AMBIENTE ACREANO: VIVEREMOS UMA NOVA ‘IDADE NEGRA’ DO CONHECIMENTO SOBRE O PLANETA? (FINAL)
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terça-feira, novembro 08, 2016

VIVEREMOS UMA NOVA ‘IDADE NEGRA’ DO CONHECIMENTO SOBRE O PLANETA? (FINAL)

Foster Brown* & Evandro Ferreira**
  
William B. Gail, fundador da empresa Global Weather Corporation e ex-presidente da Sociedade Americana de Meteorologia, publicou, na edição de 19 de abril do jornal The New York Times o artigo ‘A New Dark Age Looms’ (Uma nova idade negra se aproxima). Com o potencial de se tornar um clássico e uma referência sobre o futuro da humanidade no planeta terra, o artigo discute a crescente possibilidade de que o aquecimento global promovido pelo homem o levará de volta, a despeito de todos os seus avanços científicos e tecnológicos, às trevas no que concerne ao conhecimento sobre o planeta que ele habita.

Com o auxílio do Dr. Evandro Ferreira, apresentamos uma tradução do mesmo, com pequenas e necessárias adições de texto para facilitar a compreensão, para que os leitores de A GAZETA possam se inteirar de um tópico que vem ganhando cada vez mais corpo no meio científico mundial. A parte final do artigo de William B. Gail é apresentada a seguir.

“Uma nova idade negra se aproxima” [Final]

No próximo século os historiadores creditarão a importância desse declínio à nossa inabilidade de prever o futuro. Eles talvez destaquem as próximas décadas do século atual como o período em que a humanidade, a despeito de rápidos avanços científicos e tecnológicos, atingiu o ‘pico de conhecimento’ sobre o planeta que ela ocupa.

Eles observarão que muitas décadas se passarão antes que a sociedade volte a ter novamente o mesmo nível de conhecimento. Uma exceção a esse conhecimento baseado em padrões naturais é o clima, cuja física que o rege, governa como a atmosfera se movimenta e se ajusta. Como o homem entende bem de física, é possível replicar a atmosfera em modelos computacionais. O monitoramento por estações meteorológicas e satélites são os pontos iniciais para a construção dos modelos que determinarão as previsões de como o clima evoluirá. Hoje, a precisão das previsões baseadas nesses modelos é geralmente boa para um espaço temporal de uma, e às vezes duas semanas.

Mas os agricultores precisam ter ideia de como serão os meses nos quais eles planejam realizar seus cultivos. Talvez seja possível para a ciência fazer as observações necessárias para prever, antecipadamente, o clima por um período de um mês ou talvez uma temporada completa de cultivo. O homem também está começando a entender o suficiente sobre física para fazer uso de projeções climáticas globais ou regionais uma década ou mais para frente.

Entretanto, sem um avanço substancial do conhecimento científico, continuaremos dependentes dos métodos baseados nos padrões naturais, quase empíricos, citados anteriormente para projetar o comportamento do clima no intervalo entre aquele mês em que a tecnologia atual permite prever com grande precisão e a década à frente que as simulações derivadas dos avanços no conhecimento sobre a física permitem projetar.

O problema é que, na medida em que o planeta aquece, os padrões naturais ficarão cada vez mais difíceis de serem detectados. E isso vai ser particularmente problemático para aquelas regiões do planeta sujeitas aos efeitos de fenômenos como o El Niño, ciclos de monções e outras variações climáticas de longo prazo. Sob essas condições, a previsão de eventos climáticos extremos talvez se torne muito mais difícil e o percentual de ‘adivinhação’, que hoje não é tão considerável, adquira um peso ainda maior nessas previsões.

Os oceanos, que desempenham um papel importante nos padrões climáticos globais, também verão mudanças substanciais na medida em que a temperatura global subir. As correntes oceânicas e os padrões de circulação se desenvolvem lentamente em escala de tempo de décadas ou mais. E o grande impacto dessas mudanças será sobre a indústria pesqueira, que terá que obrigatoriamente se ajustar às novas condições.

É preocupante que não existam hoje modelos confiáveis, baseados na física, que possam nos dizer como isso vai acontecer. Nesse caso, nossos melhores conhecimentos são baseados no que foi possível observar no passado, como, por exemplo, os cardumes de peixes no oceano reagem aos ciclos do El Niño. As mudanças climáticas poderão corroer ainda mais a nossa limitada capacidade de fazer essas previsões. Antecipar a previsão do potencial dos recursos pesqueiros disponíveis nos oceanos de um ano para o outro ficará ainda mais complexo.

O entendimento do planeta pela civilização se expandiu enormemente nas décadas mais recentes, tornando a humanidade mais segura e próspera. Mas na medida em que os padrões – biológicos ou não – que conhecemos e esperamos que aconteçam de forma recorrente são alterados pelo aumento da temperatura, enfrentaremos desafios gigantescos para alimentar uma população em crescimento e que está prosperando em um contexto planetário de recursos finitos. Novos avanços científicos são as nossas melhores esperanças de conseguir manter esse status quo, mas não existe a menor garantia de que esses avanços acontecerão efetivamente.

Nossos netos poderão crescer conhecendo menos sobre o planeta do que nós conhecemos hoje. E esta não é uma herança que gostaríamos de deixar para eles. Apesar disso, nossas atitudes atuais para com o planeta nos colocam no limiar de garantir que isso irá efetivamente acontecer.

Para saber mais: ‘A New Dark Age Looms’, de autoria de William B. Gail, publicado na edição de 19 de abril do jornal The New York Times (http://www.nytimes.com/2016/04/19/opinion/a-new-dark-age-looms.html).

*Foster Brown, pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT SERVAMB e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA).
**Evandro Ferreira é engenheiro agrônomo, pesquisador do INPA/Parque Zoobotânico da UFAC e Docente do Curso de Mestrado em Ciências Florestais da UFAC.
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