AMBIENTE ACREANO: O LEGADO TUPI NA FLORA E NA FAUNA ACREANAS
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quarta-feira, março 19, 2008

O LEGADO TUPI NA FLORA E NA FAUNA ACREANAS

No Acre predominam palavras derivadas da língua tupi para a denominação de animais e peixes. Isso se justifica não apenas pela riqueza das espécies nesse campo, mas, sobretudo, pelo gosto alimentar e pela forma de sobrevivência dos acreanos: caça e pesca

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

O Brasil, com sua diversidade cultural singular, é um país fértil em palavras nascidas na língua tupi, vocábulos que provavelmente não existem em outros países lusófonos.

São palavras tidas como brasileirismos de origem tupi, outras regionais e/ou locais, como se mostram nos exemplos: capim, tajá, tiririca, samambaia, cipó, abacaxi, araçá, abiu, açaí, ananás, mandioca, aipim, macaxeira, sapé, ipê, imbuia, capeba, jucá, carnaúba, peroba, cumarú, paxiúba, cajarana, jacarandá, araticum, cipó, pitanga, maracujá, jabuticaba, jatobá, jenipapo, jerimum, maniva, tucumã, taioba, urucum, caju, capivara, quati, tatu, sagüi, urubu, sanhaçu, pipira, araponga, urubu, curió, sabiá, caboré, curica, jaçanã, jacamim, socó, caninana, cutia, cutiara, guariba, tracajá, maracajá, jaguatirica, paca, pacu, jacaré, tambaqui, surubim, bodó, cará, curimatã, sarapó, jacundá, jundiá, lambari, mandim, mapará, piaba, piau, pirarara, pirarucu, piranha, piranambu, tambaqui, traíra.

Jane de Castro Nogueira, Professora do Departamento de Letras da Universidade Federal do Acre, desenvolveu, durante a realização de sua dissertação de mestrado, um estudo sobre o legado da língua tupi na flora e fauna acreanas. Em suas palavras, "descrever o legado tupi, dentro das regiões acreanas, no campo da flora e da fauna é caminhar no sentido de ter uma maior compreensão da comunidade regional e, assim, abrir uma trilha para que outros estudiosos retomem e alarguem esta tarefa que não se esgota aqui, e leguem às futuras gerações dados que podem se perder no tempo, por força do rolo compressor do chamado “progresso”.

O estudo faz uma descrição de palavras da flora e da fauna acreana, com verbetes abonados com fragmentos colhidos no uso corrente e dispostos por campos semânticos ou idéias afins: flora alimentícia, medicinal, madeireira, artesanal e silvestre; fauna terrestre, aérea e aquática.

Foram trabalhados 200 verbetes de orígem indígena por meio de cotejamento em quatro dicionários, sendo um geral, um histórico e dois específicos, no intuito de verificar-se a existência ou a inexistência do registro dessas palavras.

Dos verbetes pesquisados, verificou-se que 52 deles já têm sua contextualização arquivada no Centro de Estudos Dialetológicos do Acre - CEDAC. Outros 148 foram pesquisadas por meio de questionário com pessoas residentes no 1º e 2º Distritos de Rio Branco-Acre. Dos quatro dicionários selecionados e pesquisados, encontram-se 186 palavras registradas, sendo que o dicionário geral registra a maior ocorrência.

O resultado obtido indica a ocorrência de um maior número de palavras no campo semântico da fauna. Foram 111 palavras relacionadas à fauna terrestre, aérea e aquática, sendo o maior destaque na fauna aquática com 49 palavras, seguido da fauna terrestre com 37 palavras. No que se refere à distribuição por campos semânticos da flora (alimentícia, medicinal, madeireira, artesanal e silvestre), têm-se 89 palavras cotejadas, sendo a maior ocorrência na flora alimentícia, com 38 palavras.

Quanto à grande ocorrência de palavras tupi ser no campo da fauna, não é surpresa alguma, pois a sua produção e reprodução estavam eivadas na única forma de sobrevivência dos indígenas: a caça e a pesca. Esta ocorrência justifica-se não apenas pela riqueza das espécies nesse campo, mas, sobretudo, pelo gosto alimentar e pela forma de sobrevivência dos amazônidas, dado comprovado no na pesquisa.

A pesquisadora observou que nem todas as palavras tupi faziam parte dos dicionários. Isto é uma consequência do dinamismo da língua e a impossibilidade de os dicionários comportarem todas as palavras em uso. Segundo ela, essa ausência ocorre: a) por força da imensidão territorial; b) ausência de pesquisas sistematizadas sobre a linguagem; perda de uma forma por outra; c) substituição de uma forma por outra; d) mudança do comportamento, hábitos e costumes da sociedade; e) caráter político da modernidade; f) potencial sócio-econômico dos mais fortes influenciando a cultura regional e, por sua vez, influenciando a construção da língua no que diz respeito às novas formas de ler e dizer do mundo atual.

O estudo também indaga sobre a repercussão, no campo da linguagem, de palavras não dicionarizadas e denominativas de espécies animais e vegetais na Amazônia brasileira. Encontraram-se palavras denominativas do universo da flora e da fauna, em largo uso na região, e que não constam nos dicionários gerais e nem nos específicos da língua portuguesa. Tais como: cacauí, patoá, peruá, ucuúba, murici, tatajuba, bodó curica, lambari, matapiri, moló, piroaca, uruanã, sipaúba , bacorim, cutiara.

A autora conclui que é evidente que, ao se estudar o léxico de uma língua, pode-se, também apreender a realidade do grupo que a utiliza: sua cultura, sua história, seu modo de vida, sua visão de mundo. E, utilizando-se do léxico, o ser humano sempre atribuiu nome a tudo que o cerca – às coisas, às pessoas, ao espaço físico em que vive, às espécies animais e vegetais, confirmando, assim, a teoria vygotoskyana de que a linguagem e o desenvolvimento sócio-cultural determinam o desenvolvimento do pensamento.

A autora aponta ainda que o estudo de apenas 200 lexias, num imenso universo denominativo da flora e fauna regional, é uma prova de que muito ainda pode e precisa ser feito, no Brasil, em especial na região Norte, no campo da Lexicologia e Lexicografia.

E isso fica mais evidente pelo fato de, numa breve descrição envolvendo apenas 200 verbetes, ela ter encontrado mais de 14 deles não registrados nos dicionários.

Visite o Blog Biodiversidade Acreana, para ler a íntegra do artigo 'O legado Tupi na flora e fauna acreanas - contribuição para o ensino da língua portuguesa', de autoria de Jane de Castro Nogueira, professora do Departamento de Letras da UFAC. O artigo foi originalmente publicado na revista Ramal de Idéias, No. 1, 2008.
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