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quarta-feira, novembro 09, 2016

DOENÇAS NEGLIGENCIADAS E A MUDANÇA CLIMÁTICA GLOBAL*

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Doenças negligenciadas são causadas por agentes infecciosos ou parasitas que prevalecem em regiões com predominância de populações de baixa renda. Elas contribuem para as desigualdades socioeconômicas globais, pois representam um entrave ao desenvolvimento dos países mais afetados. Malária, dengue, leishmaniose, doença de Chagas, esquistossomose e hanseníase são algumas das doenças negligenciadas mais comuns e se constituem em algumas das principais causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de um bilhão de pessoas, ou cerca de 15% da população mundial, estão infectadas com uma ou mais dessas doenças negligenciadas.

Outras características invariavelmente associadas às doenças negligenciadas são o baixo investimento em pesquisas para o desenvolvimento de novos fármacos, métodos diagnósticos e vacinas. Em parte, isso deriva do pouco interesse comercial da indústria farmacêutica visto que o retorno desses investimentos é reduzido pela clientela ser, em sua maioria, de baixa renda. Isso é confirmado pela baixa quantidade de novos medicamentos desenvolvidos especificamente para essas doenças. Segundo a Fiocruz, as doenças tropicais e a tuberculose correspondem a 11,4% da carga global de doenças, mas apenas 1,3% dos 1.556 novos medicamentos registrados entre 1975 e 2004 foram desenvolvidos para essas doenças. Globalmente, só 10% dos investimentos em pesquisa na área de saúde são direcionados para doenças que representam 90% da carga global de doenças.

O relatório “Tendências emergentes em pesquisa e desenvolvimento em doenças negligenciadas”, publicado em 2014 pela organização ‘Policy Cures’, indicou diminuição de 6,2% entre 2012 e 2013 no investimento para o desenvolvimento de fármacos contra essas doenças. Embora significativos, os U$ 3,2 bilhões investidos em 2013 são inferiores, por exemplo, aos U$ 4,8 bilhões que o governo americano destina anualmente apenas para pesquisas com o câncer naquele país. Comparativamente, nos EUA morrem anualmente cerca de 600 mil pessoas de câncer, ao passo que no mundo estima-se em cerca de 1 milhão os óbitos relacionados com doenças negligenciadas. Esse número excessivo de mortes é lamentável porque as medidas preventivas e os tratamentos para algumas doenças negligenciadas, apesar de bem conhecidos e em alguns casos extremamente baratos, não estão amplamente disponíveis nas áreas mais pobres do planeta.

No Brasil, um estudo feito pela OMS indica que o investimento no controle de sete doenças negligenciadas e consideradas endêmicas (Hanseníase, Esquistossomose, Leishmaniose visceral, Oncocercose, Tracoma, Filariose linfática e Chagas) poderia aumentar em R$ 55 bilhões a produtividade no país até 2030. Para chegar a esse valor, a pesquisa da OMS levou em consideração o impacto de faltas ao trabalho, aposentadorias precoces e sequelas que reduzem a capacidade de trabalho das pessoas afetadas.

Flávia Moreira, coordenadora da vigilância epidemiológica da cidade de São Cristóvão, no interior de Sergipe, revelou a um repórter do jornal ‘O Estado de São Paulo’ que tinha poucas esperanças no sucesso das iniciativas de controle de algumas doenças negligenciadas que afetavam os moradores da cidade. O desânimo de Moreira era injustificável se considerarmos que as medidas indispensáveis para resolver os problemas causados por algumas dessas doenças eram simples e relativamente baratas: coleta adequada de lixo para prevenir a Leishmaniose e tratamento da água e esgoto para evitar a proliferação dos caramujos e a contaminação pela Esquistossomose.

Se por um lado os investimentos públicos em saneamento e educação da população para erradicar e evitar a formação de focos de disseminação de doenças negligenciadas aparenta ser uma meta relativamente fácil de ser alcançada, pois em sua maioria podem ser resolvidas localmente, as consequências decorrentes do aquecimento global na expansão geográfica dessas doenças são muito mais difíceis e complexas para resolver, pois envolvem ações de âmbito local, nacional e internacional.

Em 2015 a OMS publicou o relatório ‘Investing to overcome the global impact of neglected tropical diseases’, que alerta sobre a perigosa relação entre o aquecimento global e as doenças tropicais negligenciadas. A premissa é a seguinte: o aumento da temperatura expandirá a zona tropical do planeta, ampliando as áreas favoráveis para doenças como a Malária e a Dengue. O relatório destaca que a Dengue poderá ser uma das mais ‘beneficiadas’ com a mudança do clima porque o ciclo de vida do seu vetor, o mosquito Aedes aegypti, é favorecido por temperatura, precipitação e umidade relativa do ar mais elevadas. Além disso, é possível que outras doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, como a Febre Amarela, Chikungunya e a Zika, aumentem sua incidência nos locais em que a Dengue se tornar epidêmica. E isso parece estar acontecendo hoje no Brasil.

Além da dengue, outros vetores como besouros e caracóis responsáveis pela disseminação da Doença de Chagas e da Esquistossomose também são afetados pelas mudanças do clima, sugerindo que o atual mapa das doenças tropicais mudará substancialmente no futuro. E se concordarmos que as mudanças climáticas tornarão o clima global mais extremo, com mais chuvas e inundações em algumas regiões, doenças como Cólera, Diarreias infecciosas em geral, Esquistossomose e Leptospirose poderão se tornar mais frequentes no futuro.

A OMS já deixou claro que considera as mudanças climáticas globais como a maior ameaça à saúde mundial no século XXI. Ela estimou que o aquecimento global causará 250 mil mortes adicionais por ano até 2030 em decorrência de fatores como ondas de calor mais intensas e incêndios, colapso de sistemas de produção de alimentos, conflitos relacionados à escassez de recursos (água e solos agricultáveis) e movimentos de populações, desnutrição resultante da diminuição da produção de alimentos nas regiões mais pobres e incapacitação para o trabalho das populações afetadas, e a exacerbação da pobreza com efeito na saúde das pessoas.

Embora não seja possível creditar o surto de Dengue, Chikungunya e Zika (doenças negligenciadas) em curso em Rio Branco às mudanças climáticas globais, devemos, no entanto, aproveitar a emergência médica para aprender lições e construir planos de enfrentamentos para surtos ainda mais intensos dessas e de outras doenças no futuro. Também é igualmente importante sensibilizar as instituições pesquisa públicas e privadas para priorizar o desenvolvimento de vacinas e medicamentos eficientes contra essas doenças, pois se não podemos conter as mudanças climáticas, com certeza poderemos mudar o status da dengue e outras doenças de ‘negligenciadas’ para ‘prioritárias’.      

*Artigo publicado no jornal A GAZETA, edição de 12/04/2016, página 2.
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