AMBIENTE ACREANO: PERSPECTIVAS E DESAFIOS PARA O INCREMENTO DA EXPLORAÇÃO DAS FIBRAS DE PIAÇAVA NO VALE DO JURUÁ, ACRE.*
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terça-feira, janeiro 17, 2012

PERSPECTIVAS E DESAFIOS PARA O INCREMENTO DA EXPLORAÇÃO DAS FIBRAS DE PIAÇAVA NO VALE DO JURUÁ, ACRE.*

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Piaçava é um nome de origem tupi que significa planta fibrosa e tem sido usado para designar pelo menos três espécies de palmeiras nativas do Brasil cujas fibras servem para a produção artesanal e industrial de vassouras, escovas, capachos, cordas, espanadores e outros utensílios de uso doméstico, além da cobertura de casas e outras habitações de design rústico.

Uma das espécies de piaçava nativas do Brasil ocorre apenas no vale do Juruá, no Acre, ao longo dos rios Juruá e Moa. Esta espécie, cientificamente conhecida como Aphandra natalia, é uma palmeira de porte mediano que cresce no sub-bosque de florestas primárias, em lugares não alagadiços.

No Acre a exploração e uso das fibras da piaçava se restringem ao vale do Juruá, onde seringueiros, ribeirinhos e indígenas usam as fibras extraídas da bainha da folhas para confeccionar vassouras que são comercializadas no mercado da cidade de Cruzeiro do Sul. As exportações de vassouras ou fibras de piaçava do vale do Juruá são insignificantes ou inexistentes.

A abertura permanente da BR-364 é uma grande oportunidade para impulsionar uma atividade insignificante economicamente no Acre, mas que nacionalmente tem grande importância. Em 2009, segundo o IBGE, a produção nacional de fibras de piaçava foi de 72,2 mil toneladas. Isto equivale a R$ 110,3 milhões e posiciona a atividade como a terceira mais importante dentre os produtos extrativistas vegetais não madeireiros do país, atrás da exploração dos frutos do açaí e do babaçu.

Cerca de 97% da produção nacional de piaçava origina-se na Bahia, a partir da exploração da palmeira cientificamente conhecida como Attalea funifera. O restante da produção brasileira provém de Barcelos, no Amazonas, onde ocorre uma outra espécie de piaçava, a Leopoldinia piassaba. A hegemonia mercadológica das fibras da piaçava baiana decorre de sua alta qualidade, pois apresentam grande rigidez, bom comprimento e excelente diâmetro. A piaçava amazonense, apesar do grande potencial produtivo e da grande população natural da espécie, apresenta fibras muito flexíveis e finas, características pouco desejadas pelo mercado. As fibras da piaçava acreana são bastante similares às da piaçava amazonense.

Essa desvantagem qualitativa não elimina as possibilidades mercadológicas das fibras da piaçava explorada no Acre, pois elas podem ser usadas de forma combinada com as fibras da piaçava baiana, resultando, conforme declarou um empresário acreano, em um produto de qualidade com boas chances de aceitação no mercado regional. É importante ressaltar que esse empresário produz vassouras em Rio Branco usando como matéria-prima fibra adquirida na Bahia e no Amazonas.

Esta situação sugere que a não utilização em larga escala da fibra da piaçava acreana parece ser decorrente da inexistência de oferta, ou seja, não existe um sistema de comercialização ofertando ativamente fibras e vassouras produzidas a partir da piaçava nativa do Acre. O isolamento das regiões produtoras no vale do Juruá pode ter contribuído para esta situação, mas é importante citar que as fibras são produtos não perecíveis e podem ser armazenadas ou transportadas por longos períodos, desde que adequadamente protegidas da umidade excessiva.

O papel do estado como agente fomentador da atividade, tanto sob o ponto de vista da organização comunitária quanto financeira merece ser ressaltado. Sabe-se que pelo menos uma linha dedicada exclusivamente ao extrativismo foi estabelecida pelo Ministério do Meio Ambiente em parceria com o Banco da Amazônia. Portanto, teoricamente existe crédito disponível para financiar a atividade.

Mas antes de se investir no aumento da exploração extrativista da piaçava acreana é preciso resolver questões relacionadas à forma de exploração praticada no Acre.

A espécie acreana é uma palmeira cujo tronco pode atingir, quando adulta, mais de 10 m de altura. As fibras são extraídas das folhas, que se desenvolvem na extremidade do tronco. Por esta razão os extrativistas do vale do Juruá tendem a explorar de forma mais intensa as plantas de pequeno porte. Na medida em elas crescem e a dificuldade de subir nos troncos aumenta, a exploração dos indivíduos maiores é abandonada.

Infelizmente muitos extrativistas derrubam as palmeiras mais velhas para extrair as fibras. Palmeiras com 50-100 anos tem sido abatidas em poucos minutos. Tudo para resultar na produção de até 25 vassouras vendidas aos atravessadores por cerca de R$ 1 cada. Uma atitude inaceitável que tem graves consequências para o futuro da atividade.

Esta prática tem feito com que as populações de piaçava nas regiões produtoras do vale do Juruá diminuam ano após ano. As palmeiras que tem escapado ao abate indiscriminado encontram-se cada vez mais distantes das residências dos extratores e das vias de escoamento da produção.

O investimento em pesquisas para se cultivar a espécie é algo que deve ser incentivado, pois experiências de cultivo da mesma em áreas de pastagens tem tido sucesso no Equador. Entretanto, enquanto esta iniciativa não é posta em prática, é importante que o IBAMA e o IMAC intercedam para estabelecer critérios que orientem a exploração extrativista da espécie no vale do Juruá.

A proibição da derrubada das plantas para a extração das fibras é a atitude mais importante a ser posta em prática no curto prazo, pois essa é a única forma de garantir que a exploração de piaçava no vale do Juruá tenha alguma perspectiva futura. Afinal, com a BR-364 aberta de forma permanente, compradores gananciosos oriundos de Rio Branco e de outras regiões do país poderão comprar e, principalmente, retirar da região as fibras em condições economicamente favoráveis contribuindo para acelerar ainda mais a destruição, já considerável, das populações remanescentes da espécie que ainda existem na região.

Fotos: Evandro Ferreira
*Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta, edição 7.709, página 2, no dia 17/01/2012.
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