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10 março 2006

SEMENTES NATIVAS PARA USO EM ARTESANATOS

É VIÁVEL BENEFICIÁ-LAS DIRETAMENTE NAS COMUNIDADES EXTRATIVISTAS?

Andréa Alechandre da Rocha & Frederico Thé Pontes
Parque Zoobotânico e Departamento de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Acre-UFAC

Parte 3

ESPÉCIES ESTUDADAS

AÇAI
Família: Arecaceae (Palmae)
Espécie: Euterpe precatoria Mart.
Nomes comuns: açaí, açaizeiro, açaí da várzea, açaí da terra firme, açaí solteiro, dentre outros.

Descrição

Euterpe precatoria Mart. é uma palmeira com caule solitário, raramente cespitoso, com até 20m de altura, com 10 a 23 cm de diâmetro, possui flores masculinas e femininas na mesma planta, frutos globosos, com 0.9 a 1.3 cm de diâmetro, de cor púrpura escuro quando amadurecidos, apresentando mesocarpo suculento de onde se extrai o vinho ou suco de açaí. Ocorre em áreas de baixio, nas margens de rios e ocasionalmente em platô. É nativa da América Central e norte da América do Sul, e encontrado no Alto Amazonas, estendendo-se ao Mato Grosso, Bolívia, Peru, sul da Colômbia e Venezuela. O processo de germinação das sementes pode começar em seguida a queda dos frutos, já que ela não tem qualquer mecanismo de dormência a longo prazo.

É muito semelhante à Euterpe oleracea, a diferença está na ausência de perfilhos na base da planta, produzindo de 4 a 6 vezes por ano, dando cachos com 4 a 12kg de frutos, com maior safra de outubro a março.

Os principais animais consumidores e dispersores de frutos de E. precatoria no pico da frutificação são pássaros da família Psitacidae (papagaios, araras), Rhamphastidae (tucanos), Crasinae (jacus), que regurgitam as sementes logo abaixo da planta mãe ou distante dela e então dispersam as sementes. (MIRANDA et al. 2001)

Usos e potencial econômico

O estipe é lenhoso sólido, sendo utilizado para assoalhos de casas e forro de barracões. Desta espécie, também se obtém o palmito, o suco ou vinho de açaí, um líquido grosso, de cor roxo-escuro, obtido da maceração da polpa dos frutos Uma palmeira produz, em média, 16 a 32 kg/ano de frutos na safra e 12 kg/ano na entressafra, e numa área bem manejada para produção de frutos, pode-se tirar cerca de 28 t/ha/ano.

A coleta dos cachos de frutos é uma tarefa árdua e perigosa, feita por trabalhadores acostumados a subir nas palmeiras de açaí. Uma vez no alto de um açaizeiro, um coletor experiente pode movimentar-se facilmente de um estipe para outro, com pouco risco de cair, e coletar os cachos de frutos maduros.

PATAUÁ
Família: Arecaceae (Palmae)
Espécie: Oenocarpus bataua Burret
Nomes comuns: patauá (Brasil), palma de leche (Colômbia), chapil (Equador).

Descrição

O patauá é uma palmeira de grande porte (15 a 25m), unicaule, com uma inflorescência que possui a forma distinta, similar a um rabo de cavalo, chamada de panícula, sustenta de 500 a 4000 frutos, cada um pesando 4 a 15 g, com um peso total de 2 a 32 kg/cacho. Somente 1 a 3 inflorescências atingem a maturidade durante o ano. No Oeste da Colômbia, o patauá floresce e frutifica durante períodos de poucas chuvas e o fruto leva de 10 a 14 meses para amadurecer, depois de polinizado (GOMES-SILVA et al., 2003).

Uma planta típica de patauá produz dois cachos de frutos, cada um pesando cerca de 15kg, sendo que em um hectare de patauazal natural na floresta, a produção pode variar de 1,6 a 3,5t de fruto fresco, sendo o cacho cortado da árvore quando maduro, já que os frutos caem após um período de uma semana ou mais. O patauá leva de 10 a 15 anos para frutificar (GOMES-SILVA et al., 2003).

O número médio de palmeiras produtivas nas florestas de baixio, que são as áreas mais úmidas com solos encharcados, foi em torno de 40 palmeiras/ ha, e nas florestas de terra firme, área de solos bem drenados, foi encontrada quase metade disso, com média de frutos por cacho de 19 kg, considerando-se dois cachos por palmeira/ ano.

Os frutos possuem uma forma redonda ovalada com epicarpo liso, de cor púrpura escura quando maduros, medem de 2,5 a 3,5 cm de comprimento, com floração entre os meses de maio a dezembro e de frutificação de dezembro a abril (GOMES-SILVA et al., 2003).

Na ausência de outras espécies como paxiubão, paxiubinha, açaí a semente com o seu desenho “rajado” é utilizado no artesanato local para confecção de colares, brincos e cortinas.

No mercado local de Rio Branco, a oferta de frutos se dá principalmente durante os meses de dezembro até meados de janeiro. Os comerciantes compram a lata de frutos por R$ 5,00 (dez/2002), e chegam a adquirir cerca de 1.500 latas/semana durante a safra em anos de boa produtividade (GOMES-SILVA, et al. 2003).

Usos e potencial econômico

Produção de óleo é o maior potencial, pois o mesmo é quase idêntico ao óleo de oliva (Olea europaea) quanto à aparência e à composição de ácidos graxos. (GOMES-SILVA et al., 2003).

JARINA
Família: Arecaceae (Palmae)
Espécie: Phytelephas macrocarpa Ruiz & Pavón
Nome comum: Jarina, corozo, marfim-vegetal, vegetable ivory, tagua.

Descrição

Phytelephas macrocarpa é uma palmeira de até 5 m de altura, tronco pequeno e rasteiro, com frutos que podem pesar até 12 kg. Cada planta feminina produz cerca de 6 a 8 cachos de frutos anos, com tamanho de uma cabeça humana, crivada de pontas, pesando cerca de 9 a 12 kg, com aproximadamente 8 a 12 sementes cada fruto. Durante a maturação, entre 6 a 12 meses, a semente endurece, adquire grossura de 1,5 cm e sua cor muda de branco para ocre claro (CETAF, 2002).

As sementes são facilmente coletadas em grande quantidade entre os meses de maio e agosto (CETAF-2002).

É nativa da região equatorial das Américas Central e do Sul. No Brasil, distribui-se por toda a região amazônica, a partir de 150 a 200m até 1000m de altitude, na submata inundável, à sombra das árvores altas, nos lugares arejados, em temperatura de 22 a 28º (CETAF-2002).

Na Amazônia a palmeira é encontrada principalmente, no sudoeste do estado do Amazonas e Acre, nos vales dos Rios Purus, Acre, Antimari, Iaco, Caeté, Maracanã e Gregório (www.feiam.org.br ).

Possui crescimento lento, levando as sementes de 3 a 4 anos para germinar e 7 a 25 anos para iniciar a frutificação. Resistência e cor são as propriedades que identificam a qualidade do marfim-vegetal (http://www.feiam.org.br/).

As espécies da subfamília Phytelephantoideae são dióicas, isto é, diferentes árvores produzem inflorescência masculina e feminina. Um marfim-vegetal com tronco de dois metros de altura tem pelo menos 35 a 40 anos (CETAF-2002).

Em inventários florestais recentes, realizados no Acre, foram encontrados até 2,8 indivíduos/ hectare (http://www.feiam.org.br/).

As palmeiras femininas da jarina são as responsáveis pela produção dos frutos. Quando o fruto amadurece, quebra-se em pedaços o epicarpo duro e espinhoso, liberando-se as sementes no solo, ainda cobertas pelo mesocarpo laranja e carnudo, acondicionadas em sacos ou cestas tecidas com fibras da floresta são levadas ao processo de secagem que pode levar diversas semanas a meses, dependendo do teor de água das sementes. Após a secagem, a casca externa torna-se mais quebradiça e pode ser removida, batendo-se em um determinado ponto proeminente, chamado de umbigo. Depois de descascadas, as sementes ainda possuem uma camada fina, cor de chocolate, firmemente aderente ao endosperma (CLAY et al., 2000).

Usos e potencial econômico

O uso principal da jarina provém do endosperma de suas sementes, ou seja, o marfim-vegetal, que possui uma textura dura e pesada, de um tom cremoso; quando polido, é bastante similar ao marfim verdadeiro, fácil de polir e pintar, sendo apropriado para esculpir imagens, peças de xadrez, maçanetas, peças para fabricação de jóias e botões (www.virtual2000.com.br/jarina).

O marfim-vegetal não somente é semelhante ao marfim verdadeiro, mas, como este, provém de fontes exóticas de áreas remotas e silvestres. (www.virtual2000.com.br/jarina).

PAXIUBÃO
Família: Arecaceae (Palmae)
Espécie: Iriartea deltoidea Ruiz & Pavón
Nome comum: paxiubão, castiçal, baxiúba, zancona, bombom, barriguda.

Descrição

Palmeira monóica, de grande porte, podendo chegar a 20m de altura, estipe solitário, ereto, colunar ou ventricoso, robusto a massivo, liso, numerosas raízes adventícias, frutos globosos. Gênero com uma espécie amplamente distribuída desde a Nicarágua até o sul da Bolívia, estendendo-se ao oriente da região Amazônica Brasileira (Ferreira, 2003).

O paxiubão é uma espécie que ocorre somente em ambientes alagados, em especial na beira de igarapés na terra firme, em relevos acidentados, tradicionalmente chamados de “grota”. Possui regeneração esporádica, provavelmente devido a seu nicho ecológico exposto ao distúrbio pela água. (KIKUCHI, et al; 2000.).

Segundo FERREIRA (2003), foram encontradas uma população média de 164 palmas/ ha, das quais 50% são exploradas a uma altura de 7,5m.

PAXIUBINHA
Família: Arecaceae (Palmae)
Espécie: Socratea exorrhiza (Mart.) H. Wendl.
Nome comum: Paxiubinha

Descrição

A paxiubinha é uma espécie de floresta primária, com preferência por ambientes úmidos. Possui raízes adventícias características com espinhos. Palmeira de até 20 m de altura, de 10 a 18 cm de diâmetro, suportado por um cone de até 25 raízes adventícias acuneadas, amplamente espaçadas e que chegam a atingir 2m de comprimento, com estipe solitário, muito usado na fabricação de pisos e paredes de casa e seus frutos utilizados para artesanato regional (FERREIRA, 2003).

A paxiubinha tem sua maior dispersão na Amazônia brasileira, sendo bastante utilizada pelas comunidades ribeirinhas na construção de habitações, ornamentação e medicina popular (KIKUCHI, et al. 2003).

A espécie é abundante no interior da floresta, em solos arenosos e encharcados, próximos a igarapés. Seus frutos são bastante apreciados pela fauna silvestre, os quais são seus dispersores (FERREIRA, 2003).

Época de frutificação nos meses de maio a julho, fruto tipo baga, ovóide ou elíptico, com 2,5 a 3,5 cm de comprimento e 1,5 a 2 cm de diâmetro, amarelo-avermelhado quando maduro (FERREIRA, 2003).

Multiplica-se por sementes. Em média, cada cacho produz cerca de 185 a 556 frutos; 1 kg contém cerca de 161 a 244 sementes. Os frutos devem ser coletados no chão, imediatamente após a queda (MIRANDA et al., 2001).

Clique aqui para ler a Parte 1 deste artigo
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2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Parabéns.Acredito que são trabalhos como o seu que trarão o desenvolvimento brasileiro ao setor de palmeiras.Não tem cabimento estarmos usando palmeiras de Madagascar e não conhecermos as brasileiras.Mas acho que ainda falta um ponto que é a distribuição nacional das plantas.Deveria ser criado um sistema de divulgação e venda de sementes de palmeiras amazonenses.Para enfim,usarmos nossas plantas para decoraçâo em todo o Brasil.Abraços.Sérgio

02/08/2006 20:07  
Anonymous Anônimo said...

E agora? como faz se o Minc só que plantar dendê e outras exóticas?

20/08/2008 15:22  

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