tivemos outros eventos de fumaça na cidade, porém com menor intensidade.

As secas severas não causam, somente propiciam a geração de fumaça. Somos nós, seres humanos, que decidimos usar fogo e gerar fumaça na Amazônia. Esperamos que em secas futuras possamos escolher ter ar limpo dentro e fora do estado do Acre.

*Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta, em Rio Branco, Acre, em 03/11/2016;
**Foster Brown, Pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) e do Curso de Mestrado em Ciências Florestais (CiFlor) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT SERVAMB e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais
***Sonaira Souza da Silva, Professora da UFAC e Doutoranda em Ciências de Florestas Topicais do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia.

Foto: Sonaira Silva
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